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O Médio Oriente acorda diferente desde as primeiras horas de sábado, 28 de fevereiro de 2026. Às 6h de Lisboa, os primeiros mísseis norte-americanos e israelitas atingiram Teerão. O que se seguiu foi a maior ofensiva militar conjunta desde a invasão do Iraque em 2003. Nas próximas quatro a cinco semanas, diz Trump, o mundo ficará a saber o resultado.
Sábado, 28 de fevereiro — O dia em que tudo mudou
A operação recebeu o nome de Operação Fúria Épica pelos EUA e de Operação Leão Rugidor por Israel. Segundo o Aerospace Global News, o CENTCOM iniciou os ataques às 01h15 ET, descrevendo um esforço conjunto para "desmantelar o aparelho de segurança do regime iraniano", com alvos no comando e controlo dos Guardas Revolucionários, defesas aéreas, bases militares e instalações de mísseis e drones. Nas primeiras 12 horas, os EUA realizaram 900 ataques. Israel confirmou que 200 aviões atingiram cerca de 500 alvos no primeiro dia.
Trump foi direto ao povo iraniano. "Recusaram, como têm feito durante décadas. Rejeitaram todas as oportunidades de renunciar às suas ambições nucleares e nós não podemos mais aceitar isto", disse o presidente americano numa comunicação em vídeo, segundo a CBS News, justificando a operação.
Netanyahu declarou ter "eliminado o tirano Khamenei e dezenas de figuras sénior do regime opressivo", numa declaração às forças armadas israelitas citada pela PBS News. O Al Jazeera reportou 201 mortos e 747 feridos ao fim do primeiro dia. O incidente mais mortífero ocorreu em Minab, no sul do país, onde um ataque atingiu uma escola primária feminina, matando cerca de 180 crianças, segundo o Ministério da Saúde iraniano citado pelo mesmo órgão.
Quanto aos Açores, o Portugal News confirmou que na manhã de sábado cinco aviões reabastecedores KC-46 Pegasus descolaram da base das Lajes, na ilha Terceira. A Defence Industry confirmou que os bombardeiros furtivos B-2 Spirit que partiram do Missouri foram reabastecidos sobre o Atlântico central por KC-46 estacionados nas Lajes antes de atingirem os alvos iranianos. Portugal estava, de forma incontornável, ligado à operação.
À noite, Trump anunciou que Khamenei estava morto. O Irão negou. Horas depois, confirmou, decretando 40 dias de luto nacional.
O Irão retalia em todas as direções
Segundo o Aerospace Global News, o Irão lançou cerca de 420 mísseis contra nove países nas primeiras horas, com 162 dirigidos a Israel, 167 aos Emirados Árabes Unidos e 46 ao Qatar. As explosões fizeram-se sentir em Riade, Abu Dhabi, Doha, Dubai, Kuwait e Manama.
A PBS News reportou nove mortos em Beit Shemesh, em Israel, após um ataque iraniano a uma zona residencial no domingo. Segundo a CBS News, a refinaria saudita de Ras Tanura foi alvo de drones iranianos e o Ministério da Defesa da Arábia Saudita confirmou ter abatido as aeronaves, embora o fumo espesso tenha obrigado à suspensão temporária das operações. Fumo subiu também do compound da embaixada norte-americana no Kuwait, após ataques iranianos.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Abbas Araghchi, disse à Al Jazeera que Teerão não impõe "nenhum limite" ao seu direito de defesa, classificando a operação como "um ato de agressão", embora em paralelo tenha transmitido a Omã que está aberto a esforços de desescalada.
Domingo e segunda-feira — A guerra aprofunda-se
Trump publicou um vídeo no Truth Social descrevendo a operação como tendo "atingido centenas de alvos no Irão", incluindo instalações dos Guardas Revolucionários e sistemas de defesa aérea, segundo a CBS News. Numa declaração na Casa Branca esta segunda-feira, o presidente afirmou estar "substancialmente adiantado" face ao calendário previsto, mas admitiu que "a campanha pode durar quatro a cinco semanas, ou o que for necessário."
