Lindsay Clancy tem 36 anos. Está neste momento a ser julgada pela morte dos três filhos, Cora, Dawson e Callan, assassinados no dia 24 de janeiro de 2023, na casa onde residiam, em Massachusetts.
A mulher norte-americana assume a responsabilidade pelas mortes, mas a verdadeira questão está longe de ser consensual. Nas redes sociais, multiplicam-se os defensores de Lindsay e as críticas ao marido, Patrick. O motivo? São várias as teorias que têm alimentado a discussão em torno do caso.
O que aconteceu?
Cora, de cinco anos, Dawson, de três, e Callan, de apenas oito meses foram encontrados mortos pelo pai, na noite de 24 de janeiro de 2023. O alerta foi dado às 18h11, por Patrick Clancy, que descreveu que tinha encontrado a mulher gravemente ferida após esta ter saltado de uma janela do segundo andar.
O pai das crianças teria saído de casa para comprar comida e medicamentos. Quando voltou, encontrou os filhos na cave. A chamada para o 911 foi ouvida em tribunal, onde Patrick diz, em choque, que a mulher matou os seus filhos.
A polícia de Duxbury deparou-se com um cenário horrendo à chegada: Lindsay Clancy estava gravemente ferida e os três filhos estavam inconscientes na cave. Embora não tenham morrido no local, Cora e Dawson acabaram por morrer pouco depois, já no hospital, enquanto Callan, o bebé de apenas oito meses, morreu alguns dias mais tarde.
A causa da morte foi apontada como estrangulamento.
Lindsay Clancy tinha alegadamente tentado tirar a própria vida após o crime. A queda do segundo andar deixou-a paralisada e está sob cuidados psiquiátricos desde então.
Em tribunal, está acusada de três homicídios e três estrangulamentos.
O que diz a defesa?
A defesa de Lindsay não nega que tenha sido ela a matar os filhos - alegam apenas que a mulher não pode ser considerada criminalmente responsável porque estaria a sofrer de uma doença mental grave, apontando mesmo psicose pós-parto.
O que é a psicose pós parto?
É uma doença psiquiátrica grave e rara que afeta cerca de 1 a 2 mulheres em cada mil partos. Causa uma perda total do contacto com a realidade logo após o nascimento do bebé.
Pode ser causada por alguma perturbação bipolar, privação extrema de sono e, no caso de Lindsay, por problemas relacionados com medicação psiquiátrica que estava a tomar.
A defesa sustenta que Lindsay afirma ter “ouvido uma voz” que ordenava que matasse os filhos para depois se suicidar. Este estado será “psicótico”, de acordo com Philip Resnick, um dos psiquiatras chamados pela defesa, o que implica que Lindsay não conseguisse controlar adequadamente os seus atos.
Os pedidos de ajuda
Este tem sido um dos argumentos mais fortes da defesa: Lindsay Clancy terá pedido ajuda no acompanhamento psiquiátrico, tendo chegado a admitir pensamentos sobre fazer mal aos filhos. Isto significa que os problemas de saúde mental que a perturbavam não começaram naquela noite.
Familiares e pessoas próximas da acusada testemunharam ainda que assistiram à deterioração do estado mental de Lindsay nos meses anteriores aos homicídios.
A sua mãe, Paula Musgrove, testemunhou sobre o estado psicológico da filha, afirmando que esta se queixava muito sobre os efeitos da medicação, descrevendo-os como estarem a “destruir” a sua mente.
Também a sogra, mãe de Patrick, Susan Clancy, testemunhou que Lindsay já tinha pedido ajuda várias vezes antes da tragédia, descrevendo-a, apesar de tudo, como ma "mãe carinhosa".
A defesa apresentou ainda ao júri diários escritos por Lindsay, onde esta descrevia os sintomas dos medicamentos, as alterações de humor e privação de sono e os pensamentos perturbadores qu costumava ter.
Lindsay esteve internada antes da tragédia
Mas Lindsay chegou a ser, de facto, internada. Pouco tempo antes das mortes dos filhos, no final de 2022, a mulher esteve numa unidade psiquiátrica permanente. Mesmo depois de ter tido alta, voltou a procurar ajuda.
