terça-feira, 18 ago. 2026

Merz troca de ministros e tenta resistir ao caos

O líder parlamentar da CDU recorreu a uma barriga de aluguer nos EUA, uma prática ilegal na Alemanha. Com eleições regionais à vista, o chanceler alemão viu-se forçado a fazer alterações no Governo.
Merz troca de ministros e tenta resistir ao caos

Os mais recentes desenvolvimentos na Alemanha deixam evidente que este ano a Soomerloch, a silly season alemã, tirou férias. Os jornalistas não terão a oportunidade de fazer uma pausa das notícias mais graves ou importantes para se dedicarem, devido à necessidade de encher as páginas de jornais, a outros assuntos menos pesados. Na verdade, têm-se dedicado a um dos assuntos mais graves, senão o mais grave, desde que Friedrich Merz assumiu a liderança do país.

À semelhança do que tem acontecido noutros países, o partido da direita tradicional – a CDU, no caso alemã –chega ao poder com uma curta vantagem que não lhe permite governar a bel-prazer, sendo seguido de perto pelo partido da direita radical – neste caso, a AfD. O partido do centro-esquerda, o SPD, desgastado dos governos de Olaf Scholz, caiu para terceiro naquela que foi a pior eleição da sua história. Mas Merz optou, para formar um governo de maioria, pelo apoio dos sociais-democratas, uma manobra que lhe tem dificultado a manutenção da estabilidade governativa. Como consequência, o chanceler atingiu níveis de popularidade bastante reduzidos –12%, de acordo com a YouGov– e uma taxa de rejeição que ronda os 80%.

E se a imagem do chanceler alemão já estava em queda, o mais recente caso a envolver o líder da bancada parlamentar da CDU só veio agudizar a crise. No passado dia 14 de julho, o jornal alemão BILD publicou uma notícia onde dá conta que Jens Spahn e o seu marido haviam sido pais através de uma barriga de alugar nos Estados Unidos. «É difícil descrever este sentimento com palavras», disse o político conservador que, tal como o seu partido, tem sido sempre contra a legalização desta prática na Alemanha, onde ainda é ilegal. A fuga à lei é uma contradição gritante e, naturalmente, o líder parlamentar da CDU não tinha mais condições para continuar no cargo, pelo que pediu a demissão.

Os parlamentares conservadores já elegeram um novo líder, Thorsten Frei, e Friedrich Merz colocou em marcha aquilo que consideraria um novo começo, tendo em conta que, como escreveu o Politico, Spahn era «um rival de longa data a quem Merz sempre tinha olhado com desconfiança» e agora «previa-se que se seguisse rapidamente uma reestruturação mais ampla». Porém, «as coisas acabaram por descarrilar».

Patrick Schneider, o então ministro dos Transportes, soube que seria um dos alvos da reestruturação e, também de acordo com o Politico, informou de imediato o seu staff. O problema? O substituto que Merz tinha em mente recusou e o chanceler não se pronunciou mais sobre o caso, o que levou Schneider a pedir a demissão. Só na passada segunda-feira é que Friedrich Merz anunciou o nome que passará a liderar a pasta dos transportes: Steffen Bilger, que foi secretário de estado no mesmo ministério entre 2018 e 2021, ainda durante a liderança de Angela Merkel, que contava já com Scholz no estatuto de vice-chanceler.

Outro dos ministérios visados foi o da Saúde, com Nina Warkin, que agora assumirá o cargo de chefe da chancelaria deixado aberto por Frei, a deixar a pasta a Carsten Linnemann. Mas esta também não foi uma transição livre de polémica.

as eleições regionais

Esta instabilidade no coração do partido que lidera o Governo levanta, naturalmente, preocupações consideráveis para o futuro de Merz e do Executivo. Não que o lugar do chanceler esteja, para já, em risco, mas teme-se o que poderá vir a acontecer em setembro.

Entre 6 e 20 de setembro, irão realizar-se quatro eleições a nível local. Primeiro, as eleições para o parlamento regional do estado da Saxónia-Anhalt, depois as eleições municipais na Baixa Saxónia que serão seguidas pelas eleições para a Câmara dos Representantes de Berlim e, por fim, eleições para o parlamento regional de Mecklemburgo-Pomerânia Ocidental.

Com este pano de fundo, as eleições de setembro não impactarão apenas os eleitores regionais que se deslocarão às urnas. Poderão mesmo ditar a rutura ou a continuidade do presente Governo.