segunda-feira, 13 abr. 2026

"No final, a morte não foi o nosso destino". Pai atravessa 200 quilómetros num barco de migrantes para salvar o filho

Uma viagem que devia demorar horas, demorou uma semana. O pai, que viajou oceanos pelo filho com insuficiência renal, foi o seu doador.
"No final, a morte não foi o nosso destino". Pai atravessa 200 quilómetros num barco de migrantes para salvar o filho

Abdulaziz Aldarwish é o homem que viajou num barco com migrantes durante 200 quilómetros, até ao Chipre. O motivo? O seu filho, Yahia, precisava que alguém o salvasse.

Os rins de Yahia começaram a falhar. Foram pedidos 1.200 euros mensais para que a criança pudesse fazer tratamentos de diálise: dinheiro que a sua família não podia pagar. A única solução ali seria recorrer ao sistema público de saúde no Líbano, onde Abdulaziz é trabalhador da construção civil, mas também esse está praticamente em colapso.

A história é contada pela agência Reuters, que explica que o pai conseguiu angariar cinco mil euros em poupanças e empréstimos familiares para seguirem viagem em 2024, num barco com migrantes durante 200 quilómetros, na esperança de encontrarem médicos que pudessem cuidar da criança.

Ficou uma esposa e oito filhos para trás, na Síria, perto da fronteira com o Líbano, a rezar pelos dois.

Antes da viagem, a criança fez uma sessão de diálise para aguentar a travessia. Os dois aventureiros levavam consigo água e "algumas tâmaras": era o suficiente para a viagem, que se previa demorar algumas horas.

Mas não foi assim que aconteceu.

Acabaram à deriva num mar agitado durante uma semana, até serem avistados por um navio. "Não esperava que o meu filho suportasse algo assim. Foi um milagre. No final, a morte não foi o nosso destino", explicava, emocionado.

Quando finalmente chegaram ao destino final, o Chipre, os médicos informaram que havia esperança, mas não ali: tinham que viajar até à Grécia, onde iriam retomar os transplantes de rim para crianças de baixo peso após anos de suspensão. Aqui, as autoridades gregas, juntamente com o Chipre, permitiram que pai e filho fossem levados de avião para Atenas.

Yahia foi operado no dia 22 de janeiro deste ano. "Esta ponte de vida toda foi construída para esta criança", afirmou Smaragdi Marinaki, chefe do departamento de nefrologia do Hospital Laiko, e acrescentou: "O transplante transcende todas as barreiras: fronteiras e países, raças e religiões".

Passaram dois anos desde que saíram do Líbano e Yahia é agora uma das primeiras crianças a receber um transplante no Centro Nacional de Transplantes Onassis, na Grécia. O pai, que viajou oceanos por ele, foi o doador.

"Tive de correr um risco: ou dava certo e ele era tratado... ou era o fim, morríamos os dois", disse o pai de 32 anos, no final da operação, citado pela Reuters.

Yahia tem agora 10 anos, está estável e "otimista", e tem dois desejos: voltar a estar com os colegas e, um dia, "abrir um supermercado".