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É possível construirmos juntos um país onde as antigas divisões sejam superadas de uma vez por todas, onde o ódio e a violência desapareçam e onde o flagelo da corrupção seja sanado por uma nova cultura de justiça e partilha», porque «só assim será possível um futuro promissor, especialmente para os muitos jovens que perderam a esperança», disse o Papa Leão XIV na Missa em Kilamba, Angola, à qual assistiram cerca de 100 mil pessoas.
Estas declarações do Pontífice, no sétimo dos 11 dias do périplo seu périplo em África, deixam uma mensagem clara: Angola não pode continuar neste rumo se não quiser ser considerado um Estado falhado. Como escreveu Justin McLellan para o National Catholic Reporter, o Papa tocou nos temas fundamentais da sua missão no continente africano: «A desigualdade de rendimentos, a corrupção, os riscos da exploração estrangeira e o incentivo aos jovens». Em Angola, os dados justificam a preocupação do Vaticano com estes temas. Vejamos alguns:
O PIB per capita angolano registado no ano de 2024 foi de 2.100 dólares, de acordo com dados do Banco Mundial (BM). A média mundial situou-se nos 13.700 dólares no mesmo ano. A inflação rondou os 20 por cento, também segundo o BM. Isto enquanto Angola se encontra no top 30 dos países com maiores reservas de petróleo. Mais: de acordo com a Transparency International, Angola apenas consegue 32 pontos de 100 possíveis, conquistando assim o 121.º lugar num un iverso de 180 países. No que diz respeito à desigualdade de rendimentos, que é medida pelo coeficiente de Gini – no qual 0 é igualdade perfeita e 1 a desigualdade máxima –, os dados também não jogam a favor de João Lourenço. Angola, com um coeficiente de Gini de 0,51 (World Population Review, 2026), é o oitavo no ranking de países com maior desigualdade.
E os indicadores sobre a liberdade são igualmente, se não ainda mais, preocupantes. O estudo conduzido pela Freedom House atribui a Angola apenas 28 pontos em 100 possíveis que culminam no rótulo ‘Not Free’. No relatório sobre o país, a organização escreve que «Angola é governada pelo mesmo partido desde a independência, e as autoridades têm reprimido sistematicamente a dissidência política. A corrupção, as violações do devido processo legal e os abusos por parte de forças de segurança continuam a ser comuns». «Algumas restrições à imprensa e à sociedade civil foram atenuadas após a tomada de posse de João Lourenço em 2017», concede a Freedom House, «mas essa abertura parcial foi praticamente revertida».
E se a diplomacia, com a sua tirania do cerimonial, pode ser, por vezes, um espartilho para líderes políticos, este não foi um desses casos. O Papa não poupou o regime angolano no encontro com o seu líder: «Quanto sofrimento, quantas mortes, quantos desastres sociais e ambientais são causados por esta lógica do extrativismo!», começou por dizer Leão XIV. «A todos os níveis», continuou, «vemos como ela sustenta um modelo de desenvolvimento que discrimina e exclui, enquanto se arroga o direito de se impor como a única opção viável».
Mas as duras críticas do Papa não ficaram circunscritas à economia, e disse também que Angola é um país marcado por divisões incitadas «pela arrogância de alguns» e que os problemas profundos do país são filhos «não só da exploração material, mas também da presunção de impor uma ideia aos outros». «Não reprimam as ideias dos jovens», exortou ainda o líder da Igreja Católica.
Num momento em que o Papa tem estado nos holofotes devido à polémica em que se viu envolvido após as declarações do Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, Leão XIV foi a África para sair em defesa das pessoas e contra os regimes que tomaram conta dos seus destinos no continente. E isso, hoje, não é coisa pouca.