segunda-feira, 18 mai. 2026

O lugar que escolhe no avião pode determinar se consegue sair a tempo numa emergência. Saiba o que deve ter em conta

Um estudo científico com 27 simulações de evacuação revelou que nenhum cenário testado cumpriu o prazo legal de 90 segundos para abandonar um avião em chamas. A razão tem menos a ver com o aparelho e mais com quem está sentado à sua volta.
O lugar que escolhe no avião pode determinar se consegue sair a tempo numa emergência. Saiba o que deve ter em conta

Escolher o lugar numa aeronave é, para a maioria das pessoas, uma questão de conforto: janela ou corredor, frente ou retaguarda, perto ou longe das casas de banho. Mas uma investigação recente publicada na revista científica Physics of Fluids sugere que essa decisão tem uma dimensão que quase ninguém pondera antes de fazer o check-in: em caso de emergência, o lugar que ocupa e os lugares ocupados pelos passageiros à sua volta podem ser determinantes para conseguir sair do avião a tempo.

O estudo, desenvolvido por investigadores ligados a centros de investigação aeronáutica na China, simulou a evacuação de uma cabine de Airbus A320 em 27 cenários distintos, todos eles com um elemento comum: o fogo simultâneo nos dois motores. Neste tipo de emergência, as saídas sobre as asas ficam inutilizáveis devido ao calor e às chamas, o que obriga todos os passageiros a evacuar exclusivamente pelas portas da frente e da retaguarda da aeronave. O tempo disponível, segundo as normas da Autoridade Federal de Aviação dos Estados Unidos, é de 90 segundos.

Nenhum dos 27 cenários testados conseguiu cumprir esse prazo.

O mais rápido demorou 141 segundos. O mais lento, 218. A diferença entre um e outro não estava no modelo do avião nem no número total de passageiros. Estava na forma como os passageiros com mobilidade reduzida, definidos no estudo como pessoas com 60 ou mais anos, estavam distribuídos pela cabine.

O problema não é quem é lento. É onde os lentos estão sentados

Os investigadores testaram três padrões de distribuição dos passageiros idosos: espalhados de forma equilibrada junto às saídas, concentrados no meio da cabine, e distribuídos aleatoriamente. Testaram também três proporções: 20%, 40% e 80% de passageiros com 60 ou mais anos a bordo.

Os resultados mostram que a concentração de passageiros com mobilidade reduzida numa mesma zona da cabine cria estrangulamentos nos corredores que atrasam toda a evacuação, incluindo a dos passageiros mais novos e ágeis que ficam bloqueados atrás deles. Dito de outra forma: numa emergência, a rapidez com que consegue sair do avião não depende apenas de si. Depende também de quem está à sua frente no corredor.

Os investigadores mediram a velocidade média de caminhada dos passageiros idosos em 0,55 metros por segundo para os homens e 0,48 metros por segundo para as mulheres, menos de metade da velocidade dos passageiros não idosos. Quando vários passageiros com estas características estão agrupados na mesma zona da cabine, o efeito de bloqueio propaga-se para trás e atrasa toda a fila, independentemente da idade ou da condição física de quem espera.

O que a simulação não consegue medir

O estudo reconhece que os modelos computacionais utilizados, por mais sofisticados que sejam, não captam a totalidade do comportamento humano numa emergência real. Não incorporam, por exemplo, o impacto emocional do pânico, a dificuldade adicional de passageiros com auxiliares de mobilidade, nem situações em que um passageiro recusa abandonar a aeronave sem confirmar que o acompanhante está a salvo.

Mas é precisamente por isso que as conclusões têm implicações práticas imediatas: não para os passageiros individualmente, que raramente têm controlo sobre estes fatores, mas para as companhias aéreas, para os reguladores e para os fabricantes de aeronaves.

Os autores recomendam que os aviões passem a ter zonas reservadas a passageiros com mobilidade reduzida, desenhadas estrategicamente para facilitar a saída, e que os procedimentos de embarque incorporem uma distribuição deliberada deste tipo de passageiros pelo interior da cabine, em vez de os agrupar por conveniência ou afinidade.

Uma lei que ainda não existe

Nos Estados Unidos, um projeto de lei apresentado em dezembro de 2022, o chamado EVAC Act, já propôs que as normas de evacuação sejam atualizadas para refletir condições reais de voo, incluindo o envelhecimento da população de passageiros. Na Europa, regulamentação equivalente ainda não existe.

Enquanto as regras não mudam, o estudo deixa uma conclusão que qualquer passageiro pode guardar: em caso de emergência num avião, os 90 segundos que tem para sair começam muito antes de a emergência acontecer.