Segundo o mesmo órgão, o Kuwait abateu três F-15 norte-americanos num incidente de fogo amigo, embora todas as tripulações tenham sobrevivido e os EUA e o Kuwait estejam a conduzir uma investigação conjunta. O CENTCOM confirmou entretanto a morte de seis militares norte-americanos desde o início da operação.
O secretário de Estado Marco Rubio disse ao Congresso, em sessão de informação citada pela CBS News, que a decisão de atacar foi precipitada pelo facto de ser "absolutamente claro" que o Irão responderia com força total a qualquer ataque israelita, com os comandantes de campo já a ter autorização delegada para lançar represálias automáticas.
O Times of Israel confirmou o balanço do Crescente Vermelho iraniano: 555 mortos em 131 cidades iranianas, sem distinção entre civis e militares. Em Israel, morreram pelo menos 11 pessoas. No Líbano, 31 mortos após ataques israelitas ao Hezbollah, que disparou mísseis em retaliação pela morte de Khamenei, segundo a PBS News.
O mundo toma partido
A Telegraph Herald citou a declaração conjunta do E3 — Reino Unido, França e Alemanha — que condena os ataques iranianos aos países da região "nos termos mais veementes", apela à retoma das negociações e clarifica que nenhum dos três países participou nos ataques a Teerão, embora estejam em "contacto próximo" com Washington e Telavive.
O secretário-geral da NATO, Mark Rutte, disse à PBS News apoiar sem reservas a decisão de Trump de atacar o Irão e eliminar o seu líder supremo, citando a ameaça de um Irão nuclear como "uma mortalha sobre Israel." António Guterres, secretário-geral da ONU, apelou a que "todos se juntem à mesa das negociações", lamentando uma oportunidade perdida para a diplomacia, sobretudo porque no dia anterior aos ataques o ministro dos Negócios Estrangeiros de Omã anunciara um avanço: o Irão aceitara nunca mais armazenar urânio enriquecido em território nacional e concordara com verificação plena da AIEA, segundo a Al Jazeera. A Rússia e a China condenaram a ofensiva.
Portugal: os Açores no centro da tempestade política
O Governo, através de um comunicado, apelidou de "injustificáveis" os ataques do Irão aos países vizinhos da região, a apelou à "máxima contenção" e a afirmar que será "necessário que o programa nuclear do Irão, que há muito é uma preocupação da comunidade internacional, cesse." O primeiro-ministro garantiu no X estar a acompanhar os desenvolvimentos "com grande preocupação, desde o primeiro momento", em coordenação com parceiros europeus e aliados da NATO.
Questionado sobre a posição portuguesa, o ministro dos Negócios Estrangeiros Paulo Rangel já tinha admitido em fevereiro que os EUA poderiam usar a base das Lajes numa operação militar contra o Irão, desde que os tratados com Portugal fossem respeitados. McFarlandTree Rangel declarou posteriormente à CNN Portugal que Portugal "não vai estar neste conflito."
Marcelo Rebelo de Sousa recusou comentar a situação, remetendo para a nota do Governo.
Já a oposição reagiu com exigências de escrutínio. O líder do PS, José Luís Carneiro desafiou Montenegro a informar o país "sobre os termos em que foi autorizada a utilização da base das Lajes" e a explicar como os portugueses na região estão a ser protegidos. O secretário-geral socialista anunciou que colocará as questões diretamente ao primeiro-ministro no debate quinzenal de quarta-feira e requer uma audição, à porta fechada, de Rangel na comissão parlamentar de Negócios Estrangeiros. O PCP exigiu, em comunicado no seu site oficial, que o Governo condene "a agressão dos EUA e de Israel" e que recuse qualquer utilização das Lajes para fins ofensivos.
Mais de 10.000 portugueses residem em países afetados pelos ataques iranianos, incluindo cerca de 1.200 na Arábia Saudita, entre os quais os futebolistas Cristiano Ronaldo e João Félix e os treinadores Jorge Jesus e Sérgio Conceição.
Esta segunda-feira à noite, 2 de março, os bombardeamentos continuam. O Irão passa mensagens de abertura à desescalada. Washington não respondeu publicamente. E ninguém, nem em Washington nem em Teerão, sabe ainda onde isto para.