segunda-feira, 14 set. 2026

Itália recusa ultimato de Espanha e mantém controlos fronteiriços até 15 de agosto

Roma rejeita o pedido de Madrid para levantar os controlos nas fronteiras a passageiros provenientes de Espanha, depois da entrada de 72 mil migrantes em Ceuta. Governo de Giorgia Meloni diz que não aceita “ultimatos” em matéria de segurança nacional
Itália recusa ultimato de Espanha e mantém controlos fronteiriços até 15 de agosto

Itália vai manter, pelo menos até 15 de agosto, os controlos fronteiriços a viajantes provenientes de Espanha, apesar do ultimato lançado pelo Governo de Pedro Sánchez, que ameaçou adotar “medidas proporcionais” caso Roma não levante as restrições até ao final de domingo.

A decisão foi confirmada esta sexta-feira pelo Governo italiano, horas depois de Madrid ter exigido o fim dos controlos e acusado Roma de adotar uma medida unilateral e discriminatória.

“Itália não aceita ultimatos nem imposições do estrangeiro no que diz respeito à segurança nacional e ao controlo das fronteiras”, afirmou o Governo de Giorgia Meloni, num comunicado divulgado pelo Palácio Chigi.

Roma decidiu manter a suspensão da aplicação do Acordo de Schengen a cidadãos de países terceiros provenientes de Espanha “pelo menos até 15 de agosto” e, em qualquer caso, até considerar totalmente afastados os riscos de segurança e terrorismo.

Itália teme nova vaga migratória em Ceuta

O Governo italiano justifica a manutenção dos controlos com a possibilidade de uma nova chegada em massa de migrantes a Ceuta, enclave espanhol no norte de África.

A decisão surge depois de cerca de 72 mil pessoas terem entrado em Ceuta num período de 24 horas, na sequência da crise migratória registada na semana passada.

Roma considera que a situação poderá representar riscos de segurança e pretende aguardar até 15 de agosto, data em que, segundo as próprias autoridades espanholas citadas pelo executivo italiano, poderá ocorrer uma nova vaga migratória.

“Só quando houver a certeza de que não haverá riscos de segurança e de terrorismo para a Itália, de que não haverá uma nova onda e de que não haverá migrantes em situação irregular a dirigir-se para o território europeu, é que se poderá rever o que já foi decidido”, afirmou o Governo de Meloni.

Os controlos foram introduzidos a 1 de agosto, nos portos e aeroportos italianos, para passageiros provenientes de Espanha que não apresentem documentação de um Estado-membro da União Europeia.

Roma garante, contudo, que as autoridades fronteiriças procurarão assegurar a máxima facilidade de circulação aos cidadãos espanhóis e europeus, que não são abrangidos pelas novas restrições.

Espanha ameaça com “medidas proporcionais”

O Governo espanhol tinha exigido esta sexta-feira a Itália que terminasse os controlos e tratasse os cidadãos espanhóis “como os restantes cidadãos europeus”.

“Caso não o faça até ao final do domingo, 09 de agosto, Espanha ver-se-á obrigada a adotar medidas proporcionais para proteger os interesses e a dignidade dos seus cidadãos”, avisou Madrid.

O executivo de Pedro Sánchez considera que a decisão italiana não tem precedentes “na história recente” e foi tomada “sem aviso prévio, de forma unilateral”.

Espanha rejeita ainda os argumentos apresentados por Roma, considerando que não estão em conformidade com o Código de Fronteiras Schengen.

Madrid salienta que os migrantes que entraram irregularmente em Ceuta não têm livre acesso ao Espaço Schengen e que “a quase totalidade” já regressou a Marrocos.

Madrid acusa Itália de duplicar entradas irregulares

O Governo espanhol recordou também que Itália é, segundo os dados que cita, o Estado-membro da União Europeia com mais entradas irregulares nos últimos anos, com números que chegaram a duplicar os registados em Espanha.

Madrid sublinha que, apesar disso, Espanha nunca impôs controlos fronteiriços específicos a viajantes provenientes de Itália.

O executivo espanhol recordou ainda que acolheu parte dos migrantes que chegaram a Lampedusa em 2023 e que abriu os seus portos a migrantes resgatados na rota do Mediterrâneo Central.

Por isso, considera que a medida italiana é “contrária aos interesses da União Europeia” e “discriminatória” para os cidadãos espanhóis.

“Os governos existem para promover o entendimento entre os países e o interesse geral das suas populações, e não para criar divisões e conflitos infrutíferos motivados por interesses eleitorais internos”, defendeu Madrid.

Roma diz estar disponível para dialogar

Apesar da recusa em levantar os controlos, o Governo italiano deixou aberta a porta ao diálogo com Espanha.

Roma afirmou que está disponível para retomar um “diálogo construtivo” caso deixem de existir os riscos que justificaram a adoção das medidas.

O conflito entre os dois países coloca assim sob pressão a livre circulação no Espaço Schengen numa altura de forte movimento de passageiros devido à época de verão.

Espanha espera que “o europeísmo, o senso comum e a boa fé se imponham” e que Itália recue na decisão.

A crise migratória em Ceuta acabou, desta forma, por provocar uma nova tensão entre dois Estados-membros da União Europeia, com Madrid a exigir o fim imediato dos controlos e Roma a insistir que a segurança nacional é prioritária.