As imagens são impressionantes. A devastação causada pela torrente de água e lama que engoliu tudo o que se encontrava no seu caminho ainda não pode ser quantificada com precisão, mas as perspetivas não são animadoras.
À data de redação, o número de mortes associadas à catástrofe que assolou o Nepal já ultrapassa os 350 e mais de mil pessoas estão desaparecidas. O país tem sido historicamente fustigado por catástrofes naturais deste cariz, estimando-se que, de acordo com um artigo de Amish Raj Mulmi publicado no The Kathmandu Post em 2019, tenham morrido, devido às cheias, cerca de 3,2 milhões de nepaleses entre 1905 e 2005. Mas estas cheias repentinas foram, segundo o primeiro-ministro nepalês Balendra Shah, um «desastre sem precedentes».
Na sequência do sucedido, o Ministério dos Negócios Estrangeiros de Portugal identificou dois portugueses, um homem e uma mulher, que estariam desaparecidos. De acordo com informações dadas pelo Ministério ao jornal Público, o homem foi encontrado «bem de saúde e em segurança», mas a mulher, que estaria com «um grupo de pessoas num posto de controlo fronteiriço do Nepal quando se deu a catástrofe», continua desaparecida. Ontem, foram dados como desaparecidos mais dois cidadãos portugueses. Entre os desaparecidos contam-se também 47 norte-americanos, 34 australianos, 33 britânicos e 24 canadianos. Também desapareceram 133 indianos, dos quais 100 já foram encontrados, de acordo com o organismo de turismo do país, citado pelo Público.
A causa
Uma das primeiras hipóteses a ser colocada em cima da mesa foi a de um sismo na região. Foi este o diagnóstico imediato do Serviço Geológico dos Estados Unidos. Porém, segundo reporta a CNN, «os cientistas que investigam a causa das devastadoras cheias repentinas que assolaram a fronteira entre o Nepal e a China na quarta-feira – engolindo cidades, estradas e pontes e causando um número significativo de vítimas mortais – estão a concentrar-se na teoria de que o desastre foi desencadeado por um enorme colapso de um glaciar e por um deslizamento de terra». Terá sido a queda deste glaciar a provocar o tremor sentido que, de acordo com os especialistas, foi equivalente a um sismo de magnitude 5,2 na escala de Richter.
As imagens de satélite do antes e do depois facilitam o diagnóstico e a estimativa: o glaciar «desabou para o rio abaixo – uma queda de altitude de cerca de 7 000 pés [aproximadamente 2,1 quilómetros], segundo uma análise da CNN, e a secção da geleira que desabou tinha aproximadamente 2000 pés [aproximadamente 610 metros] de largura». Ao mesmo tempo, acredita-se, pode «ter ocorrido um deslizamento de terra […], criando uma cascata mortal de rocha e gelo, que arrasou a encosta da montanha e desceu até ao rio Lhende Khola, um afluente do rio Bhote Koshi, que corre da China para o Nepal, muitas vezes através de desfiladeiros profundos».
Liz Stephens, professora de Riscos Climáticos e Resiliência do Departamento de Meteorologia da Universidade de Reading, diz que «a maioria das pessoas pensa que as cheias repentinas são causadas por chuvas intensas, mas no Nepal e no Tibete, tal como em muitas outras regiões de alta montanha, estas também podem resultar de cadeias complexas de riscos, incluindo deslizamentos de terra, avalanches e inundações causadas pela rutura de lagos glaciares. Esta complexidade torna o alerta precoce especialmente difícil». E a hipótese de ter ocorrido um terramoto não é totalmente descartável. Podem ter acontecido os dois fenómenos ao mesmo tempo, explica Stephens: «Os relatórios iniciais do Nepal sugerem que ocorreu um terramoto aproximadamente ao mesmo tempo que um deslizamento de terra ou uma avalanche, o que, por sua vez, conduziu à inundação catastrófica. Uma forma de isto acontecer em vales montanhosos íngremes é quando um deslizamento de terra bloqueia um rio, permitindo que a água se acumule a montante. Se essa barragem natural resultante do deslizamento de terra se romper, pode causar uma descarga repentina e devastadora de água e sedimentos a jusante». A professora alerta ainda para a instabilidade deixada pela catástrofe desta zona, revelando que os «cientistas da região estarão preocupados com a possibilidade de o evento inicial poder provocar deslizamentos de terra e barragens de detritos ainda mais perigosos nos próximos dias».
Reação política
O líder do executivo do Nepal apelou a que todos «mantenham a paciência e a calma, aguardem as operações de salvamento e socorro e cooperem na resposta a esta catástrofe», garantindo ainda que «todo o aparelho estatal está mobilizado para levar a cabo as operações de salvamento o mais rapidamente possível. Com esperança e confiança, devemos todos permanecer unidos e enfrentar esta catástrofe com determinação. Expresso a minha sincera gratidão a todos aqueles que estão a dar o seu apoio e a permanecer ao nosso lado neste momento difícil».
A China também está empenhada nos esforços de ajuda às vítimas. De acordo com Zhang Maoming, embaixador chinês no Nepal, «a China continuará a acompanhar de perto a evolução da situação e a envidar todos os esforços para prestar todo o apoio e assistência possíveis», garantindo ainda que «o Presidente chinês Xi Jinping atribuiu grande importância a esta catástrofe e emitiu instruções importantes, salientando que a principal prioridade é envidar todos os esforços para procurar e resgatar as pessoas desaparecidas, realojar e proporcionar abrigo às pessoas em risco, tratar prontamente os feridos e minimizar, na medida do possível, o número de vítimas». Para Maoming, «tanto o Nepal como a China podem aprender muito com a resposta a esta catástrofe». «É imperativo», concluiu em declarações à NTV World, «que a China e o Nepal reforcem ainda mais a cooperação em matéria de prevenção, mitigação e gestão de emergências, e melhorem continuamente a nossa capacidade de resposta a catástrofes naturais».