terça-feira, 08 set. 2026

Martin Luther King Jr.: 63 anos de um sonho

No dia 28 de agosto de 1963, Martin Luther King Jr., escolheu o Memorial Lincoln, em Washington, D.C., como palco de um dos mais famosos e importantes discursos da política americana do século XX.
Martin Luther King Jr.: 63 anos de um sonho

A 1 de janeiro de 1863, a alguns meses do icónico Discurso de Gettysburg, Abraham Lincoln fazia entrar em vigor a Proclamação da Emancipação. Com a Guerra Civil, que tinha a questão da escravatura no seu cerne, ainda a meio, o então presidente dos Estados Unidos proclamava que «todas as pessoas mantidas em escravatura em qualquer Estado ou parte designada de um Estado, cuja população se encontre, nessa altura, em rebelião contra os Estados Unidos, serão, a partir desse momento, doravante e para sempre, livres». Foi um verdadeiro ponto de viragem numa nação que, desde o seu nascimento, vivia numa tremenda e insofismável tensão entre os princípios avançados pela Declaração de Independência - «todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos Direitos inalienáveis, que entre estes estão a Vida, a Liberdade e a procura da Felicidade» - e a dura realidade da escravatura.

Boa parte dos pais fundadores tinha plena consciência da contradição. Alguns viveram atormentados com ela. James Madison, por exemplo, via a escravatura como «uma triste mancha no nosso país livre». Ainda assim, à data da fundação dos Estados Unidos, sem este compromisso não teria havido país, mas a porta para uma futura abolição ficou aberta. E Lincoln, um orgulhoso herdeiro do legado dos pais fundadores, entrou, transformando-se num dos presidentes mais importantes da história dos Estados Unidos.

Por isto, Martin Luther King, Jr., escolheu o Memorial Lincoln, em Washington, D.C., como palco de um dos mais famosos e importantes discursos da política americana do século XX. «Há cem anos», começava o pastor e ativista, «um grande americano, sob cuja sombra simbólica nos encontramos hoje, assinou a Proclamação de Emancipação. Este decreto histórico surgiu como um grande farol de esperança para milhões de escravos negros que tinham sido queimados pelas chamas de uma injustiça devastadora. Surgiu como um amanhecer alegre que pôs fim à longa noite do seu cativeiro». Estas foram as primeiras linhas de uma intervenção que marcou, e ficou para a história.

Tenho um sonho

A década de 1960 foi o apogeu do Movimento pelos Direitos Civis nos Estados Unidos, e o discurso de Luther King na March on Washington for Jobs and Freedom (Marcha em Washington pelo Emprego e pela Liberdade), uma obra-prima de retórica e eloquência, levou a luta a outro patamar.

Ainda que a Proclamação de Lincoln tenha sido o ponto de viragem, ainda havia muito por fazer. «Cem anos depois», dizia King a uma plateia de sensivelmente 250 mil pessoas, «o negro ainda não é livre. Cem anos depois, a vida do negro continua, infelizmente, aleijada pelas algemas da segregação e pelas correntes da discriminação. Cem anos depois, o negro vive numa ilha solitária de pobreza no meio de um vasto oceano de prosperidade material. Cem anos depois, o negro continua a definhar nos recantos da sociedade americana e encontra-se no exílio na sua própria terra. E foi por isso que viemos aqui hoje para denunciar uma situação vergonhosa. Cem anos depois, o negro continua relegado às margens da sociedade americana e encontra-se exilado na sua própria terra. Por isso, viemos aqui hoje para chamar a atenção para uma situação vergonhosa. De certa forma, viemos à capital do nosso país para descontar um cheque».

Depois, a famosa sequência, que merece ser citada na íntegra: «Apesar de enfrentarmos as dificuldades de hoje e de amanhã, continuo a ter um sonho. É um sonho profundamente enraizado no sonho americano. Tenho o sonho de que, um dia, esta nação se erguerá e viverá o verdadeiro significado do seu credo: Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais. Tenho um sonho de que, um dia, nas colinas vermelhas da Geórgia, os filhos dos antigos escravos e os filhos dos antigos proprietários de escravos possam sentar-se juntos à mesa da fraternidade. Tenho um sonho de que, um dia, até mesmo o estado do Mississippi, um estado que se debate sob o calor da injustiça, que se debate sob o calor da opressão, se transforme num oásis de liberdade e justiça. Tenho um sonho de que os meus quatro filhos pequenos venham, um dia, a viver numa nação onde não serão julgados pela cor da sua pele, mas pelo conteúdo do seu caráter. Tenho um sonho hoje. Tenho um sonho de que, um dia, lá no Alabama, com os seus racistas cruéis, com o seu governador de cujos lábios escorrem palavras de interposição e nulificação, um dia, lá mesmo no Alabama, os meninos e meninas negros poderão dar as mãos aos meninos e meninas brancos como irmãos e irmãs. Tenho um sonho hoje. Tenho um sonho de que, um dia, todos os vales serão exaltados, todas as colinas e montanhas serão rebaixadas, os lugares acidentados serão nivelados e os lugares tortuosos serão endireitados, e a glória do Senhor será revelada, e toda a humanidade a verá em conjunto».

