Francis Clifford Smith morreu aos 101 anos, depois de passar mais de 70 anos preso por um homicídio que afirmou, até ao fim da vida, não ter cometido.
A morte aconteceu a 25 de junho, numa unidade de cuidados em Rocky Hill, enquanto dormia, no estado norte-americano do Connecticut, onde Smith vivia sob liberdade condicional supervisionada desde 2020. A informação foi divulgada apenas esta semana através de uma investigação especial da BBC.
Smith ficou conhecido como o homem que terá passado mais tempo preso nos Estados Unidos, tendo cumprido 70 anos e 31 dias de prisão antes de ser colocado em liberdade condicional.
Mas a história de Smith não se resume ao tempo passado atrás das grades. Ao longo de décadas, viu a própria execução ser marcada por oito vezes e chegou a receber a chamada última refeição em todas elas.
Oito vezes preparado para morrer
Smith tinha 25 anos quando foi condenado, em 1950, pelo homicídio de Grover Hart, um vigilante noturno de 68 anos morto durante um assalto ao Indian Harbor Yacht Club, em Greenwich, Connecticut, no verão de 1949. A sentença foi inicialmente a pena de morte.
Entre 1950 e 1954, Smith foi preparado por oito vezes para ser executado. Em cada ocasião, a execução acabou por ser suspensa. A última estava marcada para julho de 1954 e, nessa altura, Smith chegou a ter o cabelo rapado enquanto aguardava pela cadeira elétrica.
A poucas horas da execução, porém, surgiu uma reviravolta. Um dos agentes envolvidos na detenção de Smith apresentou-se perante o Conselho de Perdões e declarou acreditar que o condenado não tinha cometido o homicídio. A pena acabou por ser comutada para prisão perpétua.
Smith nunca abandonou a sua versão dos acontecimentos.
As dúvidas que ficaram sobre a condenação
O caso que levou Smith à prisão foi marcado, ao longo dos anos, por dúvidas sobre a força das provas que sustentaram a condenação.
Um dos investigadores que participou na investigação chegou mais tarde a afirmar perante o conselho de liberdade condicional que acreditava que Smith não tinha matado Hart e que nem sequer tinha a certeza de que este estivesse no local do crime. Ainda assim, a condenação nunca foi anulada.
Smith passou décadas a contestar a acusação. Em 2023, numa entrevista ao Boston Globe, resumiu a relação que tinha mantido com o sistema prisional durante praticamente toda a vida: “I’ve been locked up all my life.”
Uma vida quase inteira dentro do sistema prisional
A ligação de Smith às instituições de correção começou muito antes da condenação por homicídio.
Durante a infância e adolescência, passou por instituições de correção juvenil. Já adulto, acabou condenado pelo homicídio que determinaria o resto da sua vida.
Em 1967, conseguiu fugir da prisão e permaneceu em liberdade durante 12 dias, até ser novamente detido. Anos mais tarde, chegou a beneficiar de liberdade condicional, mas regressou à prisão depois de violar as condições impostas.
Em 2020, depois de mais de sete décadas de reclusão, deixou a prisão e foi transferido para uma unidade de cuidados, onde permaneceu sob supervisão das autoridades, devido à idade avançada e à saúde frágil.
Foi aí que viveu os últimos anos.
O homem que alimentava pássaros na prisão
Apesar da longa história judicial, Smith acabou também por ficar conhecido dentro da prisão por uma razão muito diferente.
Durante os anos passados na Osborn Correctional Institution, ganhou a alcunha de “Birdman of Osborn”, por alimentar regularmente os pássaros.
Um responsável do Departamento de Execuções Penais contou à BBC que Smith costumava esconder pão na roupa para o levar para as aves. Segundo Andrius Banevicius, os funcionários acabavam por ignorar o comportamento porque sabiam que Smith estava apenas a alimentar os animais.
A imagem contrasta com a história de um homem que passou décadas a preparar-se para uma execução que nunca aconteceu.
Morreu sem ver a condenação anulada
Francis Clifford Smith morreu enquanto estava sob liberdade condicional supervisionada e sem que a condenação pelo homicídio de Grover Hart tivesse sido anulada.
Até ao fim, manteve a alegação de inocência.
A sua morte encerra uma das histórias prisionais mais longas e invulgares dos Estados Unidos. Smith passou mais de 70 anos atrás das grades, sobreviveu a oito datas de execução e chegou aos 101 anos sem nunca deixar de contestar o crime que determinou grande parte da sua existência.