Em fevereiro de 2025, o recém-empossado vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, foi à Conferência de Segurança de Munique (MSC) tecer críticas à Europa. Quando todos esperavam um discurso focado em matérias de defesa e segurança, em linha com o que o secretário da Defesa (agora secretário da Guerra) Pete Hegseth havia dito dias antes, Vance provocou alguma surpresa na audiência ao falar de valores num momento em que a aliança transatlântica estava envolta em dúvidas e tensões. O vice-presidente norte-americano insistiu que o principal problema europeu não estava nas ameaças externas, mas sim na organização, ou falta dela, interna. A divisão de responsabilidades em questões de defesa - o famoso burden sharing -, que era vista como uma demissão dos EUA da sua tarefa de liderar o mundo livre, foi apresentada por Vance como sendo um fortalecimento dessa mesma aliança. O discurso, que reuniu tímidos aplausos, ficou marcado como um alerta para a Europa, que deveria embarcar numa autorreflexão sobre a sua própria orgânica.
Um ano depois, foi a vez do secretário de Estado, Marco Rubio. Rubio aproveitou o mote do seu colega de executivo e insistiu na herança partilhada entre os Estados Unidos e a Europa, sublinhando o estatuto de aliados apesar das enormes diferenças que atravessam a parceria de tempos a tempos. Não terá sido certamente por acaso que o chefe da diplomacia norte-americana começou o discurso por dizer que «estamos aqui reunidos hoje como membros de uma aliança histórica, uma aliança que salvou e mudou o mundo».
Foi por esta chamada ao espírito de união que o discurso acabou por ficar inevitavelmente marcado. Ainda no princípio da intervenção, Rubio relembrou os tempos da Guerra Fria, uma altura na qual «a vitória estava longe de ser certa», mas na qual os aliados ocidentais foram «movidos por um objetivo comum». «Estávamos unidos não apenas pelo que combatíamos, mas também pelo que defendíamos», disse, acrescentando que «juntos, a Europa e a América prevaleceram e um continente foi reconstruído. Os nossos povos prosperaram. Com o tempo, os blocos do Leste e do Oeste foram reunificados. Uma civilização foi novamente restaurada». E se a união das democracias liberais ocidentais prevaleceu na contenda contra o comunismo que marcou a segunda metade do século XX, a «euforia» provocada pela vitória no final da década de 1980 - com a queda do Muro de Berlim e, pouco tempo depois, da União Soviética -, acabou por desaguar, nas palavras de Marco Rubio, numa «ilusão perigosa».
O sentimento generalizado no Ocidente era o de que havíamos finalmente entrado «‘no fim da história’; que todas as nações seriam agora democracias liberais; que os laços formados apenas pelo comércio e pelos negócios substituiriam agora a nacionalidade; que a ordem global baseada em regras - um termo muito usado - substituiria agora o interesse nacional; e que viveríamos agora num mundo sem fronteiras, onde todos se tornariam cidadãos do mundo». Uma ideia que, para Rubio, foi «tola» porque «ignorou tanto a natureza humana quanto as lições de mais de 5.000 anos de história humana registada. E isso custou-nos caro». «Nesta ilusão», continuou, «abraçámos uma visão dogmática do comércio livre e sem restrições, mesmo quando algumas nações protegiam as suas economias e subsidiavam as suas empresas para sistematicamente prejudicar as nossas - fechando as nossas fábricas, resultando na desindustrialização de grande parte das nossas sociedades, transferindo milhões de empregos da classe trabalhadora e média para o estrangeiro e entregando o controlo das nossas cadeias de abastecimento críticas a adversários e rivais». Mais: «delegámos a nossa soberania a instituições internacionais, enquanto muitas nações investiram em enormes estados de bem-estar social, à custa de manter a capacidade de se defenderem. Isto, mesmo quando outros países investiram no mais rápido aumento militar de toda a história da humanidade e não hesitaram em usar o poder militar para perseguir os seus próprios interesses».
Naturalmente, e até porque tem sido uma das principais bandeiras da administração Trump, a imigração em massa não passou em claro. Pouco antes na intervenção, o secretário de Estado já havia mencionado a ingenuidade de idealizarmos um mundo sem fronteiras, e alguns parágrafos depois não deixou de carregar na crítica à permissibilidade demonstrada por vários países ocidentais quanto a esta questão: «na busca por um mundo sem fronteiras, abrimos as nossas portas a uma onda sem precedentes de migração em massa que ameaça a coesão das nossas sociedades, a continuidade da nossa cultura e o futuro dos nossos povos. Cometemos esses erros juntos e agora, juntos, devemos aos nossos povos enfrentar esses fatos e seguir em frente, para reconstruir».
Encarar o futuro ‘juntos’
A constante utilização da palavra ‘juntos’ no discurso de Rubio não deve ser subvalorizada. Porque se em 2025 Vance tentou demonstrar que o caminho dos Estados Unidos deve ser trilhado em conjunto com o dos europeus, Marco Rubio deixou pouco espaço para dúvidas. «Os Estados Unidos estão a traçar o caminho para um novo século de prosperidade e, mais uma vez, queremos fazê-lo juntamente convosco, nossos estimados aliados e nossos amigos mais antigos», disse o secretário de Estado norte-americano. «Queremos fazê-lo juntos com vocês, com uma Europa que se orgulha da sua herança e da sua história; com uma Europa que tem o espírito criativo da liberdade que enviou navios para mares desconhecidos e deu origem à nossa civilização; com uma Europa que tem os meios para se defender e a vontade de sobreviver».
Este foco na união, e no esforço que os Estados Unidos parecem estar a dedicar-lhe, transatlântica levou um dos intervenientes da conferência, o primeiro a falar para Rubio depois do discurso, a agradecer: «Sr. Secretário, não sei se ouviu o suspiro de alívio que percorreu esta sala quando estávamos a ouvir o que eu interpretaria como uma mensagem de tranquilidade, de parceria. Falou das relações entrelaçadas entre os Estados Unidos e a Europa - o que me lembra as declarações feitas há décadas pelos seus antecessores, quando o debate era: será a América realmente uma potência europeia? Será a América uma potência na Europa? Obrigado por transmitir esta mensagem de tranquilidade sobre a nossa parceria». Terá sido por esta clareza, juntamente com uma ênfase menor na crítica que aquela colocada por J. D. Vance há um ano, que Rubio conseguiu arrancar mais, e mais efusivos, aplausos (ainda que alguns dos presentes não o tenham feito).
Assim, e depois do discurso elegante e marcante do primeiro-ministro do Canadá Mark Carney em Davos, Marco Rubio levou a Munique um discurso que poderá ficar para a história das relações EUA-Europa.