terça-feira, 08 set. 2026

Putin teme o que pode acontecer se sair da guerra sem uma conquista territorial significativa

Uma fonte próxima do círculo de Vladimir Putin revelou ao The Economist que o Presidente russo estará convencido de que uma saída da guerra sem uma vitória no Donbass poderá colocar em risco a sua própria sobrevivência.
Putin teme o que pode acontecer se sair da guerra sem uma conquista territorial significativa

Para Vladimir Putin, a questão já não será apenas saber como terminar a guerra na Ucrânia. Segundo uma investigação publicada pelo The Economist, o Presidente russo poderá considerar que a forma como o conflito termina terá consequências diretas para o seu futuro no poder e até para a sua segurança pessoal.

Uma fonte próxima do líder russo contou ao mesmo jornal que, em determinado momento desde o início da guerra, Putin terá confidenciado a pessoas do seu círculo: “Eles vão enforcar-me.” A publicação não esclarece quando é que a frase terá sido dita, quem seriam as pessoas a que o Presidente russo se referia ou em que contexto surgiu a declaração.

A informação surge associada à convicção atribuída a Putin de que abandonar o conflito sem conquistar a totalidade do Donbass, no leste da Ucrânia, seria entendido como uma derrota e poderia deixá-lo numa posição particularmente vulnerável dentro da Rússia.

Uma guerra que se tornou difícil de terminar

O conflito aproxima-se do quinto ano e, de acordo com a análise do The Economist, a duração da guerra tornou-se um problema por si só para o Kremlin.

A publicação cita elementos próximos da elite russa que descrevem um crescente sentimento de desgaste. A insatisfação da população estará a aumentar e, entre os setores mais próximos do poder, o ambiente será ainda mais negativo.

Um dos problemas identificados não será apenas o desempenho económico ou militar da Rússia, mas o tempo consumido pelo conflito. Mesmo que Moscovo consiga alcançar parte dos seus objetivos, quase cinco anos de guerra são vistos por alguns elementos do sistema como um resultado difícil de apresentar como uma "vitória inequívoca".

Dados do Levada Center citados pelo The Economist indicam que 57% dos russos descrevem atualmente a situação no país como “tensa”. Entre os fatores apontados estão a guerra, as perdas humanas, a mobilização e a incerteza relativamente ao futuro.

Putin poderá optar por escalar

É neste cenário que surge a possibilidade de uma nova intensificação da ofensiva russa.

Segundo fontes citadas pelo mesmo jornal, Putin terá decidido avançar para uma estratégia de maior pressão militar depois de semanas de discussão durante o verão. Uma das possibilidades passa pelo recrutamento de mais 300 mil a 400 mil homens, sem que seja necessariamente anunciada uma nova mobilização nacional.

O recrutamento poderá ser feito através das autoridades regionais russas, que ficariam responsáveis por cumprir determinadas metas. O decreto de mobilização assinado por Putin em 2022 continua em vigor, permitindo às autoridades recrutar novos militares sem a necessidade de um novo anúncio nacional.

A aposta numa escalada surge, assim, como uma alternativa àquilo que o Kremlin poderá considerar ainda mais perigoso: terminar a guerra sem conseguir apresentar uma conquista territorial significativa.

Donbass continua no centro da estratégia russa

A região do Donbass, que inclui Donetsk e Lugansk, permanece um dos principais objetivos de Moscovo.

A conquista integral da região é apresentada pelo The Economist como o objetivo mínimo que Putin poderá considerar necessário para poder declarar algum tipo de vitória.

O problema é que continuar a guerra também tem custos cada vez maiores. A Rússia enfrenta perdas humanas significativas, pressão económica e um desgaste crescente entre a população e as elites.

É precisamente este equilíbrio que poderá estar a condicionar as decisões do Presidente russo: terminar a guerra sem uma vitória poderá ameaçar a sua posição, mas prolongá-la indefinidamente também representa um risco crescente para o regime.