A comunicação é um dos principais desafios que, muitas vezes, marcam o dia a dia das famílias com crianças no espetro do autismo. No caso de Jessica Fletcher, foi um obstáculo (quase) ultrapassado.
Hunter tem 11 anos. Sofre de Perturbação do Espetro do Autismo (PEA) e é não-verbal, o que significa que não desenvolveu a fala o suficiente para conseguir transmitir ideias. Para se expressar, recorre a gestos e sorrisos.
A forma que a sua mãe encontrou para o ajudar a expressar-se de forma mais “direta” foi inovadora. Jessica tatuou no seu braço a imagem de um teclado.
Em declarações à CTV News, a mãe explicou de onde veio a ideia. Quando, um dia durante o jantar, a bateria do aparelho que o menino usava para comunicar acabou, a mãe percebeu que tinha de existir algo que o ajudasse nestes casos - porque sem o dispositivo de Comunicação Aumentativa e Alternativa, Hunter não conseguia comunicar de todo.
A solução que encontrou naquele dia foi desenhar num guardanapo um teclado, para onde o menino começou a apontar para explicar o que necessitava. “Fez-me perceber que não posso limitá-lo à tecnologia, porque a tecnologia também nos dececiona”, recorda Fletcher na entrevista.
Esse mesmo teclado fio utilizado para a tatuagem que agora ficará consigo para sempre. Além das típicas letras, o teclado inclui ainda um rosto feliz, um triste e uma tecla adicional que diz “amo-te”. “Algumas mães carregam os filhos. Algumas mães carregam as palavras que os filhos não conseguem dizer”, pode ler-se num vídeo partilhado no Facebook onde mostra o menino a comunicar através do teclado na pele.
Segundo Jessica, aquilo que tem no braço “não é apenas uma tatuagem, é uma ferramenta de acessibilidade”."O dispositivo gerador de voz do Hunter, o seu 'talker', deu-lhe uma voz e mudou completamente as nossas vidas. Mas mesmo esse dispositivo tem barreiras... Não podemos levá-lo para a piscina. Não podemos levá-lo para parques aquáticos. É difícil de usar durante as missas. É perturbador nos cinemas. A bateria pode esgotar-se. Pode avariar-se. Nem sempre pode ser utilizado enquanto nada, brinca, anda de baloiço ou explora o mundo como as crianças devem fazer", partilhou, sublinhando que o seu filho precisava de uma “linha aberta” à comunicação, que não acabasse.
"É um lembrete de que a comunicação é um direito humano. É uma voz de apoio. Uma ponte sobre as barreiras. Uma ferramenta que ajuda a garantir que o meu filho possa dizer ao mundo o que pensa, quer, precisa e sente… independentemente de onde a vida o levar. Porque a acessibilidade não se resume a tornar a comunicação possível apenas algumas vezes. Trata-se de torná-la possível em todos os momentos", afirma.
Depois da iniciativa da mãe, o teclado passou a ser um símbolo de ajuda para crianças no espetro do autismo: em colaboração com uma marca de roupa, Jessica criou t-shirts e mangas com teclados estampados, que não implicam a necessidade de fazer uma tatuagem, mas que ajudam de igual forma. Jessica sublinha que foi procurada por escolas, hospitais e até familiares para ajudar a comunicar com crianças autistas, que enfrentam desafios semelhantes.