Relacionados
As nove potências nucleares mundiais gastaram um valor recorde de 118,8 mil milhões de dólares (cerca de 103 mil milhões de euros) em armamento atómico durante 2025, um aumento de 19% face ao ano anterior, segundo um relatório divulgado esta terça-feira pela Campanha Internacional para a Abolição das Armas Nucleares (ICAN).
O estudo da organização, vencedora do Prémio Nobel da Paz de 2017, alerta que o crescimento contínuo destes investimentos ocorre num contexto internacional marcado por tensões geopolíticas crescentes e por um risco de utilização de armas nucleares considerado o mais elevado desde o final da Guerra Fria.
"É inconcebível que estes nove países estejam a gastar milhares de milhões numa falsa promessa de segurança. As armas nucleares não podem ser utilizadas sem causar uma catástrofe", afirmou Susi Snyder, diretora de programas da ICAN e coautora do relatório.
Estados Unidos lideram despesas nucleares
Os Estados Unidos mantiveram-se como o país que mais investe em armamento nuclear, com gastos de 69,2 mil milhões de dólares (60 mil milhões de euros), um valor superior à soma das despesas realizadas pelas restantes potências nucleares.
Segundo a ICAN, o montante investido por Washington seria suficiente para financiar durante 19 anos o orçamento atual da Organização das Nações Unidas (ONU), que enfrenta atualmente dificuldades financeiras significativas.
Além de liderarem em termos absolutos, os EUA registaram também o maior aumento anual de despesas, com uma subida de 22%.
China ultrapassa 11 mil milhões de euros em investimento nuclear
A China surge na segunda posição do ranking mundial, com gastos de 13,5 mil milhões de dólares (11,7 mil milhões de euros), reforçando a aposta na modernização do seu arsenal estratégico.
O Reino Unido ocupa o terceiro lugar, com investimentos de 12,6 mil milhões de dólares (10,9 mil milhões de euros), ultrapassando a Rússia, cujos gastos ascenderam a 9,5 mil milhões de dólares (8,2 mil milhões de euros).
Seguem-se a França, com 7,7 mil milhões de dólares (6,7 mil milhões de euros), a Índia, com 2,8 mil milhões de dólares (2,4 mil milhões de euros), o Paquistão, com 1,5 mil milhões de dólares (1,3 mil milhões de euros), Israel, com 1,2 mil milhões de dólares (cerca de mil milhões de euros), e a Coreia do Norte, com 656 milhões de dólares (568 milhões de euros).
Programas de modernização prolongam-se por décadas
A ICAN sublinha que não existem sinais de redução destes investimentos a médio ou longo prazo.
Pelo contrário, países como os Estados Unidos, a França e o Reino Unido estão envolvidos em programas de modernização e renovação dos seus arsenais nucleares que poderão prolongar-se durante várias décadas.
"Os nove Estados planeiam manter e modernizar as suas forças nucleares durante décadas, desviando milhares de milhões de dólares das reais necessidades da humanidade", alertou Alicia Sanders-Zakre, diretora de políticas da organização e coautora do relatório.
Segundo os cálculos da coligação, os gastos diários realizados pelas potências nucleares seriam suficientes para retirar cerca de dois milhões de pessoas da insegurança alimentar.
Empresas lucram milhares de milhões com contratos nucleares
O relatório destaca ainda o papel do setor privado na indústria nuclear militar, estimando que as empresas tenham obtido pelo menos 38 mil milhões de dólares em receitas associadas a contratos relacionados com armas nucleares.
A lista é liderada pela Honeywell, com receitas de 5,27 mil milhões de dólares, seguida pela Lockheed Martin, com 4,509 mil milhões de dólares.
Entre os principais beneficiários figuram ainda a Fluor Corporation (3,842 mil milhões de dólares) e a Northrop Grumman (3,166 mil milhões de dólares).
O relatório inclui também grupos industriais de grande dimensão com atividade noutros setores económicos, como a Airbus, que obteve 783 milhões de dólares em receitas relacionadas com programas nucleares, a Boeing, com 635 milhões de dólares, e a Rolls-Royce Holdings, com 1,557 mil milhões de dólares.