Outra das passagens que merece destaque é a seguinte: «Chegou a hora de concretizar as promessas da democracia. Chegou a hora de sair do vale escuro e desolado da segregação para o caminho iluminado pela luz do sol da justiça racial. Chegou a hora de elevar a nossa nação das areias movediças da injustiça racial para a rocha sólida da fraternidade. Chegou a hora de tornar a justiça uma realidade para todos os filhos de Deus». A expressão «todos os filhos de Deus» não pode ser reduzida a um mero truque retórico. Na verdade, o sonho de King alicerçava-se não apenas em abstrações, que também tinha e que levavam por vezes ao extremar de posições e ações, mas sobretudo na sua religiosidade.

A fé de Luther King

A fé foi, de facto, a principal âncora do seu projeto. E no seu mais famoso discurso, Martin Luther King voltou várias vezes aos pais fundadores da república americana: «Quando os fundadores da nossa república redigiram as magníficas palavras da Constituição e da Declaração de Independência», disse o pastor, «estavam a assinar uma promessa da qual todos os americanos viriam a ser herdeiros. Essa promessa consistia em garantir a todos os homens - sim, tanto aos homens negros como aos brancos - os direitos inalienáveis à vida, à liberdade e à busca da felicidade».

Entre os pais fundadores, Thomas Jefferson é um nome incontornável quando se debate a suposta hipocrisia da escravatura nos primeiros anos da jovem república. Foi da sua pena que saiu o texto da Declaração de Independência, mas era nas suas propriedades que centenas de pessoas viviam em escravatura, numa relação que o próprio chegou a classificar como «um exercício perpétuo das paixões mais turbulentas, do despotismo mais implacável, por um lado, e de submissões degradantes, por outro». Jefferson é também reconhecido como o philosophe da independência norte-americana, um cético em matérias religiosas. Mas de uma coisa não se permitia duvidar: «Deus é justo» e «a sua justiça não pode adormecer para sempre». O tema era a escravatura, cuja maldade inerente poderia valer aos Estados Unidos uma punição divina. O tempo dar-lhe-ia razão. Oito décadas depois de ter escrito estas palavras nas suas Notas sobre o Estado da Virgínia, o país embarcava numa guerra fratricida da qual poderiam ter saído dois países diferentes.

Como Jefferson, Martin Luther King, Jr., também não tinha dúvidas quanto à justiça de Deus. Em 1956, num sermão dado em Montgomery, Alabama, e intitulado O nosso Deus é Capaz, King demonstrava que o pensamento - tornado, para muitos, irresistível numa era de enormes avanços científicos - de que apenas o Homem é capaz não era, de todo, preciso, porque quando «percebemos a imensidão da ordem cósmica, não podemos deixar de exclamar: “O nosso Deus é capaz”». Para o ativista, num universo que se apresenta «num estranho dualismo: o bem e o mal, o certo e o errado, a luz e as trevas, a felicidade e a dor, a vida e a morte», «Deus é capaz de subjugar todos os poderes do mal». «Em última análise», dizia, «é esta esperança que nos faz seguir em frente», porque «sempre que Deus se opõe a algo, isso não pode sobreviver».

No último parágrafo do I Have a Dream, Luther King concluía que «Quando [o sonho] acontecer e quando permitirmos que a liberdade ressoe, quando a deixarmos ressoar em todas as aldeias e todos os vilarejos, em todos os estados e todas as cidades, poderemos acelerar a chegada daquele dia em que todos os filhos de Deus, homens negros e homens brancos, judeus e gentios, protestantes e católicos, poderão dar as mãos e cantar as palavras do antigo espiritual negro: “Livres, finalmente. Livres, finalmente”. Graças a Deus Todo-Poderoso, estamos finalmente livres». Menos de um ano depois de ter apresentado o seu sonho ao país, o presidente Lyndon B. Johnson, finalizando o trabalho iniciado pelo seu antecessor John F. Kennedy, promulgou o Civil Rights Act, colocando um ponto final na «discriminação racial e [na] segregação nos serviços públicos, no ensino público e nos programas que recebem apoio federal», como explica o website do Senado norte-americano. Assim, em 1964 - e em 1965, com o Voting Rights Act - morreu a era de Jim Crow (como ficaram conhecidas as políticas de segregação racial desde a década de 1870) e o sonho de Martin Luther King, e de milhões de afroamericanos, ganhou vida.

King acabaria por ser assassinado em 1968, com 39 anos, numa década marcada pela violência política. Existe hoje um feriado nacional em sua honra, celebrado na terceira segunda-feira do mês de janeiro e um memorial na capital norte-americana. O seu legado é muitas vezes motivo de contestação e de discordância. Mas as palavras, escritas em 1969, de William F. Buckley, Jr. - fundador do movimento conservador americano no pós-guerra e alguém que adotou inicialmente posições contra as reivindicações dos negros e criticou em várias ocasiões Luther King -, são ilustrativas da dimensão do seu legado, não isento de erros e contradições: «É altura de silenciarmos a memória de um tal Martin Luther King, o defensor da desobediência civil que, em certa ocasião, comparou a política externa dos Estados Unidos à da Alemanha nazi; e, em vez disso, realçarmos as qualidades que o tornavam admirável - a sua coragem, a sua força moral, a sua grande eloquência».