terça-feira, 21 jul. 2026

Parlamento Europeu altera regras para deteção de abuso sexual infantil online e cria novo impasse legal

O Parlamento Europeu aprovou alterações às regras da União Europeia sobre a deteção de abuso sexual de crianças na internet, excluindo as comunicações protegidas por encriptação de ponta a ponta. A decisão abre um novo período de negociações com o Conselho da UE e deixa expirar, para já, o regime temporário em vigor desde 2021
Parlamento Europeu altera regras para deteção de abuso sexual infantil online e cria novo impasse legal

O Parlamento Europeu aprovou esta quinta-feira alterações à proposta do Conselho da União Europeia relativa à derrogação das regras de privacidade eletrónica para permitir a deteção de material de abuso sexual de crianças em plataformas digitais.

Entre as principais mudanças aprovadas pelos eurodeputados está a exclusão das comunicações que utilizem, tenham utilizado ou venham a utilizar criptografia de ponta a ponta (end-to-end encryption), limitando assim a possibilidade de essas mensagens serem abrangidas pelos mecanismos de deteção.

Alterações seguem agora para o Conselho da União Europeia

O texto aprovado será agora remetido ao Conselho da União Europeia, que dispõe de um prazo de três meses para aceitar ou rejeitar as alterações introduzidas pelo Parlamento.

Caso os Estados-membros não aprovem integralmente a nova posição, será desencadeado um processo de conciliação entre as duas instituições europeias, com o objetivo de alcançar um compromisso final.

Até que exista um acordo, mantém-se a incerteza jurídica sobre o enquadramento legal da deteção voluntária de conteúdos relacionados com abuso sexual infantil nas plataformas digitais.

Paulo Cunha fala em "vazio legal"

O eurodeputado do PSD Paulo Cunha considerou que a decisão do Parlamento Europeu cria um novo impasse.

"Voltamos a ter um vazio legal pelo facto de terem sido aprovadas novas alterações ao texto que obrigam à conciliação", afirmou, citado pela agência Lusa.

O eurodeputado, que integra a Comissão para as Liberdades Cívicas, Justiça e Assuntos Internos (LIBE), lamentou ainda que o Parlamento Europeu tenha "falhado, pela segunda vez, no objetivo da proteção das crianças".

Paulo Cunha criticou igualmente a eliminação da possibilidade de as autoridades terem acesso a mensagens que contenham indícios de aliciamento sexual de menores e responsabilizou os votos dos eurodeputados da Iniciativa Liberal e do Chega pelo desfecho da votação.

Regime temporário expirou em abril

Em causa está o regime temporário da União Europeia que, desde 2021, permitia aos prestadores de serviços online detetar e comunicar voluntariamente às autoridades material relacionado com abuso sexual infantil.

Esse mecanismo expirou a 3 de abril de 2026, depois de Parlamento Europeu e Conselho não terem conseguido alcançar um entendimento sobre a legislação definitiva.

A ausência de um acordo mantém em aberto o futuro das regras europeias para o combate ao abuso sexual de crianças na internet, um tema que continua a dividir as instituições europeias entre a necessidade de reforçar a proteção dos menores e a salvaguarda da privacidade das comunicações eletrónicas.