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A esperança parecia ser monarca quando os sandinistas, depondo o regime da família Somoza, anunciaram, em 1979, que a Junta de Reconstrução Nacional havia tomado o poder na Nicarágua. Daniel Ortega era o coordenador da Junta que anunciava, à semelhança de outros líderes revolucionários hispano-americanos do século XX, a vitória do povo contra a brutal tirania instalada. Porém, e também à semelhança dos seus pares na região, o prometido sol da liberdade nunca chegou a nascer. A tirania dinástica havia simplesmente mudado de face.
Numa peça publicada pela Al Jazeera em 2018, ano em que manifestações contra o regime foram brutalmente reprimidas, a jornalista Lucia Newman reportou precisamente esta realidade, recorrendo a testemunhos de comandantes que haviam ajudado a materializar a revolução.
«Cerca de quatro décadas após a revolução na Nicarágua», lê-se na entrada do texto, «os antigos comandantes sandinistas consideram que o Presidente Daniel Ortega se tornou o novo Anastasio Somoza».
«Ortega parece acreditar que aprendeu a lição», disse um antigo aliado próximo citado sob anonimato na mesma peça, «que o facto de ter respeitado certos princípios democráticos o levou a perder o poder na década de 1980. Desta vez, não quer repetir o mesmo erro».
As mais recentes proclamações de Ortega – curiosamente no dia em que se cumpriram 47 anos da revolução – são apenas a oficialização, pelo próprio, deste sentimento.
«Não voltará a haver eleições [na Nicarágua]», disse o líder do regime, que não deixou de mencionar a alegada ingerência do seu inimigo velado, os Estados Unidos: «Os partidos criados pelos ianques, criados pelo regime de Somoza, a regressarem ao poder – essa história acabou. Nunca, nunca, nunca». A falta de transparência não pode figurar entre o leque de críticas que se têm dirigido a Daniel Ortega, o socialista que, em conjunto com a mulher, governa os nicaraguenses com mão de ferro (de novo) desde 2007.
Cancelando de vez as eleições, sugeriu Tiziano Breda, analista sénior para a América Latina da ACLED citado pela NPR, extingue-se a necessidade de «organizarem eleições fraudulentas».
As manobras de Nicolás Maduro nas eleições presidenciais venezuelanas de 2024 devem ter sido vistas em Manágua provavelmente como uma concessão fatal.
A condenação americana não tardou em chegar. Num documento intitulado «Um Apelo à Ação», o Departamento de Estado dos Estados Unidos exortou «a comunidade internacional a unir forças para demonstrar à ditadura de Murillo-Ortega que esta não pode esperar manter relações normais com outras nações quando está a violar os princípios fundamentais do nosso hemisfério democrático».
O muro que Ortega ergueu para impedir a oposição de chegar ao poder, um muro que pode bem acabar por isolá-lo. Mas o que a situação representa verdadeiramente é um muro de separação entre Ortega e a democracia, algo que surpreende poucos. O regime, afinal de contas, era um elefante escondido atrás de uma árvore.