terça-feira, 09 jun. 2026

Magnifica humanitas: o ser humano e a IA

A primeira encíclica de Leão XIV cimenta a salvaguarda do ser humano na era da inteligência artificial como linha mestra da sua missão apostólica
Magnifica humanitas: o ser humano e a IA

A inteligência artificial ocupa um espaço determinante na forma como olhamos para o mundo no século XXI. É uma daquelas revoluções tecnológicas que não deixa espaço para a indiferença e que, como tantas outras ao longo da história da humanidade, nos coloca perante um mar de oportunidades. Mas os mares nunca são calmos. Para atingir a glória, que neste caso será o desbloquear de um vasto leque de possibilidades para a espécie humana, há que ter engenho para contrariar as marés adversas. Porque, se a IA veio alterar de forma radical a forma como vemos o mundo, para o bem e para o mal, também nos coloca perante questões morais e civilizacionais clássicas: quem somos, para onde vamos e como conseguiremos preservar a nossa essência nesta nova era?

Este é o tema principal da primeira encíclica de Leão XIV, que foi eleito como sucessor de Francisco na cadeira de São Pedro em Abril do ano passado. A Magnificas humanitas foi assinada pelo Papa no passado dia 15, data em que se cumpriu o centésimo trigésimo quinto aniversário da publicação da encíclica Rerum novarum de Leão XIII. Coincidência? É evidente que não. 

Na última década do século XIX, Leão XIII escreveu a sua encíclica num período em que a revolução industrial havia já alterado de forma profunda, em termos económicos e sociais, o papel do Homem no mundo. Foi naquele documento papal que se estabeleceram os eixos daquilo que hoje conhecemos como Doutrina Social da Igreja, cristalizando, assim, a necessidade de olhar para a Igreja Católica como um farol que ajudaria a iluminar a travessia humana num mundo novo. E, 135 anos depois, Leão XIV quer assumir o mesmo papel. A explicar a escolha do seu nome pouco depois de ter saído fumo branco da chaminé da Capela Sistina, Robert Provost disse que a principal razão foi a seguinte: «O Papa Leão XIII, com a histórica encíclica Rerum novarum, abordou a questão social no contexto da primeira grande revolução industrial; e, hoje, a Igreja oferece a todos a riqueza de sua doutrina social para responder a outra revolução industrial e aos desenvolvimentos da inteligência artificial, que trazem novos desafios para a defesa da dignidade humana, da justiça e do trabalho»

E, em junho do ano passado, dirigindo-se aos participantes da segunda Conferência Anual de Roma Sobre a Inteligência Artificial, Ética e Governança Corporativa, Leão XIV lançou os primeiros contornos da sua preocupação face à grande revolução do nosso tempo histórico. «A Igreja», escreveu o pontífice, «deseja contribuir para um debate sereno e informado sobre estas questões urgentes, realçando sobretudo a necessidade de avaliar as ramificações da inteligência artificial à luz do ‘desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade’», tendo em conta «o bem-estar da pessoa humana, não só do ponto de vista material, mas também intelectual e espiritual» e apelando à salvaguarda da «dignidade inviolável de cada pessoa humana» e ao respeito pela «riqueza e a diversidade cultural e espiritual dos povos do mundo»

A sua mensagem aos fiéis durante a Regina Caeli do passado dia 17, já depois de ter assinado a Magnifica humanitas, o Bispo de Roma voltou a frisar, lembrando que se celebrava em vários países o Dia Mundial das Comunicações Sociais, que «nesta era da inteligência artificial, encorajo todos a empenharem-se na promoção de formas de comunicação sempre respeitosas da verdade do homem, para a qual deve orientar-se toda a inovação tecnológica»