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A mais recente legislatura do PSOE, liderada por Pedro Sánchez, tem sido muitas coisas. Mas estável não é uma delas. A debilidade política, característica principal de um Governo que não consegue aprovar orçamentos e que assenta no apoio parlamentar de fações separatistas catalãs e bascas, aliada à teia que envolve o círculo mais próximo do presidente do Executivo e que vai atingindo proporções cada vez mais graves, são marcas distintivas do legado do PSOE de Sánchez. E se os acontecimentos da semana passada – a pesada derrota na Andaluzia e o caso de Zapatero – colocaram Sánchez a patinar numa fina camada de gelo, o da última quarta-feira vem agravar o diagnóstico de um partido que já estava na unidade de cuidados intensivos.
A UCO em Ferraz
A Justiça espanhola voltou a marcar presença na Rua Ferraz. E, se na última semana foi para investigar o escritório de Zapatero, onde encontraram joias e outros documentos, esta semana cruzou a estrada e entrou pela porta da sede do Partido Socialista. O motivo? Solicitar «documentação ao PSOE no âmbito da investigação sobre uma suposta trama destinada a desestabilizar os processos judiciais contra o partido». Tradução: há indícios de que os socialistas atentaram contra o Estado de direito. E de forma violenta. Quanto aos envolvidos e aos crimes que terão cometido, o segundo parágrafo do comunicado judicial não deixa margem para dúvidas: «O juiz conduz o processo contra o ex-secretário de Organização do PSOE, Santos Cerdán, María Leire Diez Castro, o empresário Javier Pérez Dolset, o ex-conselheiro da Presidência da Junta de Andaluzia, Gaspar Zarrías, e o advogado Ismael Oliver por crimes de organização criminosa, múltiplos crimes de suborno, revelação de segredos, indução a falso testemunho, falsa acusação, falsificação de documento comercial, prevaricação, tráfico de influências e crime contra as instituições do Estado». Mais: a investigação estende-se ainda a um advogado, Jacbobo Teijelo Casanova, e a um membro da Guardia Civil, Juan Sánchez Yepes, «por crimes de revelação de segredos, suborno e contra as instituições do Estado».
Esta é um novo episódio de uma novela que estreou em junho do ano passado, quando a UCO (Unidade Central Operativa) emitiu um relatório ‘bomba’ que fez Santos Cerdán, até então deputado do PSOE, cair e Pedro Sánchez pedir «desculpas à cidadania» e prometer uma «reestruturação» na cúpula socialista, um caso que o Nascer do SOL não deixou de, à data, noticiar. Os indícios que apontam para o incumprimento desta promessa são fortes.
Eleições? Só em 2027
No funcionamento normal, que é também de autopreservação, das democracias, a incapacidade de governar, as cedências que fragilizam a letra da Constituição e a unidade territorial, e um acumular de problemas com a justiça são motivos mais que suficientes para a queda de um governo e para a convocação de eleições antecipadas. Mas não em Espanha.
O líder da oposição, Alberto Nuñez Feijóo, que enfrenta o dilema de combater o Governo até que o calendário eleitoral seja cumprido ou partir para uma moção de censura, também falou. Mais uma vez, não poupou críticas a Sánchez: «Ontem, a UCO entrou na sede do Partido Socialista em Ferraz e a maioria dos espanhóis não sabia se era por causa do caso Leire, do caso das máscaras, do caso dos hidrocarbonetos ou do caso das obras públicas». «Estamos a viver um verdadeiro carrossel de crimes protagonizado pelo Governo», concluiu o líder popular numa publicação através da sua conta oficial da rede social X.
Quanto à realização de eleições, Feijóo foi agora mais claro: «Não há mais remédio senão dar a palavra aos espanhóis de forma imediata. Não podemos mais».
Quem também se juntou ao coro de pedidos de eleições antecipadas foi Felipe González, histórico dirigente dos socialistas e membro fundamental da transição democrática espanhola: «Deveria haver [eleições]. É a primeira vez que o digo: deveria haver. (…) A liderança que eu aprecio é uma liderança que não é mercenária, a que não se exerce para benefício próprio, mas para benefício da população».
Perante as duras críticas, Sánchez perguntou, numa conferência de imprensa, se lhe permitiam uma «piada», e prosseguiu com uma intervenção que merece ser citada na íntegra: «Há, portanto, algum colega que, evidentemente, me pede para antecipar as eleições porque está ciente de que terei uma maioria parlamentar mais ampla no Governo e no Congresso, o que me permitirá governar de forma muito mais tranquila. E eu agradeço-lhe por isso, mas a verdade é que não posso convocar eleições por interesse partidário; tenho de convocar eleições pelo interesse geral dos cidadãos e das cidadãs. E o interesse geral dos cidadãos e das cidadãs, neste momento, com guerras por todo o mundo, com crises que exigem respostas eficazes e também equitativas por parte da administração geral do Estado, é a estabilidade e a consolidação de políticas que nos estão a permitir, precisamente, livrar-nos das consequências sociais e económicas destas crises».
Restam poucas dúvidas que Sánchez continua a resistir com tudo o que tem e o que não tem, e estas declarações serão, para quem acompanha a política espanhola, difíceis de classificar.
Curiosamente, foi realizado um simulacro no Congresso dos Deputados, que já estava previamente agendado, enquanto a UCO entrava na sede do PSOE. Os deputados espanhóis seguiram um conjunto de procedimentos que lhes serão úteis na eventualidade de um incêndio, e talvez os membros da bancada socialista tenham tirado notas. Porque se alguém está sob brasas é Pedro Sánchez e, por arrasto, o Governo e o partido socialista.