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A França vai aumentar a dimensão do seu arsenal nuclear e aprofundar a sua estratégia de dissuasão, anunciou esta segunda-feira o Presidente francês durante uma visita à base militar de Île Longue, na Bretanha, onde está estacionado o submarino nuclear Le Téméraire.
“Estamos atualmente a viver um período de convulsão geopolítica carregado de riscos”, afirmou esta segunda-feira Emmanuel Macron, justificando um “endurecimento” do modelo francês de dissuasão.
Reforço do arsenal e deslocação temporária de ogivas
Macron ordenou o aumento do número de ogivas nucleares disponíveis — sem revelar números — e anunciou que França poderá deslocar temporariamente ativos estratégicos, incluindo ogivas, para fora do seu território, no âmbito de uma nova doutrina que designou como “dissuasão avançada”.
Trata-se de uma evolução significativa na postura nuclear francesa, historicamente centrada na autonomia estratégica e na decisão soberana do Presidente da República quanto ao eventual uso de armas nucleares — princípio que Macron reiterou manter-se inalterado.
Atualmente, França dispõe de cerca de 300 ogivas nucleares, sendo, a par do Reino Unido, a única potência nuclear da Europa. Ainda assim, o arsenal francês representa aproximadamente um décimo da capacidade estimada dos EUA e da Rússia.
“Esta não é uma corrida ao armamento”, assegurou Macron, mas um passo “essencial” para garantir que nenhum adversário considere possível atingir França sem sofrer consequências irreparáveis.
Cooperação com oito países europeus
A nova doutrina prevê um reforço da cooperação com aliados europeus. Segundo o Presidente francês, oito países já aceitaram integrar a iniciativa: Alemanha, Polónia, Bélgica, Dinamarca, Suécia, Países Baixos e Grécia.
Os parceiros poderão participar em exercícios de simulação nuclear e em missões de apoio com forças convencionais. Macron adiantou ainda que Paris trabalhará com Berlim e Londres no desenvolvimento de mísseis “de muito longo alcance”.
A iniciativa surge num contexto de incerteza estratégica, marcado pela guerra na Ucrânia, pela crescente assertividade militar da China e pela mudança de prioridades estratégicas dos EUA.
Polónia confirma negociações
O primeiro-ministro polaco, Donald Tusk, confirmou que Varsóvia está em negociações com França e outros aliados europeus para integrar o programa de dissuasão avançada.
“Estamos a armar-nos com os nossos amigos para que os nossos inimigos não se atrevam a atacar-nos”, escreveu Tusk na rede social X.
A possibilidade de um “guarda-chuva” nuclear francês para a Polónia já tinha sido discutida em 2025, aquando da assinatura de um tratado franco-polaco em Nancy.
Entretanto, o Presidente polaco, Karol Nawrocki, manifestou-se favorável a um eventual “projeto nuclear polaco”, sem avançar detalhes.
Europa debate reforço da dissuasão
O debate sobre a dissuasão nuclear intensificou-se na Europa à medida que se agravam as tensões com Moscovo e se prolonga a guerra na Ucrânia. Embora a maioria dos países europeus dependa historicamente do “guarda-chuva” nuclear norte-americano no âmbito da NATO, a evolução do contexto geopolítico tem levado vários Estados-membros da União Europeia a ponderar alternativas ou reforços à sua arquitetura de defesa.
Macron defendeu que a Europa deve deixar de depender exclusivamente de “regras feitas por países terceiros” e assumir maior responsabilidade pela sua própria segurança, numa estratégia que, segundo afirmou, visa dar “profundidade real à defesa do continente”.