Planeta está a ficar mais verde, mas cientistas avisam que isso não é necessariamente boa notícia. Perceba porquê

À primeira vista parece uma boa notícia: a Terra está a ficar mais verde, com mais vegetação a crescer em mais sítios do que há décadas. Mas um estudo internacional acaba de mostrar que este fenómeno está a acelerar de forma inesperada, e os investigadores pedem cautela antes de celebrar.
Planeta está a ficar mais verde, mas cientistas avisam que isso não é necessariamente boa notícia. Perceba porquê

Há uma faixa verde que envolve o planeta e que pulsa com as estações do ano, como se a Terra respirasse. No verão, a vegetação avança para norte. No inverno, recua para sul. É um ritmo que se repete há milénios e que, até há pouco tempo, parecia estável. Agora sabemos que não é.

Um estudo publicado na revista científica PNAS, uma das publicações de referência da Academia Nacional de Ciências dos Estados Unidos, revela que o cinturão verde do planeta está a deslocar-se de forma acelerada para nordeste. A investigação foi liderada pela Universidade de Leipzig e pelo Centro Alemão para a Investigação Integrativa da Biodiversidade (iDiv), com a participação da Universidade de Valência e de outras instituições internacionais.

O que parece à partida uma notícia animadora tem uma leitura mais complexa. Os investigadores são claros: mais verde no mapa não significa necessariamente ecossistemas mais ricos ou mais saudáveis. As espécies vegetais que avançam para norte podem não encontrar as condições ideais para sobreviver a longo prazo, e a aceleração deste movimento pode ter consequências ainda difíceis de prever para os animais e habitats locais que dependem de ciclos naturais estáveis.

Como os cientistas mediram o pulso da vegetação terrestre

Para medir este movimento, a equipa criou um método que qualquer pessoa consegue visualizar. Imaginaram um globo em que cada planta do mundo tem um pequeno peso proporcional à sua abundância. Se esse globo fosse colocado na água, afundaria sempre do lado onde há mais vegetação. Como explica o professor Miguel Mahecha, autor principal do estudo, ao portal myScience, acompanhando o movimento desse ponto ao longo de décadas a equipa conseguiu pela primeira vez ter uma bússola global para medir o pulso da vegetação da Terra.

Usando décadas de observações por satélite e dados de modelos climáticos, os investigadores determinaram que o centro verde do planeta oscila entre a sua posição mais a norte em meados de julho, no Atlântico Norte perto da Islândia, e a sua posição mais a sul em março, ao largo da costa da Libéria, na África Ocidental. Uma oscilação constante e medível, como um batimento cardíaco.

A descoberta que ninguém esperava

O deslocamento para norte já era antecipado pelos cientistas. Os invernos mais suaves e as estações de crescimento mais longas no hemisfério norte fazem com que as plantas brotem mais cedo e durem mais tempo. O que a equipa não esperava era a outra metade da descoberta.

Ao analisar décadas de dados, os investigadores detetaram também um claro movimento para leste, associado a zonas de reverdecimento intenso na Índia, na China, na Europa e na Rússia. O próprio professor Mahecha admitiu, no comunicado oficial disponível no EurekAlert, que este desvio para leste foi uma grande surpresa para toda a equipa. A hipótese de trabalho aponta para temporadas de crescimento mais longas e invernos mais suaves no hemisfério norte como motor deste duplo deslocamento, mas os investigadores sublinham que é uma conclusão que ainda precisa de ser aprofundada.

Ao contrário do que seria de esperar, o estudo não encontrou um movimento equivalente para sul durante o verão do hemisfério sul. O fenómeno não é simétrico: é no hemisfério norte que se concentra a maior parte desta transformação.

O CO2 a funcionar como adubo

Por detrás deste reverdecimento acelerado está em grande medida o aumento do dióxido de carbono na atmosfera, que funciona como um adubo natural para as plantas, estimulando a fotossíntese e permitindo que a vegetação se desenvolva em zonas onde antes era mais escassa. As temperaturas mais altas prolongam também a época em que as plantas crescem em muitas regiões do mundo.

Mas é precisamente aqui que a história se complica. Este reverdecimento não é sinónimo de natureza mais saudável. Como detalha o professor Gustau Camps-Valls, da Universidade de Valência, que participou no desenvolvimento do estudo, ao myScience, o que a equipa conseguiu foi comprimir a complexidade da biosfera num único batimento em movimento. Mas esse batimento está a mudar de ritmo, e ainda não sabemos completamente o que isso significa.

Uma ferramenta para vigiar o planeta

Para além do que revelou sobre a vegetação, o método desenvolvido pela equipa abre caminho a aplicações mais vastas. A mesma lógica pode ser usada para acompanhar alterações nos oceanos ou em padrões de temperatura à escala global, apontando para uma ferramenta capaz de monitorizar o estado geral do sistema terrestre em tempo real. O próprio site criado pelos investigadores para acompanhar o estudo, o greenwave.earth, disponibiliza uma visualização interactiva deste movimento global.

O planeta está a ficar mais verde. Mas a velocidade a que isso está a acontecer, e a direção para onde esse verde se está a deslocar, são sinais que os cientistas preferem observar com atenção antes de respirar de alívio.