quarta-feira, 22 jul. 2026

Onda de calor deixa quase metade das cidades na Europa em stress térmico recorde

Quase metade das cidades europeias já registou ou está prestes a atingir níveis históricos de stress térmico devido à atual onda de calor. Um novo estudo alerta que estes episódios seriam praticamente impossíveis há 50 anos e aponta as alterações climáticas como principal causa
Onda de calor deixa quase metade das cidades na Europa em stress térmico recorde

A atual onda de calor que afeta a Europa está a levar quase metade das cidades do continente a registar níveis históricos de stress térmico, segundo uma análise divulgada esta sexta-feira pelo consórcio científico World Weather Attribution (WWA).

O estudo analisou 854 cidades de 30 países europeus e concluiu que 385 localidades — cerca de 45% do total — já ultrapassaram ou poderão ultrapassar, nos próximos dias, os valores mais elevados de temperatura de globo e bulbo húmido (WBGT, na sigla em inglês), um dos principais indicadores utilizados para avaliar o impacto do calor no organismo humano.

Ao contrário da temperatura do ar, o índice WBGT considera também fatores como a humidade, a velocidade do vento e a radiação solar, permitindo medir de forma mais precisa o risco para a saúde associado às condições meteorológicas extremas.

Os investigadores alertam que a conjugação de temperaturas muito elevadas com níveis elevados de humidade aumenta significativamente o risco de doenças relacionadas com o calor, sobretudo entre idosos, crianças, trabalhadores expostos ao exterior e pessoas com problemas de saúde.

Segundo os cientistas, a intensidade da atual onda de calor seria praticamente impossível de observar há apenas cinco décadas. A investigação estima que, numa situação equivalente ocorrida em 1975, tanto as temperaturas máximas durante o dia como as mínimas durante a noite seriam, em média, cerca de 3,5 graus Celsius inferiores às registadas atualmente.

Noites tropicais

O estudo destaca ainda que as noites tropicais — um dos fatores mais prejudiciais para a saúde por impedirem o organismo de recuperar do calor acumulado ao longo do dia — são hoje cerca de 100 vezes mais prováveis do que durante a histórica onda de calor que atingiu a Europa há pouco mais de duas décadas. Já os episódios de calor extremo durante o dia tornaram-se até dez vezes mais frequentes.

Os autores atribuem este agravamento ao aquecimento global provocado pelas emissões contínuas de gases com efeito de estufa resultantes da utilização de combustíveis fósseis.

"A ciência que explica como as alterações climáticas estão a agravar as ondas de calor é indiscutível e a velocidade da mudança é alarmante. A cada poucos anos temos assistido a recordes de calor na Europa, mas este ano isso aconteceu em meses consecutivos", afirma Theodore Keeping, investigador especializado em fenómenos meteorológicos extremos e incêndios florestais no Imperial College de Londres.

Também o secretário executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas para as Alterações Climáticas, Simon Stiell, considera que o calor extremo que atinge a Europa demonstra que as alterações climáticas "avançam sem controlo", impulsionadas pelo consumo de carvão, petróleo e gás.

Apesar do cenário preocupante, Stiell defende que as soluções são conhecidas, apelando a uma aceleração da transição para energias limpas, à proteção das florestas e ao reforço da adaptação às alterações climáticas.

Num tom igualmente crítico, a climatóloga Friederike Otto, professora no Imperial College de Londres e uma das principais especialistas mundiais em eventos meteorológicos extremos, lamenta que os cientistas tenham de repetir constantemente o mesmo alerta.

"Sim, isto são as alterações climáticas, sim, somos nós os responsáveis, não, não é o El Niño; sim, temos as soluções, não, não as estamos a aplicar com a rapidez suficiente", sublinha.

Os autores do estudo alertam que, sem uma redução acelerada das emissões globais de gases com efeito de estufa, as ondas de calor extremas tenderão a tornar-se mais frequentes, mais intensas e mais prolongadas, aumentando os riscos para a saúde pública, para a economia e para os ecossistemas em toda a Europa.