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«Não temos sido suficientemente bons e precisamos de melhorar». Esta foi uma das primeiras frases que Andy Burnham proferiu aos microfones em frente do número 10 de Downing Street. O facto de o ex-presidente da Câmara de Manchester, cargo no qual ficou conhecido como “Rei do Norte”, ser o sétimo primeiro-ministro num espaço de dez anos corrobora esta declaração.
Burnham promete que será melhor, mas tem uma montanha pela frente. Keir Starmer, que há dois anos conquistou uma maioria absoluta para o Partido Trabalhista, tornou-se rapidamente no primeiro-ministro mais impopular desde que se realizam este tipo de sondagens no Reino Unido. As demissões de membros do governo e os pedidos de demissão por boa parte da sua bancada parlamentar tornaram a queda inevitável. E, como tem sido a norma em terras de Sua Majestade, a queda de um primeiro-ministro não se traduz automaticamente na convocação de novas eleições gerais, com o partido no poder a escolher um sucessor. No passado dia 17 de julho, mais de 90% dos parlamentares trabalhistas elegeram Andy Burnham como o novo líder do partido, tornando-o, três dias mais tarde, no novo primeiro-ministro britânico.
O panorama político, económico e social do Reino Unido não atravessa o seu momento mais tranquilo. A instabilidade política, o crescimento de novos partidos – à direita e à esquerda – que ameaçam a hegemonia dos dois partidos tradicionais do sistema, o aumento do custo de vida e o esfarelamento da coesão social, associada à questão da imigração, são, de forma resumida, a imagem de marca da Grã-Bretanha em 2026. Burnham diz que o país «precisa de mostrar ao mundo que [é] capaz de recuperar a [sua] estabilidade mais uma vez, e esse é o nosso desafio: fazer com que a política funcione, fazê-la funcionar melhor». Mais, prometeu que o seu governo vai «fazer deste momento um ponto de viragem para a Grã-Bretanha, promovendo as maiores mudanças dos últimos quarenta anos. Um novo modelo político e um novo modelo económico».
O plano decenal
Para levar a cabo a mudança, o novo primeiro-ministro trabalhista tem um plano para dez anos. Se irá ocupar o cargo no número 10 de Downing Street durante esse período é outra questão. Mas tudo parece bem definido, pelo menos programaticamente. De acordo com as suas declarações, este plano «traçará um caminho desde o ponto em que nos encontramos agora até ao ponto onde acredito que todos queremos que a Grã-Bretanha chegue, independentemente da nossa origem ou do partido que apoiamos». Para Burnham, «trata-se de colocar os valores e os padrões certos no centro da ação governamental. Vou colocar o bem-estar das pessoas no centro de tudo o que fizer».
Independentemente do plano de médio prazo, Burnham apressou-se a arregaçar as mangas, dizendo que, logo no dia posterior iria «fazer algo para dar às pessoas algum alívio neste momento, alguma ajuda com o custo de vida»: «Vamos ajudar mais jovens a entrar no mercado de trabalho, reformando o sistema educativo e oferecendo-lhes mais apoio, nomeadamente em matéria de saúde mental. E vamos construir mais habitações sociais. Essa é a forma justa e sustentável de reduzir as despesas com a segurança social, cumprir as nossas regras orçamentais e honrar os nossos compromissos em matéria de defesa para com os nossos parceiros internacionais. Vamos ajudar as pessoas a viver bem, construindo um Estado mais preventivo, investindo no sucesso das pessoas, em vez de pagar pelo fracasso. E esse trabalho começa agora. Em breve, atravessarei aquela porta atrás de mim e darei a minha primeira instrução: acabar com a situação das pessoas que dormem na rua no nosso país».
A crítica aos conservadores, especialmente a Margaret Thatcher, também esteve presente no discurso inaugural, quando o novo primeiro-ministro apontou que, «na década de 1980, a Grã-Bretanha tomou alguns rumos errados. O poder político foi centralizado, o poder económico privatizado, grandes partes do país sofreram um processo de desindustrialização e ainda não recuperaram».
Promessas e realidade
O plano decenal é ambicioso política e economicamente. Politicamente porque o Reino Unido transformou-se numa comunidade política na qual as lideranças têm agora uma esperança média de vida muito curta. Economicamente porque não há promessas grátis, e a saúde das finanças do país atravessa uma fase delicada, sem qualquer tipo de conforto orçamental.
Andy Burnham já se comprometeu com o plano fiscal trabalhista, que não prevê o aumento de impostos. Então, o financiamento tem de ser procurado noutro destino. Ainda não se sabe ao certo qual será, mas terá de existir. De acordo com os números apresentados por Richard Partington, correspondente sénior de economia do The Guardian, o corte do IVA de 5% para 0% no consumo energético retirará dos cofres do Estado cerca de 850 milhões de libras (cerca de mil milhões de euros) só entre 2026 e 2027. Um buraco que, segundo Downing Street, será colmatado «através do cancelamento do programa de identificação digital de Keir Starmer, que iria custar 1,8 mil milhões de libras [2,1 mil milhões de euros] nos próximos três anos». Mas o alívio de 1,8 mil milhões de libras só cobrirá dois anos, o que levanta a questão de como financiar a medida a partir do terceiro. Foi para isto que Helen Miller, a diretora do Instituto de Estudos Fiscais, citada na peça de Partington, alertou ao dizer que «o governo terá ainda de proceder a cortes, ainda por especificar, no valor de cerca de 850 milhões de libras em outras despesas ministeriais para financiar esta medida». Miller questionou ainda a viabilidade de elevar esta medida ao estatuto de permanente.
A questão do aumento do investimento em defesa também é complexa. Escreveu Richard Partington: «Burnham terá de arranjar mais 4,7 mil milhões de libras [5,5 mil milhões de euros] ao longo de cinco anos para a defesa no seu primeiro orçamento, depois de Starmer ter anunciado um montante adicional de 15 mil milhões de libras [17,5 mil milhões de euros] sem ter identificado totalmente como este será financiado».
Outras questões, como o congelamento do abatimento fiscal pessoal por um período de dez anos e o aumento considerável do investimento em infraestruturas e habitação, colocam também Andy Burnham perante um problema fiscal que é, no mínimo, bicudo.
De qualquer das formas, estes evidentes constrangimentos não impediram Burnham de declarar, no final do seu primeiro discurso, que o seu governo vai «fazer com que este seja o momento em que a Grã-Bretanha volte a acreditar. O momento em que recuperamos a esperança».