domingo, 18 jan. 2026

Protestos no Irão espalham-se por todo o país e desafiam regime apesar de ausência de liderança

O Irão tem sido palco de sucessivas vagas de protestos nos últimos anos, agravadas pelo endurecimento das sanções internacionais e pela deterioração da situação económica. Após o conflito de 12 dias com Israel, em junho, a moeda iraniana, o rial, registou uma forte desvalorização em dezembro
Protestos no Irão espalham-se por todo o país e desafiam regime apesar de ausência de liderança

Os protestos no Irão, desencadeados pelo agravamento das dificuldades económicas, alastraram a todo o território nacional e estão a desafiar o poder teocrático, apesar de continuarem sem uma liderança clara.

A violência associada às manifestações já provocou pelo menos 38 mortos e levou à detenção de mais de 2.200 pessoas, de acordo com a Human Rights Activists News Agency, organização com sede nos EUA que acompanha a situação no país.

“A falta de uma alternativa viável de liderança minou os protestos anteriores no Irão”, afirmou Nate Swanson,. “Existem milhares de ativistas dissidentes iranianos que, se tivessem oportunidade, poderiam tornar-se estadistas respeitados (...) No entanto, o aparelho de segurança iraniano prendeu, perseguiu ou exilou todos os potenciais líderes transformadores”, acrescentou o analista do Atlantic Council, em Washington citado pela agência Lusa.

O crescimento das manifestações aumenta a pressão sobre o Governo civil iraniano e sobre o líder supremo, o ayatollah Ali Khamenei. Até ao momento, as autoridades não recorreram ao bloqueio generalizado da internet nem mobilizaram forças de segurança em grande escala, como aconteceu durante os protestos de 2022 na sequência da morte de Mahsa Amini.

Na quarta-feira, considerado o dia mais intenso desde o início da contestação, registaram-se protestos em zonas rurais e em grandes centros urbanos de todas as províncias. Segundo ativistas, pelo menos 37 protestos ocorreram em simultâneo em várias regiões do país, incluindo na cidade de Shiraz. Vídeos partilhados nas redes sociais mostram o que aparenta ser um camião antimotim a recorrer a canhões de água para dispersar manifestantes.

A agência estatal IRNA, que tem mantido um registo discreto sobre a contestação, confirmou uma manifestação de grandes dimensões em Bojnourd, bem como protestos em Kerman e Kermanshah.

As autoridades iranianas continuam a não reconhecer a dimensão nacional dos protestos, embora tenham surgido relatos de agentes de segurança feridos ou mortos.

Esta quinta-feira, as manifestações prosseguiram, com comerciantes a encerrarem lojas na província do Curdistão iraniano, num sinal de alargamento da contestação a setores económicos.

Apelo de Reza Pahlavi divide opiniões

Tal como em vagas de protestos anteriores, as atuais manifestações decorrem sem uma liderança formal. Ainda assim, o príncipe herdeiro exilado do Irão, Reza Pahlavi, filho do último Xá, apelou à mobilização popular esta quinta e sexta-feira, a partir das 20h00 locais (16h30 em Lisboa).

“Estejam onde estiverem, nas ruas ou mesmo nas vossas casas, apelo-vos a começarem a cantar exatamente a esta hora”, afirmou Pahlavi num vídeo divulgado nas redes sociais e por canais de notícias iranianos no estrangeiro. “Com base na resposta a este apelo, anunciarei os próximos passos”, acrescentou.

A adesão ao apelo poderá ser interpretada como um sinal de apoio a Pahlavi, cuja proximidade a Israel tem sido alvo de críticas no passado, sobretudo após a guerra de 12 dias entre Israel e o Irão, ocorrida em junho. Embora tenham sido observadas manifestações com símbolos associados ao antigo Xá, não é claro se refletem apoio direto a Reza Pahlavi ou apenas nostalgia por um período anterior à Revolução Islâmica de 1979.

Crise económica e repressão alimentam contestação

Entretanto, a ativista iraniana Narges Mohammadi, laureada com o Prémio Nobel da Paz, permanece detida desde dezembro.

O Irão tem sido palco de sucessivas vagas de protestos nos últimos anos, agravadas pelo endurecimento das sanções internacionais e pela deterioração da situação económica. Após o conflito de 12 dias com Israel, em junho, a moeda iraniana, o rial, registou uma forte desvalorização em dezembro.

Os protestos tiveram início pouco depois, com milhares de iranianos a manifestarem-se contra a teocracia e o agravamento das condições de vida.