quinta-feira, 14 mai. 2026

Menino de 9 anos encontrado nu e desnutrido numa carrinha: pai obrigou-o a viver ali durante mais de um ano

Uma vizinha ouviu barulhos vindos de uma carrinha estacionada num pátio comum. Quando as autoridades abriram as portas, encontraram uma criança em posição fetal, sem roupa, rodeada de lixo e fezes. O pai confessou. A família não sabia. Os vizinhos ainda não conseguem dormir.

Era noite de segunda-feira quando uma moradora de Hagenbach, uma pequena aldeia de 800 habitantes no Haut-Rhin, em França, não conseguiu continuar a ignorar aqueles sons. Vinham de uma carrinha estacionada no pátio comum de vários prédios. Barulhos de criança.

Quando as autoridades chegaram e abriram a porta do veículo, o que encontraram deixou os agentes sem palavras: um menino de 9 anos, nu, em posição fetal, coberto por um cobertor sobre um monte de lixo e fezes. Estava tão fraco que já não conseguia andar.

Mais de um ano fechado numa carrinha

Segundo o procurador de Mulhouse, Nicolas Heitz, o pai do menino, de 43 anos, admitiu ter fechado o filho na carrinha a partir de novembro de 2024, quando a criança tinha apenas 7 anos. O motivo: a companheira, de 37 anos, com quem vivia juntamente com duas filhas de 10 e 12 anos, não queria o menino em casa e insistia que ele devia ser internado numa instituição psiquiátrica. O pai afirmou tê-lo escondido ali "para o proteger".

A última vez que o menino tomara banho remontava ao final de 2024. Urinava em garrafas de plástico, fazia as restantes necessidades em sacos de lixo. O pai trazia-lhe comida e água duas vezes por dia, antes e depois do trabalho, trabalho esse que fazia todos os dias na mesma carrinha onde o filho permanecia encarcerado.

"Pensávamos que era um gato"

Vários vizinhos admitiram ter ouvido barulhos vindos do veículo. Mas o pai tinha sempre a mesma resposta: era um gato. Ninguém desconfiou. Ou melhor, ninguém quis acreditar no impensável.

"É louco, não se pensa nestas coisas, é impensável. Dizíamos bom dia e boa tarde, ele ia trabalhar, voltava à noite. Não podíamos imaginar", disse um morador emocionado à estação regional Ici Alsace.

Uma vizinha, citada pela agência noticiosa AFP sob anonimato, descreveu o pai como "super prestável". "Nunca poderíamos ter imaginado isso", confessou, acrescentando que tinha estacionado mesmo ao lado da carrinha poucas horas antes da intervenção das autoridades. "Vimos os bombeiros tirá-lo de lá, ainda envolto no cobertor de sobrevivência. Vejo a cara daquele miúdo desde segunda-feira [6 de abril]. Mal consigo dormir."

Sem qualquer historial psiquiátrico

O procurador foi claro: não existe qualquer elemento médico que sustente problemas psiquiátricos na criança. O menino frequentara o primeiro ano escolar em Mulhouse até 2023/2024, com um percurso "muito bom". A escola fechou o processo quando a família comunicou que ele iria à escola num outro local. Ninguém voltou a perguntar.

Os familiares, entretanto ouvidos pelas autoridades, garantiram desconhecer por completo que o menino estava na carrinha. Acreditavam, como o casal lhes dissera, que ele se encontrava institucionalizado por razões de saúde mental.

A irmã da vítima, de 12 anos, vive com o pai há quatro ou cinco anos, depois de a mãe ter enfrentado dificuldades de saúde mental.

O que acontece agora

O pai foi detido e indiciado por sequestro e privação de cuidados a menor. A companheira, que negou todos os factos que lhe são imputados, ficou em liberdade com medidas de coação. A filha desta, de 10 anos, terá dito que a mãe já ouvira barulhos na carrinha e que o pai respondera sempre que era um gato.

As três crianças foram colocadas em acolhimento provisório. O menino de 9 anos encontrava-se, na sexta-feira, ainda hospitalizado mas, segundo o procurador, "em segurança".