Justiça investiga série de suicídios e tentativas de suicídio em serviços do Governo francês

Uma sucessão de quatro casos registados em apenas sete meses levou as autoridades francesas a abrir uma investigação para apurar suspeitas de assédio moral e problemas de gestão na administração do primeiro-ministro, Sébastien Lecornu.
Justiça investiga série de suicídios e tentativas de suicídio em serviços do Governo francês

O processo teve início em junho, após um funcionário recorrer ao mecanismo previsto no Código Penal francês que permite comunicar ao Ministério Público a suspeita da prática de um crime. Dias depois, uma trabalhadora apresentou igualmente uma queixa, reforçando a investigação em curso.

Funcionária relata isolamento e tentativa de suicídio

Segundo a rádio pública France Inter, uma funcionária, identificada com o nome fictício de Laura para preservar o anonimato, tentou pôr termo à vida em abril, numa estação ferroviária, tendo sido impedida por outro passageiro.

Dias depois, acabou por ser hospitalizada devido ao risco de suicídio.

A trabalhadora tinha sido alvo de um processo disciplinar por ter inscrito um colega em plataformas de comércio eletrónico com referências insultuosas. Pediu desculpa pela situação e, de acordo com o médico do trabalho, o comportamento estava relacionado com o sofrimento psicológico associado ao contexto profissional.

A advogada da funcionária, Christelle Mazza, afirmou que o problema se prolongava há cerca de 16 meses.

Segundo a jurista, a cliente, com mais de três décadas de serviço na administração pública, foi sendo afastada das suas funções. "Invisibilizada", deixou de ser chamada para reuniões e passou a trabalhar isolada num gabinete localizado na cave do edifício.

Quatro casos em apenas sete meses

De acordo com a France Inter, este não terá sido um caso isolado.

Nos últimos sete meses registaram-se dois suicídios e duas tentativas de suicídio entre funcionários da mesma administração.

Em outubro de 2025, um trabalhador da Direção de Informação Legal e Administrativa feriu-se gravemente no pescoço com uma lâmina. Uma investigação externa concluiu, na altura, que não existiam riscos psicossociais naquele serviço.

Já em março deste ano, um funcionário suicidou-se na própria residência, onde se encontrava em teletrabalho, depois de uma reunião descrita como particularmente tensa com o superior hierárquico, relacionada com o desaparecimento de várias garrafas miniatura de bebidas alcoólicas. Um documento interno, citado pela France Inter, refere que o episódio ocorreu "num contexto de disfunções de gestão".

Poucos dias depois, outro trabalhador, de 59 anos, também pôs termo à vida ao lançar-se para a frente de um comboio. Segundo a mesma fonte, existia um "contexto de sofrimento no trabalho identificado", tendo o funcionário deixado uma mensagem a anunciar a intenção de suicídio.

Governo garante prioridade à prevenção

Perante os casos, o gabinete de Sébastien Lecornu assegurou que "a prevenção dos riscos psicossociais é uma prioridade" nos serviços sob a sua tutela.

A France Inter refere ainda que representantes dos trabalhadores associam o agravamento do ambiente laboral à instabilidade política vivida em França, que teve quatro primeiros-ministros em apenas dois anos. Segundo os sindicatos, as sucessivas mudanças na liderança contribuíram para aumentar a pressão e a instabilidade em alguns serviços da administração pública.