terça-feira, 18 ago. 2026

NATO. Mais dinheiro com futuro incerto

Cimeira de Ancara termina com dinheiro recorde para a Defesa e apoio reforçado à Ucrânia, mas expõe fraturas na Aliança Atlântica: Donald Trump acusa europeus de o ‘abandonarem’ no Irão, reabre a questão da Gronelândia e agrada a Erdoğan. Sobre os números há consenso, mas sobre o futuro transatlântico há incerteza
NATO. Mais dinheiro com futuro incerto

A cimeira da NATO em Ancara terminou esta quarta-feira com números recordes de investimento, declarações sobre unidade e um pano de fundo de desconfiança. Depois de dois dias na capital turca, os 32 líderes da Aliança Atlântica saem com uma declaração final que reafirma o artigo 5.º – um ataque armado contra um ou vários países membros é considerado um ataque contra todos –«sem margem para dúvidas», um relançamento do apoio a Kiev e «que o Irão nunca deve ter uma arma nuclear» e deve «respeitar plenamente a liberdade de navegação no estreito de Ormuz». Mas também com a confirmação de que o fosso entre Washington e a Europa está longe de ficar fechado.

O dinheiro está em cima da mesa

A nível orçamental não houve hesitações. Os aliados europeus e o Canadá aumentaram os investimentos em Defesa em mais de 139 mil milhões de dólares (127 mil milhões de euros) só em 2025, e na cimeira de Ancara foram anunciados mais 50 mil milhões de dólares em novas aquisições. A meta, relembrada por Mark Rutte, é ambiciosa: 5% do PIB em Defesa até 2035, um compromisso assumido na cimeira da Haia e que nenhum aliado cumpre ainda na íntegra. A ministra da Defesa neerlandesa avisou os retardatários de que quem não apresentar planos credíveis «ficará sob pressão dos restantes aliados».

O secretário-geral da NATO elogiou o catalisador deste investimento: Donald Trump. Mark Rutte atribuiu ao Presidente norte-americano o mérito de ter conseguido equilibrar a despesa de defesa entre os dois lados do Atlântico: «O Presidente Trump [está] basicamente a conseguir aquilo que, desde Eisenhower, os Presidentes norte-maricanos americanos tentaram alcançar». Uma vitória, disse, tanto para a Aliança como para os EUA, e uma derrota para Vladimir Putin. A guerra na Ucrânia continua a ser o teste mais exigente à credibilidade da Aliança: a ajuda direta dos EUA a Kiev caiu drasticamente desde 2025, e a véspera da cimeira foi marcada por um bombardeamento russo a Kiev com dezenas de mortos.

Mas Kiev sai de Ancara com garantias reforçadas: 70 mil milhões de euros em equipamento, assistência e formação para 2026, com o compromisso de manter «pelo menos» o mesmo nível em 2027.

Portugal, através do primeiro-ministro, Luís Montenegro, anunciou que reeditará o apoio prestado em 2024 e 2025 e reforçará em 50 milhões de euros a sua participação no programa PURL (Prioritised Ukraine Requirements List) de aquisição de material militar para a Ucrânia.

Desconfiança entre as margens

Mas nem toda a cimeira foi pautada pela unidade e consenso. Trump chegou a Ancara a cumprimentar o homólogo turco, Erdoğan, com entusiasmo e, pouco depois, voltou a queixar-se de ter sido «abandonado» pelos aliados europeus na guerra contra o Irão, apontando o dedo a Reino Unido, França, Alemanha e Itália por não terem cedido bases para os ataques norte-americanos. «Ficámos muito desiludidos com a NATO», resumiu o Presidente dos EUA. E insistiu que os europeus nem sequer foram convidados a ajudar: «Antes de eu perguntar, eles disseram que não estariam lá, e nós já investimos triliões de dólares na NATO.»

Rutte tentou apagar o incêndio, sublinhando que as bases europeias permitiram quase cinco mil missões aéreas ao abrigo de acordos bilaterais e que a operação contra Teerão dificilmente teria sido possível sem essa plataforma. «Os EUA provavelmente não teriam conseguido levar a cabo a operação ‘Epic Fury’ sem utilizar a Europa como uma grande plataforma de projeção de poder», disse o secretário-geral. Mas a divergência de fundo – sobre até onde vai a solidariedade da Aliança fora do artigo 5.º – ficou exposta.

A Gronelândia continua a ser a ferida mais visível. Trump repetiu, à chegada, que o território ártico dinamarquês «deve ser controlado pelos Estados Unidos», insistindo que «não é bom» para a Dinamarca. A primeira-ministra Mette Frederiksen respondeu que espera que os aliados respeitem a soberania do país e aceitem que a ilha não está à venda.

Montenegro, questionado sobre o tema, lembrou que o princípio da integridade territorial «vale para dentro» da Aliança tal como vale para fora, deixando uma «mensagem de solidariedade para com Copenhaga». E o próprio Trump admitiu que as suas ameaças de janeiro já «prejudicaram» as relações com a NATO. Enquanto isso, a Turquia colheu os dividendos de ser anfitriã: Trump chamou a Erdoğan «um líder respeitado em todo o mundo» e sinalizou o levantamento das sanções ligadas à compra do sistema russo de defesa S-400, além da reabertura dreabertura da porta ao programa de caças F-35, do qual a Turquia foi excluída pelo Congresso dos EUA . «É uma decisão que vamos tomar... é um ótimo avião, de longe o melhor», disse Trump . Esta reaproximação que incomoda aliados menos confortáveis com um país que já opera equipamento russo.

A ‘europeização’ com travões próprios

Ao nível do discurso há um consenso que a Europa tem de deixar de depender tanto do guarda-chuva americano. Rutte e a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, insistiram numa «clara divisão de tarefas»: a NATO fica com o comando e as normas, a UE com a indústria e o investimento. «Não podemos continuar, como até aqui, excessivamente dependentes dos Estados Unidos. Precisamos de uma Europa muito mais forte dentro de uma NATO mais forte», disse Rutte, numa frase quase paradoxal: «Para continuarmos transatlânticos, temos de nos tornar mais europeus.» Mas o consenso trava na prática: o programa SAFE (Instrumento de Ação para a Segurança da Europa) , de 150 mil milhões de euros, limita a 35% o conteúdo não-europeu nos contratos, uma cláusula que já mereceu críticas do embaixador norte-americano junto da NATO, Matthew Whitaker, enquanto um responsável europeu, sob anonimato, defendia o oposto: «É justo» que o dinheiro dos contribuintes beneficie empresas europeias . Todos concordam que a Europa deve gastar mais – mas ninguém está de acordo sobre quem vai fabricar o armamento.

Portugal: dever cumprido e contas por fazer

Montenegro chegou a Ancara com um argumento de autoridade: Portugal terminou 2025 com um investimento em Defesa superior a 2% do PIB, a primeira vez desde 2014 que o país está «numa trajetória de cumprimento». O primeiro-ministro insistiu que não houve «nenhuma querela» entre os aliados e que a «unidade em volta dos objetivos» foi absoluta.

É contra este pano de fundo que a NATO tenta demonstrar, a Trump e a si própria, que ainda tem razão de ser. Os números de investimento são reais e verificáveis. O que continua por confirmar é se a vontade política de Washington para garantir a segurança europeia a longo prazo sobreviverá ao próximo desabafo presidencial.

Ancara mostrou uma Aliança capaz de somar milhares de milhões de dólares em torno de uma mesa, mas incapaz de esconder que a confiança entre os dois lados do Atlântico já não se mede em euros nem em dólares.