segunda-feira, 08 jun. 2026

ONU alerta para risco de “grave crise humanitária” devido ao bloqueio de fertilizantes no estreito de Ormuz

Mais 45 milhões de pessoas podem ser lançadas na fome. Jorge Moreira da Silva pede ação urgente para evitar uma crise alimentar global
ONU alerta para risco de “grave crise humanitária” devido ao bloqueio de fertilizantes no estreito de Ormuz

O responsável do grupo de trabalho das Nações Unidas criado para facilitar o transporte de fertilizantes através do Estreito de Ormuz alertou esta segunda-feira para o risco de uma “grave crise humanitária” caso o bloqueio se mantenha nas próximas semanas.

“Temos algumas semanas para evitar o que será provavelmente uma grave crise humanitária. Podemos assistir a uma crise que mergulhará mais 45 milhões de pessoas na fome”, afirmou Jorge Moreira da Silva, em declarações à agência AFP.

O grupo de trabalho foi criado em março pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, com o objetivo de desenvolver um mecanismo que permita a circulação de fertilizantes e matérias-primas essenciais, como amoníaco, enxofre e ureia.

Grande parte dos produtos afetados pelo bloqueio destina-se ao Brasil, China, Índia e vários países africanos, regiões altamente dependentes das importações que atravessam o estreito.

Segundo o responsável português, já foram contactados mais de 100 países para tentar reunir apoio político e operacional para o mecanismo proposto pela ONU.

No entanto, os principais intervenientes no conflito — EUA, Irão e os países do Golfo — ainda não chegaram a consenso.

“O problema é que a época de sementeira não espera”, sublinhou Jorge Moreira da Silva, alertando para o impacto imediato que a falta de fertilizantes poderá ter em várias economias agrícolas africanas.

O responsável estima que a passagem diária de cinco navios carregados com fertilizantes e matérias-primas seria suficiente para evitar uma crise agrícola de grande dimensão.

“É uma questão de tempo. Se não atacarmos rapidamente a origem da crise, teremos de gerir as consequências com ajuda humanitária”, avisou.

Segundo o diretor-executivo do UNOPS, caso exista entendimento político, o mecanismo de passagem controlada poderá ficar operacional em apenas sete dias.

Ainda assim, mesmo que o estreito de Ormuz fosse reaberto imediatamente, seriam necessários entre três e quatro meses para normalizar totalmente o abastecimento global.

Apesar de os preços dos alimentos ainda não terem registado aumentos abruptos, Jorge Moreira da Silva alertou para o forte crescimento do custo dos fertilizantes, cenário que poderá traduzir-se numa quebra da produtividade agrícola e numa escalada dos preços alimentares.

“Não podemos hesitar sobre o que é possível e urgente: permitir a passagem de fertilizantes através do estreito e, assim, minimizar o risco de uma grave insegurança alimentar mundial”, insistiu.

O Irão mantém há vários meses o bloqueio do estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas mundiais para transporte de energia e matérias-primas, em resposta à guerra desencadeada pelos EUA e por Israel a 28 de fevereiro.