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Era noite de segunda-feira quando uma moradora de Hagenbach, uma pequena aldeia de 800 habitantes no Haut-Rhin, em França, não conseguiu continuar a ignorar aqueles sons. Vinham de uma carrinha estacionada no pátio comum de vários prédios. Barulhos de criança.
Quando as autoridades chegaram e abriram a porta do veículo, o que encontraram deixou os agentes sem palavras: um menino de 9 anos, nu, em posição fetal, coberto por um cobertor sobre um monte de lixo e fezes. Estava tão fraco que já não conseguia andar.
Mais de um ano fechado numa carrinha
Segundo o procurador de Mulhouse, Nicolas Heitz, o pai do menino, de 43 anos, admitiu ter fechado o filho na carrinha a partir de novembro de 2024, quando a criança tinha apenas 7 anos. O motivo: a companheira, de 37 anos, com quem vivia juntamente com duas filhas de 10 e 12 anos, não queria o menino em casa e insistia que ele devia ser internado numa instituição psiquiátrica. O pai afirmou tê-lo escondido ali "para o proteger".
A última vez que o menino tomara banho remontava ao final de 2024. Urinava em garrafas de plástico, fazia as restantes necessidades em sacos de lixo. O pai trazia-lhe comida e água duas vezes por dia, antes e depois do trabalho, trabalho esse que fazia todos os dias na mesma carrinha onde o filho permanecia encarcerado.
"Pensávamos que era um gato"
Vários vizinhos admitiram ter ouvido barulhos vindos do veículo. Mas o pai tinha sempre a mesma resposta: era um gato. Ninguém desconfiou. Ou melhor, ninguém quis acreditar no impensável.
"É louco, não se pensa nestas coisas, é impensável. Dizíamos bom dia e boa tarde, ele ia trabalhar, voltava à noite. Não podíamos imaginar", disse um morador emocionado à estação regional Ici Alsace.
Uma vizinha, citada pela agência noticiosa AFP sob anonimato, descreveu o pai como "super prestável". "Nunca poderíamos ter imaginado isso", confessou, acrescentando que tinha estacionado mesmo ao lado da carrinha poucas horas antes da intervenção das autoridades. "Vimos os bombeiros tirá-lo de lá, ainda envolto no cobertor de sobrevivência. Vejo a cara daquele miúdo desde segunda-feira [6 de abril]. Mal consigo dormir."
Sem qualquer historial psiquiátrico
O procurador foi claro: não existe qualquer elemento médico que sustente problemas psiquiátricos na criança. O menino frequentara o primeiro ano escolar em Mulhouse até 2023/2024, com um percurso "muito bom". A escola fechou o processo quando a família comunicou que ele iria à escola num outro local. Ninguém voltou a perguntar.
Os familiares, entretanto ouvidos pelas autoridades, garantiram desconhecer por completo que o menino estava na carrinha. Acreditavam, como o casal lhes dissera, que ele se encontrava institucionalizado por razões de saúde mental.
A irmã da vítima, de 12 anos, vive com o pai há quatro ou cinco anos, depois de a mãe ter enfrentado dificuldades de saúde mental.
O que acontece agora
O pai foi detido e indiciado por sequestro e privação de cuidados a menor. A companheira, que negou todos os factos que lhe são imputados, ficou em liberdade com medidas de coação. A filha desta, de 10 anos, terá dito que a mãe já ouvira barulhos na carrinha e que o pai respondera sempre que era um gato.
As três crianças foram colocadas em acolhimento provisório. O menino de 9 anos encontrava-se, na sexta-feira, ainda hospitalizado mas, segundo o procurador, "em segurança".