terça-feira, 18 ago. 2026

Ormuz. Para onde vai a guerra dos EUA e Irão?

Sete dias após o colapso do cessar-fogo, EUA e Irão trocam ataques quase diários no Golfo e o petróleo Brent continua a subir. Trump ameaça infraestruturas civis enquanto Teerão avisa que pode alargar o bloqueio ao Bab-el-Mandeb. Israel está de prontidão. Analistas apontam guerra de desgaste como cenário mais provável, mas escalada total não está excluída.
Ormuz. Para onde vai a guerra dos EUA e Irão?

Sete dias depois de Trump ter declarado o cessar-fogo de 17 de junho como «terminado», o Médio Oriente entrou esta semana na fase mais perigosa do confronto desde 28 de fevereiro, data de início da guerra. Entre segunda e quinta-feira, os EUA lançaram quatro noites consecutivas de bombardeamentos, reimpuseram o bloqueio naval ao Irão e Teerão respondeu com ataques quase diários ao Bahrein, ao Kuwait e à Jordânia. Só na madrugada de quinta-feira, o Comando Central dos EUA (Centcom) afirma ter atingido cerca de 90 alvos militares, depois de na véspera ter atacado 80 posições ao longo de sete horas.

O petróleo Brent fechou a subir quarta-feira para quase 85 dólares, o valor mais alto num mês. O Goldman Sachs e o J.P. Morgan já admitem uma subida descontrolada acima dos 110 dólares se a escalada não abrandar. Apenas uma eventual quebra da procura global e um aumento de produção petrolífera da OPEP+ poderão travar este aumento.

A semana foi pautada pela imprevisibilidade da Casa Branca. Na segunda-feira, o Presidente dos EUA anunciou uma taxa de 20% sobre a navegação em Ormuz, medida considerada ilegal pela Organização Marítima Internacional (a agência marítima da ONU) e que, na prática, validava a própria exigência iraniana de cobrar portagens no estreito. Menos de 24 horas depois, Donald Trump substituiu a tarifa por «acordos comerciais e de investimento» com os países do Golfo, depois de telefonemas de «reis e emires» a pedir-lhe que recuasse. Trump chegou a admitir, publicamente, que «não gosta da ideia de uma taxa», mas insistiu que os EUA devem ser «compensados» por protegerem o estreito. Este ziguezague – nem sequer se percebeu quem pagaria a taxa original – cria desconfiança entre os aliados árabes dos EUA e é um primeiro sinal do que se pode seguir: mais do que de uma estratégia coerente, uma diplomacia baseada em ameaças e recuos súbitos. Analistas citados na imprensa internacional consideram que, assim, qualquer previsão fiável sobre o desfecho do conflito é difícil.

Ameaças recíprocas

O Presidente norte-americano tem sido explícito quanto ao próximo passo: atingir centrais elétricas e pontes iranianas caso Teerão continue a recusar negociações. «Vamos destruir todas as suas centrais elétricas. Vamos destruir as suas pontes, a menos que se sentem à mesa e negociem», avisou, acrescentando que vai «deixar os alvos energéticos para o fim». Já o tinha ameaçado em abril, sem concretizar, mas desta vez calendarizou: «... A próxima semana será muito má para eles». Questionado sobre um prazo-limite para Teerão, recusou fixar datas: «Eles já sabem a história... é melhor comportarem-se». Se cumprir a ameaça, os EUA passam de alvos militares para infraestrutura civil, que Washington evitou até agora.

Do lado iraniano, o discurso também endureceu. O negociador Mohammad Baqer Qalibaf fala de uma «guerra existencial e essencial com a América» e avisou que, sem benefícios reais do memorando com os EUA, «não há razão para respeitar esse entendimento». O responsável disse ainda que a segurança do país depende da manutenção do status quo no estreito de Ormuz, e que optar apenas pela via militar ou apenas pela diplomacia seria «um erro estratégico». A Guarda Revolucionária ameaça alargar o bloqueio a outras rotas energéticas, nomeadamente através dos aliados houthis do Iémen no Bab-el-Mandeb, e avisa que as exportações da região serão «para todos ou para ninguém». A concretizar-se, a ameaça abriria uma segunda frente crítica para o comércio mundial, além de Ormuz, por onde já circula apenas uma fração do tráfego marítimo habitual. As seguradoras internacionais duplicaram os prémios de risco para navios que atravessem a zona.

O Conselho de Cooperação do Golfo já acusou Teerão de arrastar a região para o caos. Bahrein, Kuwait e Jordânia, todos com bases ou acordos de defesa com Washington, tornaram-se alvos recorrentes das retaliações iranianas: o Kuwait diz ter intercetado quatro mísseis de cruzeiro e 21 drones apenas numa madrugada, com danos materiais mas sem mortos. O Irão garante já ter causado pelo menos 30 mortos durante a semana, número que os EUA não confirmam. E sobre todo este cenário paira a posição de Israel: o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu já garantiu, em vésperas de novo encontro com Trump na Casa Branca (agendado para este sábado), estar pronto a lançar novos ataques «ao menor sinal» de Washington. Telavive não esconde o interesse no programa nuclear iraniano neutralizado.

Três cenários dividem os analistas citados pela imprensa internacional. O primeiro, e mais provável para já, é a manutenção de uma guerra de desgaste, com bombardeamentos e retaliações limitadas mas sem regresso formal ao cessar-fogo. Este é o cenário que consome menos recursos políticos a Trump e permite manter a pressão sobre Teerão sem custos internos imediatos. O segundo é um retorno, ainda que remoto, às negociações, sobretudo se a pressão do petróleo caro atingir a própria base eleitoral de Trump antes das eleições intercalares norte-americanas de novembro. O terceiro, e mais temido um pouco por todos no mundo, em especial pela Europa, é a escalada para um conflito total, com Ormuz e Bab-el-Mandeb bloqueados em simultâneo e Israel a juntar-se aos ataques contra Teerão. Fontes norte-americanas ouvidas pela agência Reuters admitem que os bombardeamentos atuais funcionam como «operações de preparação» para uma eventual ofensiva mais alargada, a ser ordenada por Washington nas próximas semanas.