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Christine Dawood é a mulher que perdeu o marido e o filho na tragédia com o submarino Titan, em junho de 2023. Falou agora pela primeira vez, numa entrevista ao jornal britânico The Guardian, onde revela que recebeu os restos mortais dos familiares nove meses após o desaparecimento.
O caso chocou o mundo em 2023, quando um submarino da OceanGate, empresa privada americana focada na exploração submarina, desapareceu com cino tripulantes numa viagem para verem os destroços do navio Titanic ao fundo do mar. Foram vários dias sem saberem do submarino, com a esperança de encontrar os tripulantes vivos a desmorecer.
Foi a 22 de junho de 2023, quatro dias após o desaparecimento, que foram encontrados destroços do Titan. De acordo com a investigação, o submarino estaria a 500 metros acima dos destroços do Titanic quando implodiu.
Christina Dawood perdeu o marido, Shahzada Dawood, de 48 anos, e o filho, Suleman, de 19 naquele acidente, cuja responsabilidade coloca em Stockton Rush, fundador da OceanGate, por, segundo ela, ocultar informações sobre eventuais problemas técnicos, bem como sobre a falta de certificação do submarino para transportar pessoas. "Desde o início, eu tinha muitos motivos para odiar o Stockton, mas isso realmente ajuda? Ele morreu com eles. Se eu fico chateada com ele, estou a dar-lhe poder, e recuso-me a fazer isso. Eu escolho-me todos os dias. Se eu não o fizesse, não estaria aqui. Eu teria tirado a minha própria vida, com certeza", admite. "É muito difícil. Ser forte não significa que não estou a sentir", diz ainda, emocionada.
Nas declarações, Christina explica ainda que o marido era fascinado pelo Titanic (e é por isso que mantém, no centro da sua cozinha, a estrutura do navio montada pelo próprio). Em 2020, terá encontrado o anúncio da OceanGate com viagens até aos destroços do Titanic. Embora a mulher o tenha tentado desviar da ideia, ou pelo menos que começasse por algo mais simples ("nós nunca tínhamos feito snorkeling", diz), o marido queria partir para algo grande. "Foi isso que o tornou bem-sucedido nos negócios", recorda. "Quando tinha um objetivo claro, vai atrás dele. Mas ele não queria adrenalina. (...) Esse mergulho parecia confortável. É só fica aí sentado, certo? Ele não precisava estar em boa forma física. Era possível, conveniente", explica.
Mas o mais revelador da entrevista é o relato sobre os restos mortais das vítimas. "Só recebemos os corpos nove meses depois. Bem, quando digo corpos, quero dizer a massa que ficou. Eles vieram em duas caixinhas, como caixas de sapatos", revela. "Não encontraram muita coisa", lamenta.
Os restos mortais dos cinco tripulantes foram encontrados e separados, através de testes de ADN, pela Guarda Costeira dos Estados Unidos. "Têm uma pilha enorme que não conseguem separar, com ADN misturado, e perguntaram-me se eu queria um pouco daquilo também. Eu disse que não, só o que é do Suleman e do Shahzada", recordou.
Quanto aos dias em que não sabia do paradeiro do marido e do filho, a mulher conta que viveu em negação. "Foi como uma avalanche", relata. "Eu saiba que não podia deixar as emoções dominarem. (...) Eu disse a mim mesma que eles estavam presos", diz, emocionada, revelando que apagou todas as notícias do telemóvel. "Tudo o que a tripulação me disse foi que eles podiam ficar quatro dias lá em baixo no máximo". Mas esses quatro dias passaram e já era tarde demais.
Nessa altura, Christina recorda um conselho que uma das Guardas Costeiras Canadenses lhe deu: "A retrospetiva não vai ajudar, então não caia nessa armadilha. Só porque sabe disto agora... ninguém sabia antes de eles irem", cita, acrescentando que "lembra-se sempre destas palavras". Durante muito tempo, colocou as culpas numa decisão sua: de abrir mão do lugar dela naquele submarino para ir o filho. Hoje, vê as coisas de outra perspetiva: "Suleman queria ir e eu fiquei feliz em abrir mão do meu lugar. Fiquei feliz por ele criar memórias com o pai. Não posso mudar isso".
Dawood recorda ainda que, quando souberam naquele dia 22 de junho, que o submarino teria implodido, o pensamento foi "Graças a Deus" e explica porquê: "Quando disseram catastrófico, eu sabia que o Shahzada e Suleman nem sabiam disso. Num momento eles estavam lá e no outro não. Saber que eles não sofreram foi muito importante. Eles morreram, mas a forma como foram de alguma forma facilita as coisas", admite.
Um ano e meio depois, o relatório da Guarda Costeira norte-americana concluiu que o submarino nunca deveria ter entrado no mar. A OceanGate terá detetado anomalias em 2022, depois de uma das expedições à experiência - mas ainda assim avançou, causando a morte de Stockton Rush (CEO da OceanGate), Hamish Harding (empresário britânico), Shahzada Dawood e o seu filho, Suleman Dawood (empresários paquistaneses), e Paul-Henry Nargeolet (especialista francês no Titanic).