19 dias depois, terá matado os três filhos.
A família de Lindsay chegou a processar profissionais e instituições responsáveis pelo acompanhamento médico da mulher, alegando falhas no diagnóstico e tratamento.
O que diz a acusação?
A história é muito diferente no que toca à acusação. De acordo com os procuradores, Lindsay não estava num estado psicótico aquando do crime, alegando que tinha consciência sobre o que estava a fazer.
Sustentam, assim, que os homicídios foram deliberados e planeados, apontando vários comportamentos que, na sua perspetiva, demonstram premeditação. Um dos principais argumentos prende-se com o facto de Lindsay ter pedido ao marido que saísse de casa pouco antes de matar os filhos, ficando sozinha com as crianças.
Especialistas chamados pela acusação rejeitam também a existência de psicose pós-parto, contrariando a defesa.
O que está em causa no julgamento?
O julgamento procura mais do que apenas determinar se Lindsay matou os três filhos: procura sim saber se, devido à saúde mental deteriorada, Lindsay deve ser considerada criminalmente responsável pelos homicídios.
Em Massachusetts, onde decorre o julgamento desde o final de julho, um indivíduo não pode ser criminalmente responsável se uma doença mental o impedir de compreender a natureza do ato ou de distinguir o certo do errado.
Quando termina o julgamento?
Depois de quase um mês de testemunhos, a defesa terminou a apresentação das suas provas na passada sexta-feira, dia 21 de agosto. A acusação começou depois a apresentar testemunhas para contestar os argumentos apresentados pela defesa.
Esta segunda-feira, 24 de agosto, o julgamento ficou marcado por um momento de tensão depois de Kirk Heilbrun, um psicólogo que a analisou, ter feito referências à religião e à fé católica de Lindsay durante o seu testemunho. A defesa chegou mesmo a pedir a anulação do julgamento, pedido que foi recusado pelo juíz, William Sullivan, que considerou as referências inadequadas e ordenou aos jurados que as ignorassem.
Heilbrun regressa esta terça-feira ao banco das testemunhas para continuar a ser interrogado pela defesa. Depois das últimas testemunhas, deverão seguir-se os argumentos finais e, posteriormente, a deliberação do júri.
O que pode acontecer a Lindsay Clancy?
Há dois possíveis desfechos mais prováveis.
Se o júri considerar Lindsay criminalmente responsável e culpada, poderá enfrentar prisão perpétua sem possibilidade de liberdade condicional.
Se não for considerada criminalmente responsável devido a doença mental, deverá ser internada numa instituição psiquiátrica estatal para tratamento e acompanhamento permanente.
As redes sociais escolheram um lado: e Patrick passou a ser o alvo
O julgamento de Lindsay Clancy está a acontecer no tribunal, mas está a ter repercussões maiores nas redes sociais. O caso ganhou particular relevância após várias teorias sobre a possível responsabilidade de Patrick Clancy no crime.
Em milhares de vídeos que circulam na internet, os utilizadores analisam testemunhos, provas e comportamentos do pai das crianças que alegadamente sustentam a teoria de que Patrick terá tido algum tipo de envolvimento no crime. No TikTok, já foram publicados centenas de milhares de vídeos com a hashtag #clancy.
Embora sejam apenas teorias sem quaisquer provas fundamentadas, o comportamento de Patrick no dia das mortes é questionado. Outros utilizadores responsabilizam-no pelo estado em que Lindsay se encontrava, descrevendo-o como um marido “negligente” e “manipulador”
A atenção ficou ainda mais voltada para Patrick após este ter refeito a sua vida com outra mulher poucos meses após da tragédia.
A onda de solidariedade para com Lindsay chegou à porta do tribunal, com centenas de pessoas a manifestarem apoio à mulher, vestidos de cor de rosa. Além do apoio a Lindsay, a manifestação tem o objetivo de chamar a atenção para a saúde mental materna, sobretudo durante o período pós-parto.