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Aos 56 anos, Vicky Ward decidiu revelar aquilo que a impediu de expor o criminoso sexual Jeffrey Epstein. Vive agora em Nova Iorque, de onde fala para o jornal The Telegraph.
Ward revela que teve o primeiro contacto com Epstein no outuno de 2002. Era colaboradora da revista Vanity Fair, em Nova Iorque, e recebeu um telefonema do editor Graydon Carter, a propósito de uma viagem de caridade a África com Bill Clinton, Kevin Spacey e Chris Tucker. Era uma viagem com um "misterioso financiador".
“[Carter] ligou-me e disse: ‘Ouço falar deste tipo há imenso tempo. É um completo mistério e ninguém sabe de onde vem o dinheiro dele’”, recorda. "Esse tipo" era Jeffrey Epstein.
Na altura, foi-lhe pedido que escrevesse o perfil de Epstein. Durante a investigação, surgiram as primeiras acusações de abuso sexual contra o banqueiro.
Ward recorda que Maria Farmer, uma artista que trabalhou para Epstein, e a sua irmã Annie Farmer, contaram-lhe a sua história seis anos antes da primeira condenação de Epstein.
Claro está que a jornalista não incluiu esses testemunhos no perfil final, tendo apenas deixado subentendido na frase: "Epsten é conhecido como um homem que gosta de mulher - muitas, sobretudo jovens".
Mas nem assim Ward ficou livre da ofensiva de Epstein.
A jornalista, recorda, foi chamada ao escritório do diretor executivo do banco Bear Stearns logo após a publicação doperfil. Era o banco onde Epstein tinha trabalhado. “Foi muito estranho. Passou duas horas a dizer-me como ele era extraordinário", explicou. Foram-lhe apresentados vários amigos do banqueiro, que apenas tentavam que ela acreditasse que Epstein era "um verdadeiro homem renascentista".
Mas a jornalista ainda não tinha conhecido Epstein, até este a convidar para um "chá informal" na sua mansão. Ward recorda que a casa tinha "vidros decorativos e um caniche empalhado sobre o piano". Deixou ainda exposto um livro de Marquês de Sade, escritor conhecido por romances "libertinos" e pela sua prisão por crimes sexuais, blasfémia e pornografia.
“Pensei: para ele isto é um jogo. Disse-me logo: ‘Se vais fazer isto, vamos jogar xadrez. Tu jogas com as brancas, eu com as pretas'", disse.
Mais tarde recebeu uma chamada da assistente, Lesley Groff, que lhe disse que Epstein "a achava muito bonita".
Ao longo de vários meses, Ward descobriu cada vez mais sobre Epstein. Obteve informações através de uma amiga que conhecia a companheira de Epstein, Ghislaine Maxwell, que lhe contou de festas com o príncipe Andrew.
Maria Farmer foi parte vital da sua investigação. O interesse de Epstein pela jovem artista centrava-se ao seu trabalho com figuras nuas. Epstein ofereceu-se para colocar a irmã mais nova, Annie, na universidade e, numa noite, em casa do agressor, deitou-se ao lado dela, enquanto Maxwell fazia uma massagem em topless. Mais tarde, a mais velha, Maria, foi apalpada por ambos.
"As acusações mudaram completamente a dimensão da história", afirma. Epstein começou a ligar-lhe com ameaças, dizendo-lhe que "lançaria uma maldição sobre os seus filhos" quando Ward estava grávida de gémeos, ameaçando-a com os conhecimentos no hospital onde esta iria dar à luz. O caso teve impacto na saúde dos filhos que, com o stress, nasceram prematuros e precisaram de cuidados intensivos.
Na altura, as irmãs Farmer revelaram publicamente as acusações, mas Epstein sempre as acusou de mentir.
Em janeiro de 2003, o artigo é publicado: mas sem as acusações. “Disseram-me que funcionava melhor como peça de negócios”, diz. “Lembro-me de começar a chorar no escritório.”
Também as irmãs sofreram ameaças de Maxwell, que lhes disse: "Tenham cuidado, há muitas formas de morrer".
Apesar de Ward acreditar que o artigo não foi como ela queria por pressão de Epstein, a direção da revista nega.
“Se eu tivesse conseguido publicar esta história, então todas as raparigas que Jeffrey Epstein veio a abusar nos anos seguintes… poderíamos ter evitado tudo isso", lamenta.
Vicky Ward está agora a escrever um novo livro sobre Luigi Mangione, o homem acusado de matar o diretor executivo da United Healthcare em dezembro de 2024.