quarta-feira, 09 set. 2026

Jason Arday. De inspiração a controversia

1985-2026. Professor de sociologia da educação na Universidade de Cambridge
Jason Arday. De inspiração a controversia

Foi visto, durante anos, como um exemplo de luta, resiliência e superação. Contava que tinha sido diagnosticado com autismo aos três anos, atraso global do desenvolvimento e dislexia, e que só tinha aprendido a ler e a escrever depois de atingir a maioridade. Filho de emigrantes do Gana, em 2023 tornou-se, aos 37 anos, o mais jovem professor negro da história da Universidade de Cambridge. Durante esse tempo, falou sobre racismo em Cambridge, sobre a dificuldade de alguém neurodivergente navegar numa instituição como essa, da necessidade de uma maior inclusão na academia. «As pessoas devem poder ser quem são, sem mudar [...]. É muito triste a assimilação forçada das pessoas para se adaptarem a formas de pensar e de ser», disse numa entrevista ao The Cambridge Student, em dezembro de 2023.

O seu perfil parecia quase bom de mais para acreditar. Contava que tinha jogado nas camadas jovens do Crystal Palace e pontificado entre a elite do bilhar. Ao News24, em 2010, contou que tinha feito 30 maratonas em 35 dias para angariar dinheiro para instituições de caridade. «Aos 25 anos, corri 30 maratonas em 35 dias para angariar fundos para um abrigo para sem-abrigo e uma casa para crianças», afirmou, acrescentando que, um ano depois, completou o seu segundo mestrado enquanto corria 300 milhas (cerca de 482 km) numa passadeira. Tudo pela caridade. «Aos 30 anos já tinha obtido o meu doutoramento e angariado um milhão de libras para doar», alegou. Além disso, dizia ter sobrevivido a uma série de doenças terríveis.

Mas a poucas semanas do lançamento da sua autobiografia – intitulada Great and Unfortunate Things, cuja publicação estava agendada para 27 de agosto –, começaram a surgir dúvidas sobre o seu mérito académico e sobre a sua verdadeira história.

Depois da violenta polémica que chegou a várias partes do mundo, apresentou a sua demissão em Cambridge. E a tragédia ficou consumada na passada sexta-feira, quando as autoridades confirmaram o óbito do docente de 41 anos, na sua casa em Londres. Em comunicado, a Polícia Metropolitana de Londres adiantou que a morte está a ser «tratada como inesperada», descartando para já a existência de circunstâncias suspeitas ou indícios de crime. É quase certo que tenha sido o próprio a pôr termo à sua vida.

Acusado de plágio

No dia 21 de julho, o académico Nathan Cofnas – afastado de Cambridge em 2024 depois de ter dito que num sistema verdadeiramente meritocrático as pessoas negras «desapareceriam de quase todos os cargos de destaque fora do desporto e do entretenimento» e que o número de «professores negros em Harvard seria de aproximadamente zero» – acusou Arday de plagiar várias publicações sem as citar no seu trabalho académico. Dias depois, o verniz estalou quando o jornal The Telegraph publicou um artigo, reproduzindo a investigação de Cofnas, onde avançou que mais de 100 excertos da tese de doutoramento do professor são altamente semelhantes a excertos de uma outra tese de uma estudante da Universidade de Brunel, em Londres, chamada Zwozdiak-Myers, que foi publicada seis anos antes. A tese do professor cita 17 vezes o trabalho da estudante, mas de acordo com a análise do jornal britânico, há várias passagens «copiadas» e não atribuídas a Zwozdiak-Myers.

Recorde-se que, em setembro de 2025, o jornalista Jack Grove, do Times Higher Education, estava a preparar uma investigação sobre o professor. De acordo com a Retraction Watch, a investigação incluía precisamente alegações de plágio na tese de doutoramento e em artigos científicos posteriores. Porém, depois de Ardy ter contratado advogados, o jornal acabou por desistir de publicar a investigação.

No princípio, Cambridge ficou do lado do docente, chegando a afirmar que Arday estava a ser alvo de uma perseguição racista. Num comunicado da instituição lia-se: «O professor Arday foi vítima de uma campanha vil para minar a sua credibilidade. Alegações de plágio na sua tese e publicações científicas foram investigadas pelas instituições e revistas em causa e o professor foi ilibado de qualquer má conduta académica». A Universidade John Moores, de Liverpool, tinha a mesma posição. No entanto, no princípio de agosto, Cambridge lançou uma investigação interna, já que a polémica deixou de ser apenas sobre se a sua tese tinha passagens semelhantes a outra tese.

Segundo o The Guardian, depois do artigo de Nathan Cofnas e do The Telegraph, outras questões foram levantadas: a origem e rigor da informação utilizada nos artigos, o currículo académico (alegava ter sido professor visitante nas universidades de Glasgow e de Ohio State, que o desmentiram publicamente) e outros elementos da sua biografia relacionados, em particular, com o dinheiro angariado para caridade. Ou seja, a única parte verdadeira da história que parecia poder ser confirmada era a sua descendência de emigrantes ganeses.

Ainda assim, Jason Arday manteve sempre que as acusações não tinham fundamento. Quando se demitiu do cargo de professor de Sociologia da Educação, salvaguardou que a sua saída não deveria «ser interpretada como uma aceitação das narrativas que me têm rodeado». Já a família, citada pela Associated Press, lamenta que a «campanha de desinformação» e de «abuso contínuo (...) por parte de pessoas que não pouparam esforços na sua tentativa de o desacreditar» tenha sido «demasiado para Jason».