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Tudo começou quando os operários que substituíam a rede de esgotos numa rua de Wijk bij Duurstede, na província de Utrecht, repararam numa viga de madeira a sobressair do solo. À primeira vista, nada de extraordinário. Mas Danny van Basten, voluntário da ArcheoTeam Wijk bij Duurstede que acompanhava os trabalhos, reconheceu de imediato que aquilo não era um simples pedaço de madeira. Avisou as autoridades, e foi esse instinto que pode ter salvado uma peça com mais de mil anos de história.
Chamados ao local, os especialistas da Stichting Beheer Vikingschip e do Museum Dorestad não ficaram indiferentes. O construtor naval Kees Sterrenburg analisou a viga e concluiu que a forma, os entalhes e o acabamento da madeira são compatíveis com a estrutura de uma embarcação. Segundo o DutchNews.nl, a peça mede 3,2 metros de comprimento e cerca de 30 centímetros de espessura, podendo ter sido originalmente ainda maior. Fragmentos de cerâmica encontrados nas proximidades apontam para o período carolíngio, entre 700 e 800 d.C., o que colocaria a viga no tempo dos primeiros contactos entre os mundos franco e escandinavo.
O local onde foi encontrada não é um sítio qualquer. Wijk bij Duurstede ocupa o terreno do antigo Dorestad, um dos pontos comerciais mais importantes do norte da Europa na Alta Idade Média. Era por aí que passavam mercadorias, pessoas e influências entre os territórios francos e as rotas do Mar do Norte. Os vikings, que durante décadas foram parceiros comerciais da região antes de se tornarem uma ameaça, saquearam Dorestad pela primeira vez em 834 d.C. Encontrar agora os possíveis restos de uma embarcação desse período neste local preciso é, para os investigadores, simultaneamente esperado e extraordinário.
A arqueóloga municipal Anne de Hoop, responsável pela investigação, não quis precipitar conclusões. Em declarações citadas pela Newsweek, admitiu que ainda não foi descartada a hipótese de a viga pertencer a uma coca medieval, um tipo de navio comercial comum na Europa do Norte por volta do século XIII, o que colocaria a sua origem mais de 500 anos depois. Para saber a resposta, será necessário proceder à dendrocronologia, a análise dos anéis de crescimento da madeira que permite uma datação precisa. O processo deve demorar vários meses, durante os quais a peça permanecerá acondicionada num ambiente controlado para evitar que seque e se deteriore.
A autarquia classificou o achado como "potencialmente muito significativo" e sublinhou que nunca tinham sido encontrados restos de embarcações da era viking em Wijk bij Duurstede. O Museum Dorestad já manifestou interesse em expor a peça ao público assim que as investigações estiverem concluídas. Até lá, a viga aguarda numa câmara fria o veredicto da ciência sobre o que foi, quem a construiu, e que águas terá navegado.