Petróleo venezuelano no centro das atenções

Muitos são os interesses envolvidos e os EUA querem pôr fim à vantagem dos seus principais rivais. Na quarta-feira,  apresaram um navio venezuelano que carregava a bandeira russa
Petróleo venezuelano no centro das atenções

Quando o tema é a Venezuela, a questão do petróleo é incontornável. Falamos do país com as maiores reservas de petróleo em bruto registadas no mundo, como mostra o gráfico, e os interesses são vastos. Pouco depois de ter anunciado a operação militar americana que levou à detenção de Nicolás Maduro, o Presidente americano, Donald Trump, deu uma conferência de imprensa onde mencionou, entre outras coisas, as intenções norte-americanas em relação ao petróleo venezuelano: «Vamos fazer com que as nossas grandes empresas petrolíferas dos Estados Unidos — as maiores do mundo — invistam milhares de milhões de dólares para reparar as infraestruturas petrolíferas gravemente danificadas».

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Como escreveu David Goldman na CNN Business, «uma reforma liderada pelos EUA poderia eventualmente tornar a Venezuela um fornecedor muito maior de petróleo, criar oportunidades para as empresas petrolíferas ocidentais e servir como uma nova fonte de produção». «Também poderia manter os preços mais baixos», acrescentou, «embora preços mais baixos possam desincentivar algumas empresas americanas de produzir petróleo».

A questão do benefício ocidental é fulcral para entender a questão petrolífera. Isto porque o regime venezuelano mantinha relações próximas com a China e com a Rússia, os dois principais adversários geopolíticos dos Estados Unidos. O último embaixador dos EUA em Caracas, James Story, já havia apontado para este problema. 

Após a detenção de Maduro, a diáspora venezuelana saiu à rua um pouco por toda a parte. Em Buenos Aires, num momento caricato, um venezuelano disse a um jornalista: «Aos que dizem que os Estados Unidos estão interessados no petróleo, pergunto: o que acham que os russos e os chineses queriam? A receita das arepas?».

Ao ritmo de Trump

A China tem sido o maior comprador de petróleo venezuelano nos últimos anos e, segundo a Reuters, Pequim «concedeu linhas de crédito à Venezuela no âmbito de acordos de empréstimos em troca de petróleo». Laura Bicker, a corresponde da BBC em Pequim, escreveu que «a relação entre Pequim e Caracas era bastante simples. A China precisava de petróleo. A Venezuela precisava de dinheiro. Entre 2000 e 2023, Pequim forneceu mais de 100 mil milhões de dólares à Venezuela para financiar ferrovias, fábricas de energia e outros projetos de infraestrutura. Em troca, Caracas deu a Pequim o petróleo necessário para alimentar a sua economia em expansão». Bicker relembra ainda o facto de Pequim ter sido o destino de 80% de todo o petróleo venezuelano exportado no último ano, mas que é improvável que esta deterioração das relações Caracas-Pequim se sinta muito no território controlado por Xi Jinping. Isto porque estas importações representam apenas 4% de todas as importações de petróleo chinesas em 2025. Todavia, há empresas chinesas a operar na Venezuela que correm sérios riscos, diz Eric Olander, editor-chefe do The China-Global South Project, citado por Bicker: «Empresas chinesas como a CNPC e a Sinopec estão entre as maiores participantes no país, e existe o risco de esses ativos serem nacionalizados pelos venezuelanos, sob a orientação dos EUA, ou marginalizados no meio do caos».

Por tudo isto, não é de admirar a reação da China à intervenção americana. A porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros chinês, Mao Ning, classificou-a como um «ato típico de intimidação, uma grave violação do direito internacional, uma grave violação da soberania da Venezuela e causará graves danos aos direitos do povo venezuelano».

Mas os esforços dos EUA concentram-se na reversão desta situação. Com a detenção de Maduro, colocam-se ainda muitos pontos de interrogação quanto à transição de regime. Por enquanto, é Delcy Rodriguez, braço-direito e ex-vice-presidente de Maduro, que assume a liderança do país. Mas é uma liderança meramente hierárquica, não uma liderança de facto. Esta última está nas mãos de Donald Trump, como mostram as últimas movimentações.

Na quarta-feira, o Presidente norte-americano anunciou que «as autoridades provisórias da Venezuela entregarão entre 30 e 50 milhões de barris de petróleo de alta qualidade, sujeito a sanções, aos Estados Unidos da América». Mais, «este petróleo será vendido ao preço de mercado, e esse dinheiro será controlado por mim, como Presidente dos Estados Unidos da América, para garantir que seja usado em benefício do povo da Venezuela e dos Estados Unidos!». Esta afirmação parece deixar poucas dúvidas quanto à verdadeira fonte de autoridade atual na Venezuela, com Trump a cumprir o que prometeu na primeira conferência de imprensa após a operação que deteve Nicolás Maduro.

Petroleiro venezuelano de bandeira russa

Outro desenvolvimento quanto a esta questão de petróleo teve lugar na quarta-feira. Desta vez, a outra potência envolvida foi a Rússia. Os Estados Unidos apreenderam, no Atlântico Norte, um petroleiro que carregava a bandeira russa e que estava ligado à Venezuela, após uma perseguição de cerca de duas semanas. De acordo com um comunicado publicado na rede social Telegram pelo Ministério dos Transportes da Rússia, «em mar aberto, fora das águas territoriais de qualquer Estado, forças navais dos EUA abordaram o navio, e a comunicação com o navio foi perdida».

Trata-se de um petroleiro chamado ‘Marinera’ e que, segundo o ministério russo, «recebeu uma autorização temporária para navegar sob a bandeira da Federação Russa, emitida com base na legislação russa e nas normas do direito internacional» no passado mês de dezembro. Assim, o Kremlin acusa Washington de violar o direito do mar: «De acordo com as normas da Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar de 1982, nas águas em mar aberto vigora o regime de liberdade de navegação e nenhum Estado tem o direito de usar a força contra navios devidamente registados nas jurisdições de outros Estados». De acordo com o Público, o petroleiro em questão recusou-se «a ser abordado no mês passado e mudou para bandeira de Moscovo».

«Este navio, com um histórico nefasto, faz parte de um eixo russo-iraniano de evasão a sanções que está a alimentar o terrorismo, o conflito e a miséria do Médio Oriente à Ucrânia», disse John Healey, ministro da Defesa do Reino Unido, citado pelo Público. A embarcação estaria a fazer uma viagem do Irão para a Venezuela, mas, após tentar fugir ao bloqueio, optou por voltar ao Atlântico