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O responsável do grupo de trabalho das Nações Unidas criado para facilitar o transporte de fertilizantes através do Estreito de Ormuz alertou esta segunda-feira para o risco de uma “grave crise humanitária” caso o bloqueio se mantenha nas próximas semanas.
“Temos algumas semanas para evitar o que será provavelmente uma grave crise humanitária. Podemos assistir a uma crise que mergulhará mais 45 milhões de pessoas na fome”, afirmou Jorge Moreira da Silva, em declarações à agência AFP.
O grupo de trabalho foi criado em março pelo secretário-geral da ONU, António Guterres, com o objetivo de desenvolver um mecanismo que permita a circulação de fertilizantes e matérias-primas essenciais, como amoníaco, enxofre e ureia.
Grande parte dos produtos afetados pelo bloqueio destina-se ao Brasil, China, Índia e vários países africanos, regiões altamente dependentes das importações que atravessam o estreito.
Segundo o responsável português, já foram contactados mais de 100 países para tentar reunir apoio político e operacional para o mecanismo proposto pela ONU.
No entanto, os principais intervenientes no conflito — EUA, Irão e os países do Golfo — ainda não chegaram a consenso.
“O problema é que a época de sementeira não espera”, sublinhou Jorge Moreira da Silva, alertando para o impacto imediato que a falta de fertilizantes poderá ter em várias economias agrícolas africanas.
O responsável estima que a passagem diária de cinco navios carregados com fertilizantes e matérias-primas seria suficiente para evitar uma crise agrícola de grande dimensão.
“É uma questão de tempo. Se não atacarmos rapidamente a origem da crise, teremos de gerir as consequências com ajuda humanitária”, avisou.
Segundo o diretor-executivo do UNOPS, caso exista entendimento político, o mecanismo de passagem controlada poderá ficar operacional em apenas sete dias.
Ainda assim, mesmo que o estreito de Ormuz fosse reaberto imediatamente, seriam necessários entre três e quatro meses para normalizar totalmente o abastecimento global.
Apesar de os preços dos alimentos ainda não terem registado aumentos abruptos, Jorge Moreira da Silva alertou para o forte crescimento do custo dos fertilizantes, cenário que poderá traduzir-se numa quebra da produtividade agrícola e numa escalada dos preços alimentares.
“Não podemos hesitar sobre o que é possível e urgente: permitir a passagem de fertilizantes através do estreito e, assim, minimizar o risco de uma grave insegurança alimentar mundial”, insistiu.
O Irão mantém há vários meses o bloqueio do estreito de Ormuz, uma das principais rotas marítimas mundiais para transporte de energia e matérias-primas, em resposta à guerra desencadeada pelos EUA e por Israel a 28 de fevereiro.