quinta-feira, 16 abr. 2026

Ormuz: A arma de dissuasão do Irão

A guerra no Irão continua e o Estreito de Ormuz tem sido um dos pontos cruciais do conflito. Os preços continuam a aumentar na Europa e nos Estados Unidos e a República Islâmica do Irão tem neste ponto de estrangulamento uma ferramenta poderosa, e mais fácil de utilizar, para dissuadir ataques externos.
Ormuz: A arma de dissuasão do Irão

Mais de um mês depois de as bombas terem começado a cair em Teerão, ainda não foi possível alterar o teor do debate sobre a guerra. Continuamos amarrados às perguntas sobre quando e como vai terminar o conflito, quando seria de esperar que estas últimas já tivessem dado lugar à questão do ‘dia seguinte’.

Além da guerra, o que também continua há já algum tempo é a questão das negociações, com o Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, a insistir que Washington e o regime iraniano têm conversado e este último a negar sempre tais diálogos. Quanto ao plano de quinze pontos apresentado por Trump à República Islâmica do Irão, o Presidente norte-americano disse, a bordo do avião presidencial Air Force One no passado domingo, que o Irão cedeu na «maior parte dos pontos» e que estão a decorrer «reuniões muito positivas, tanto diretas como indiretas». Mais uma vez, Teerão veio desmentir. Como escreveu a jornalista Karen DeYoung num artigo para o The Washington Post, o «Irão negou praticamente todas as afirmações de Trump. Não houve conversações ‘diretas’, afirmou na segunda-feira, em Teerão, o porta-voz do Ministério dos Negócios Estrangeiros, Esmaeil Baqaei, referindo que apenas foram enviadas mensagens através de intermediários. Descreveu as exigências dos EUA - que incluem o fim do programa de enriquecimento de urânio do Irão, a entrega de mais de 400 kg de material altamente enriquecido e limites rigorosos aos mísseis balísticos - como ‘muito excessivas, irrealistas e irracionais’».

Partindo destas informações, que têm sido constantes nas últimas semanas, não será ousado duvidar que o nó no Golfo Pérsico está perto de ser desatado. ‘Nó’ é uma palavra que, independentemente da utilização no sentido figurado, é uma fiel descrição da realidade. Porque foi precisamente num nó que o Estreito de Ormuz se transformou. A esta altura, a importância desta passagem marítima localizada entre Omã e o Irão é impossível de negar ou desvalorizar. A U.S. Energy Information Association - uma «agência semi-independente subordinada ao Departamento de Energia dos EUA e a principal fonte do país de informação imparcial sobre energia», de acordo com o Departamento de Energia norte-americano - explicou brevemente porquê no ano passado: «O estreito é suficientemente profundo e largo para receber os maiores petroleiros de crude do mundo, sendo um dos pontos de estrangulamento petrolíferos mais importantes do mundo. Grandes volumes de petróleo circulam pelo estreito e existem muito poucas alternativas para transportar o petróleo para fora do estreito caso este venha a ser fechado. Em 2024, o fluxo de petróleo através do estreito atingiu uma média de 20 milhões de barris por dia, ou o equivalente a cerca de 20% do consumo global de líquidos petrolíferos. No primeiro trimestre de 2025, o fluxo total de petróleo através do Estreito de Ormuz permaneceu relativamente estável em comparação com 2024». Esta informação pode ser visualizada no gráfico abaixo.

O Estreito de Ormuz acabou mesmo por ser fechado na sequência da intervenção americano-israelita, e as consequências não demoraram a fazer-se sentir. Segundo estimativas da União Europeia, o preço do gás e do petróleo registaram um aumento de 70% e 50%, respetivamente, o que se traduz num aumento de 13 mil milhões de euros nas importações.

 

‘Vão buscar o vosso próprio petróleo’

E se os países da União Europeia estão mais dependentes destas importações, sentindo, naturalmente, um impacto superior, os Estados Unidos não estão imunes, com os preços dos combustíveis a atingirem os 4 dólares/galão (cerca de 1,05 dólares/litro), valores semelhantes aos registados em 2022, após o início da invasão russa da Ucrânia. Um valor que para os europeus pode parecer relativamente barato, pelo que importa recordar que, antes do início do conflito com o Irão, o preço para os consumidores norte-americanos encontrava-se em torno dos 3 dólares/galão. São valores que estão a incomodar vários setores de atividade económica nos EUA, como «as pequenas empresas dos setores da agricultura, logística, transportes, cuidados de saúde e outros», «para além dos desafios já colocados pelas tarifas, pelas taxas de juro mais elevadas e pela incerteza geral», pode ler-se no The Washington Post.

Ainda assim, restam poucas dúvidas que o impacto negativo do fecho do Estreito de Ormuz é consideravelmente superior para a Europa. Foi por isto que Trump voltou a atacar os líderes do Velho Continente. Num texto publicado na rede social Truth, o Presidente dos EUA ofereceu dois conselhos «a todos os países que não conseguem obter combustível para aviões devido ao Estreito de Ormuz, como o Reino Unido, que se recusou a participar na decapitação do Irão»: «Primeiro, comprem aos EUA, temos em abundância; e segundo, ganhem coragem, vão até ao Estreito e simplesmente TOMEM-NO». «Vão ter de começar», continuou, «a aprender a lutar por vocês próprios, os EUA já não estarão lá para vos ajudar, tal como vocês não estiveram lá para nós». «O Irão foi», concluiu Trump, «essencialmente dizimado. A parte difícil já está feita. Vão buscar o vosso próprio petróleo!».

Esta publicação de Trump chegou um dia após os ministros da Energia e das Finanças dos países do G7 terem emitido um comunicado oficial onde se pode ler que se encontram «prontos para tomar todas as medidas necessárias [...] para preservar a estabilidade e a segurança do mercado energético». Porém, não avançaram, em concreto, quais seriam os contornos de ‘todas as medidas necessárias’, tendo apenas garantido que «estão a acompanhar de perto o impacto da guerra no Irão nos mercados da energia e das matérias-primas, na inflação e na estabilidade económica geral», de acordo com a Euronews.

 

A dissuasão energética

E se os impactos negativos na economia são salientes e ameaçam tornar-se cada vez mais graves à medida que o conflito se prolonga, o bloqueio do Estreito de Ormuz por parte do Irão acarreta também consequências geopolíticas pouco animadoras para o Ocidente, nomeadamente a dissuasão energética que o regime dos aiatolas tem ao seu dispor.

Como disse José Tomaz Castello Branco, professor na Universidade Católica e comentador da CNN Portugal, na segunda-feira, os países do Golfo sentem que «no Irão terá de haver uma mudança de regime de facto». Isto porque, explicou, «um cessar-fogo neste momento, mantendo aquele regime como está, empodera a República Islâmica do Irão no sentido de poder fazer uma transmutação da dissuasão nuclear para a dissuasão energética. [...] E para isso não é preciso fazer este investimento de anos e de milhões na tecnologia nuclear, basta-lhes um RPG, basta-lhes uma mina, basta a ameaça». «Se os responsáveis do IRGC», conclui, «ameaçarem o Estreito de Ormuz, de certeza que todos os petroleiros param naquele imediato instante».

Assim, é tudo isto que está em jogo. E o resultado continua a ser incerto.

 

goncalo.nabeiro@nascerdosol.pt