Mojtaba Khamenei: quem é o novo líder supremo do Irão que nem o próprio pai queria no poder

Tem 56 anos, nunca ocupou nenhum cargo público, manteve um perfil quase invisível durante décadas e tem uma fortuna alegadamente escondida em propriedades de luxo pela Europa. A Assembleia de Peritos elegeu-o sob pressão dos Guardiões da Revolução, contrariando o que o próprio ayatollah havia manifestado em vida.
Mojtaba Khamenei: quem é o novo líder supremo do Irão que nem o próprio pai queria no poder

O Irão tem um novo líder supremo. A Assembleia de Peritos anunciou este domingo que Mojtaba Khamenei, filho do ayatollah Ali Khamenei, morto nos ataques conjuntos dos Estados Unidos e de Israel a 28 de fevereiro, foi escolhido para dirigir a República Islâmica no momento mais grave dos seus 47 anos de existência. A sua seleção pode ser um sinal de que as fações mais radicais do regime se mantêm no poder e de que o governo tem pouca vontade de negociar no curto prazo, enquanto a guerra entra na sua segunda semana.

Com 56 anos, Mojtaba Khamenei torna-se o terceiro líder supremo do Irão e o primeiro caso de sucessão hereditária desde a queda da monarquia Pahlavi em 1979. Uma ironia histórica que não passou despercebida: a República Islâmica, criada precisamente para varrer a dinastia do Xá, regressa a um modelo dinástico.

O homem que opera nas sombras

Figura do regime com laços profundos com os Guardiões da Revolução, Mojtaba Khamenei nunca ocupou nenhum cargo público. Manteve durante décadas um perfil discreto, sem dar palestras públicas, sermões de sexta-feira ou discursos políticos, ao ponto de muitos iranianos nunca terem ouvido a sua voz, apesar de saberem há anos que era uma figura em ascensão dentro do establishment teocrático. Durante quase duas décadas, opositores dentro e fora do Irão associaram o seu nome à supressão violenta de manifestantes, segundo a Al Jazeera.

Nascido em 1969 em Mashhad, entrou no seminário de Qom após concluir os estudos na Escola Alavi de Teerão. Estudou com figuras religiosas de renome, incluindo Mohammad-Taghi Mesbah-Yazdi, Mahmoud Hashemi Shahroudi e o próprio pai. Ainda adolescente, foi enviado para a frente de batalha durante os anos finais da guerra Irão-Iraque. Desenvolveu desde jovem laços estreitos com os IRGC, quando serviu no Batalhão Habib durante múltiplas operações nessa guerra. Vários dos seus camaradas foram mais tarde ocupar posições de liderança nos aparelhos de segurança e informações da República Islâmica, escreve a imprensa internacional especializada.

Credenciais em causa

As credenciais religiosas de Mojtaba Khamenei têm sido alvo de contestação, uma vez que é um hojatoleslam, um grau intermédio na hierarquia islâmica xiita, e não um ayatollah, o grau superior. O pai também não tinha o título quando assumiu o poder em 1989, e a lei foi alterada para o acomodar. Uma solução semelhante poderá ser encontrada para o filho. O Departamento do Tesouro dos EUA, ao impor sanções em 2019, afirmou que Mojtaba representou o líder supremo "em capacidade oficial apesar de nunca ter sido eleito ou nomeado para qualquer posição governamental", segundo a Al Arabiya.

O pai não queria

A oposição do próprio Ali Khamenei à candidatura do filho está confirmada por fontes jornalísticas independentes. Vários analistas assinalaram a falta de credenciais religiosas adequadas de Mojtaba e a relutância dentro do regime em supervisionar uma sucessão dinástica como os principais argumentos contra a sua candidatura, segundo a Al Jazeera.

Já a Reuters confirmou que Ali Khamenei havia indicado três figuras religiosas seniores como alternativas em caso de morte, nenhuma delas o filho: Gholam-Hossein Mohseni-Ejei, Asghar Hijazi e Hassan Khomeini.

Ainda assim, a máquina dos Guardiões da Revolução prevaleceu. A assembleia reuniu-se sobretudo online para discutir a nomeação, após pressão intensa dos IRGC para que Mojtaba fosse escolhido. Os comandantes contactaram repetidamente os membros com pressão psicológica e política. O anúncio foi adiado por razões de segurança, com receio de que o nome do novo líder se tornasse alvo de Israel e dos EUA antes de ser formalmente proclamado.

A fortuna invisível

Uma investigação de um ano da Bloomberg identificou Mojtaba Khamenei como ligado a uma rede financeira offshore utilizada para manter e movimentar ativos fora do Irão. Os alegados ativos incluem imobiliário de elevado valor em Londres e Dubai, bem como interesses em transportes marítimos, banca e hotelaria na Europa, estruturados através de intermediários e empresas-casca em múltiplas jurisdições. A Euronews sublinha, contudo, que analistas tendem a ver a sua influência sobre redes económicas não como resultado de actividade comercial privada, mas como consequência da sua posição política e dos seus laços com instituições estatais. O Departamento do Tesouro dos EUA disse que Mojtaba trabalhou em estreita ligação com o comandante da Força Quds dos IRGC e com a Basij para "fazer avançar as ambições regionais desestabilizadoras do pai e os seus objectivos domésticos repressivos", segundo a Al Arabiya.

O homem por detrás das repressões

Mojtaba é amplamente visto como o principal responsável pela ascensão do radical Mahmoud Ahmadinejad, eleito presidente em 2005. Apoiou Ahmadinejad em 2009, quando este venceu um segundo mandato numa eleição contestada que resultou em protestos antigovernamentais violentamente suprimidos. O moderado Mehdi Karroubi, que concorreu nas mesmas eleições, escreveu uma carta a Ali Khamenei a contestar o alegado papel de Mojtaba no apoio a Ahmadinejad, acusação que o líder rejeitou.

Trump diz que "não vai durar"

Trump disse que tinha "de estar envolvido na nomeação" do novo líder iraniano. "O filho de Khamenei é inaceitável para mim. Queremos alguém que traga harmonia e paz ao Irão", acrescentou. Um membro da Assembleia de Peritos justificou a escolha dizendo que o candidato foi seleccionado com base na orientação do falecido Khamenei de que o líder supremo devia "ser odiado pelo inimigo". "Até o Grande Satanás mencionou o seu nome", disse o membro, em referência directa às declarações de Trump. O ministro da Defesa israelita Israel Katz declarou que "qualquer líder seleccionado pelo regime iraniano para continuar a liderar o plano de destruição de Israel será um alvo certo de assassínio, independentemente do seu nome ou de onde se esconda", segundo a Anadolu Agency.

O Irão tem agora um novo líder. Mais jovem, aparentemente mais radical e, pela primeira vez na história da República Islâmica, filho do anterior. A guerra continua. E o mundo observa.