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A pergunta instalou-se rapidamente nas redes sociais e nos grupos de família: isto vai ser uma nova covid? A Organização Mundial da Saúde (OMS) decidiu responder de forma direta. "Preciso que me ouçam claramente: isto não é uma nova covid. O risco atual para a saúde pública causado pelo hantavírus mantém-se baixo", escreveu Tedros Adhanom Ghebreyesus numa carta aberta publicada na rede X, dirigida à população de Tenerife, onde o MV Hondius, navio de bandeira neerlandesa com três mortos a bordo e seis casos confirmados do vírus, deverá atracar na madrugada de domingo. "Os meus colegas e eu afirmámo-lo de forma inequívoca, e repito-o agora", insistiu o diretor-geral, que viajou pessoalmente para a ilha espanhola para supervisionar a operação de evacuação.
Mas o que é exatamente o hantavírus, como se apanha e porque matou já três pessoas a bordo de um cruzeiro? Há respostas que toda a gente devia ter.
O que é o hantavírus
O hantavírus não é um vírus novo. Trata-se de uma família de vírus transmitidos por roedores, com surtos documentados na Ásia e na Europa há séculos, mas identificada cientificamente apenas no século XX. Pode causar duas doenças distintas nos humanos:
Síndrome pulmonar por hantavírus: ataca os pulmões e pode evoluir para insuficiência respiratória grave. É a forma mais mortífera.
Febre hemorrágica com síndrome renal: afeta os rins e pode provocar hemorragias internas e falência renal. Menos fatal, mas igualmente grave.
Como se apanha
O principal mecanismo de contágio é a inalação de partículas em suspensão no ar. Quando os dejetos de roedores infetados, como urina, fezes ou saliva, são perturbados, libertam micropartículas que, ao serem respiradas, podem infetar quem estiver no espaço. O contacto direto com animais infetados ou com superfícies contaminadas é também uma via de risco. A exposição acontece sobretudo em:
Espaços fechados ou mal ventilados com presença de roedores
Casas, armazéns e garagens com atividade de ratos ou ratazanas
Estruturas rurais ou abandonadas durante períodos prolongados
Há, contudo, uma particularidade que coloca o surto do MV Hondius numa categoria de risco diferente. O vírus Andes, endémico no Chile e na Argentina, região de onde o cruzeiro partiu há cerca de sete semanas, é o único tipo de hantavírus com transmissão comprovada entre humanos, ainda que rara. O investigador australiano Paul Griffin alertou que, num navio, o ambiente propicia a transmissão de infeções porque muitas pessoas permanecem na mesma área durante longos períodos, o que levanta suspeitas sobre a possibilidade de transmissão subsequente entre as cerca de 147 pessoas a bordo, entre as quais um tripulante de nacionalidade portuguesa.
Porque é tão difícil detetar a tempo
Um dos aspetos mais perigosos do hantavírus é precisamente a dificuldade em reconhecê-lo. Os primeiros sintomas são quase indistinguíveis de uma gripe comum:
Febre e arrepios
Dores musculares e cefaleias
Náuseas e fadiga intensa
A médica Sonja Bartolome, do UT Southwestern Medical Center, em Dallas, resume o problema: "No início da doença, pode não ser possível distinguir entre hantavírus e gripe." Na síndrome pulmonar, os sintomas surgem entre uma a oito semanas após a exposição e podem agravar-se rapidamente, com os pulmões a acumular líquido e a provocar dificuldades respiratórias graves.
Quantos morreram e qual é a taxa de mortalidade real
A taxa de mortalidade varia consoante a estirpe. A síndrome pulmonar pode atingir os 35% de mortalidade, segundo os Centros de Controlo e Prevenção de Doenças dos EUA. A febre hemorrágica com síndrome renal apresenta taxas entre 1% e 15%.
No MV Hondius, os três óbitos confirmados incluem um casal neerlandês, sendo que o marido morreu a bordo, em Santa Helena, e a mulher colapsou no aeroporto de Joanesburgo quando tentava regressar ao seu país, e um cidadão alemão cuja causa de morte ainda aguarda confirmação laboratorial. Apenas um dos seis casos foi confirmado em laboratório até ao momento: um britânico de 69 anos em estado crítico num hospital privado na África do Sul.
Existe tratamento ou cura?
Não. A OMS confirma que não existe tratamento específico nem vacina disponível para uso geral. O que a medicina pode oferecer são cuidados de suporte:
Oxigenoterapia e ventilação mecânica
Diálise em casos de falência renal
Monitorização hemodinâmica intensiva
A rapidez no diagnóstico é determinante: quanto mais cedo for identificado, maiores as hipóteses de sobrevivência.
Como se proteger
A prevenção assenta, sobretudo, em evitar o contacto com roedores e com os espaços onde vivem. Há regras práticas que a maioria das pessoas desconhece:
Nunca varrer nem aspirar divisões com dejetos de roedores: estas ações libertam partículas virais para o ar
Em caso de limpeza de áreas contaminadas, usar sempre luvas e máscara e desinfetar previamente com lixívia
Ventilar espaços fechados como garagens ou arrecadações antes de entrar, sobretudo após períodos de inatividade
Selar fendas e aberturas em habitações ou armazéns que possam servir de acesso a roedores
Há razão para alarme?
A mensagem das autoridades internacionais é clara. Hans Kluge, diretor regional da OMS para a Europa, foi direto: "Não há razão para pânico nem para restrições de viagem." O vírus não se propaga pelo ar de forma livre como o SARS-CoV-2 ou a gripe sazonal. São estimadas entre 150 000 e 200 000 infeções por hantavírus em todo o mundo por ano, mas nos Estados Unidos, um dos países com maior vigilância epidemiológica, foram registados apenas 890 casos entre 1993 e o final de 2023, o que ilustra a raridade da doença.
O que provavelmente não sabia sobre este vírus
O hantavírus tem o nome da região coreana de Hantan, onde foi isolado pela primeira vez em 1976, durante a Guerra da Coreia, após soldados americanos adoecerem de forma inexplicável.
Em fevereiro do ano passado, Betsy Arakawa, mulher do ator Gene Hackman, morreu de síndrome pulmonar por hantavírus na sua residência no Novo México, após a descoberta de roedores mortos e ninhos em várias estruturas da propriedade.
O Novo México é o estado norte-americano com maior número histórico de casos, precisamente pela sua geografia e presença de roedores silvestres.
Há relatos históricos que sugerem que o hantavírus pode ter causado epidemias misteriosas na China há mais de mil anos, muito antes de ser identificado como vírus.