sexta-feira, 15 mai. 2026

Irão. Um cessar-fogo frágil

Mais de um mês após as primeiras bombas terem caído em Teerão, parecia que o resultado do mais recente ultimato americano ao Irão seria um passo importante rumo à paz. O cessar-fogo foi anunciado por Trump, mas o Irão voltou a bloquear Ormuz devido aos ataques israelitas no Líbano. As negociações continuam, tal como a incerteza.
Irão. Um cessar-fogo frágil

A Guerra no Irão é, naturalmente, o tema que tem ocupado uma boa parte das páginas de jornal um pouco por todo o mundo. No final de contas, não se trata de uma guerra meramente regional e ali, no Golfo Pérsico, muita coisa está em jogo. Seja a projeção de poder americano no exterior, sejam os interesses de Israel, seja o futuro do regime opressor da República Islâmica do Irão, seja a economia e as cadeias de abastecimento globais, o que está em causa é o reordenamento de forças numa região, em particular, e no mundo, no geral.

Já se passou mais de um mês desde os primeiros ataques israelo-americanos a Teerão, mas o conflito não está perto de resolvido. E esta última semana deixa isso claro. Como já é amplamente conhecido, o Irão tem na sua mão uma arma poderosa – o Estreito de Ormuz – que tem funcionado como garante do regime e que tem perturbado com alguma severidade os mercados internacionais, particularmente o do setor da energia. Por isso, este ponto de estrangulamento transformou-se num dos pontos centrais do conflito e tem sido o alvo dos ultimatos apresentados por Washington a Teerão.

A credibilidade destes ultimatos do Presidente americano, Donald Trump, tem sido diminuída porque os prazos acabaram por se alargar. Mas a linguagem de Trump neste último foi diferente. Numa mensagem publicada na rede social Truth no passado dia 7, o líder da Casa Branca subiu a fasquia: «Uma civilização inteira morrerá esta noite e nunca mais será trazida de volta à vida. Não quero que isso aconteça, mas provavelmente acontecerá». Os alarmes soaram e as contagens decrescentes para o fim do ultimato começaram.

O cessar-fogo

Durante este período de tensão, as negociações, ao que tudo indica, seguiram a um ritmo acelerado, com o Paquistão a desempenhar um papel importante de mediação. E, quando o tempo do ultimato acabou por finalmente se esgotar, Donald Trump não anunciou o intensificar dos bombardeamentos, como havia ameaçado, mas sim um cessar-fogo. Escreveu Trump, num comunicado oficial: «Com base nas conversas com o primeiro-ministro Shehbaz Sharif e o marechal de campo Asim Munir, do Paquistão, nas quais solicitaram que eu suspendesse a força destrutiva que seria enviada esta noite para o Irão, e desde que a República Islâmica do Irão concorde com a abertura completa, imediata e segura do Estreito de Ormuz, concordo em suspender o bombardeamento e o ataque ao Irão por um período de duas semanas. Este será um cessar-fogo recíproco! [...] Recebemos uma proposta de 10 pontos do Irão e acreditamos que constitui uma base viável para negociar. Quase todos os vários pontos de discórdia do passado foram acordados entre os Estados Unidos e o Irão, mas um período de duas semanas permitirá que o acordo seja finalizado e consumado».

Ora, esta declaração abriu uma fenda de esperança para a resolução do conflito. Mas não foi bem assim. Na última quarta-feira, o Jerusalem Post reportou que a «situação no Estreito de Ormuz permanece incerta, após os meios de comunicação iranianos terem divulgado notícias contraditórias sobre se os petroleiros estavam ou não a ser autorizados a transitar pela via navegável na quarta-feira. De acordo com a Press TV, canal estatal iraniano, o estreito foi totalmente encerrado e todos os petroleiros que tentaram passar foram obrigados a dar meia-volta». O regime iraniano alegou que este retrocesso se deveu à continuação dos ataques israelitas contra o Líbano, algo que Teerão considera uma quebra do acordo de cessar-fogo.

A questão do plano de dez pontos apresentado pelo Irão é também ela incerta, uma vez que conta com vários pontos que parecem inaceitáveis para os Estados Unidos. De acordo com a agência de notícias estatal iraniana, citada pelo jornal britânico The Guardian, entre os dez pontos encontram-se exigências como «o levantamento de todas as sanções primárias e secundárias contra o Irão», «a manutenção do controlo iraniano sobre o estreito de Ormuz», «a retirada militar dos EUA do Médio Oriente», «o fim dos ataques contra o Irão e os seus aliados», «a libertação dos ativos iranianos congelados» e ainda «uma resolução do Conselho de Segurança da ONU que torne qualquer acordo vinculativo». 

Perspetivas de futuro

Estes constrangimentos levaram Donald Trump a dizer que as forças americanas continuarão ativas até que seja atingido um acordo e que, se isso não acontecer – algo que o Presidente norte-americano disse que é «altamente improvável» – «começam os tiros». «Todos os navios, aeronaves e pessoal militar dos EUA, juntamente com munições, armamento e tudo o mais que seja adequado e necessário para a perseguição letal e a destruição de um inimigo já substancialmente enfraquecido», escreveu Trump na sua conta da rede social Truth, «permanecerão posicionados no Irão e nas suas imediações até que o VERDADEIRO ACORDO alcançado seja integralmente cumprido. Se, por qualquer motivo, tal não acontecer, o que é altamente improvável, então ‘começam os tiros’, maiores, melhores e mais fortes do que qualquer um jamais tenha visto antes».

Tudo isto é revelador de que, como tem sido escrito ao longo das últimas semanas nestas páginas, a única certeza que prevalece é a incerteza.

goncalo.nabeiro@nascerdosol.pt