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As bombas continuam a cair no Golfo Pérsico. Uma região marcada por conflitos mais ou menos constantes voltou a ser o centro das atenções da comunidade internacional. Atenções que se tornaram redobradas desde que os Estados Unidos, através de uma operação conjunta com Israel, decidiram bombardear o Irão e eliminar Líder Supremo Ali Khamenei. Cerca de duas semanas após o primeiro ataque, assistimos à continuação do esforço americano-israelita e à retaliação da República Islâmica que, sem líder, tem tentando manter-se de pé. Os vizinhos da região foram visados pela resposta de Teerão e as consequências já se fazem sentir um pouco por toda a parte, incluindo na Europa.
Um dos principais problemas é, naturalmente, o petróleo. De acordo com a BBC, «desde o início do conflito, o preço do petróleo disparou e atualmente está a ser negociado a mais de um terço a mais, a 100 dólares por barril, impulsionado pelos ataques aéreos a navios e infraestruturas energéticas». Além destes ataques, há outro ponto fundamental que impacta esta variável importante da guerra e que tem sido uma das armas mais fortes de um regime iraniano visivelmente debilitado em termos militares: o estreito de Ormuz. É por lá que passa um quinto do abastecimento global de petróleo e o Irão bloqueou-o. E tudo indica que este nó não será desatado em breve.
Com a morte de Ali Khamenei, a República Islâmica do Irão encontrou-se a braços com a importante decisão de eleger um novo Líder Supremo durante uma guerra de sobrevivência. A decisão acabou por chegar alguns dias depois. «Por uma votação expressiva», comunicou a Assembleia de Peritos para a Liderança – instituição do regime iraniano criada em 1979 investida com a responsabilidade de eleger um novo líder em momentos críticos –, foi nomeado «o aiatola Seyyed Mojtaba Hosseini Khamenei como o terceiro líder do sistema sagrado da República Islâmica do Irão». Mojtaba Khamenei é o filho do aiatola falecido. Inicialmente, acreditava-se que Mojtaba estaria também entre as vítimas mortais do ataque que tirou a vida a Ali Khamenei e a outros membros da família do Líder Supremo. Mas sobreviveu. A questão que agora se levanta é sobre o seu estado de saúde, que poderá não ser o melhor. As especulações só aumentaram quando «dias após a sua nomeação, nenhuma mensagem em vídeo, declaração escrita ou fotografia recente dele foi divulgada», pode ler-se numa notícia da Euronews. O mais insólito decorreu na sua tomada de posse, onde Mojtaba Khamenei não esteve presente, tendo sido apenas «apresentado um recorte de cartão com a sua imagem», avançou a mesma fonte.
Passado quatro dias, da cerimónia pouco ortodoxa, Khamenei dirigiu-se finalmente aos iranianos através de uma mensagem transmitida pela estação de televisão detida pelo Estado iraniano. Mas não apareceu nem falou, limitou-se a escrever uma declaração que acabaria por ser lida na transmissão. «De acordo com o comunicado», escreveu a CNN World, «Khamenei soube da sua nomeação pela televisão estatal, o que sugere que ele também foi apanhado de surpresa». Tanto a retórica quanto o conteúdo da mensagem foram pouco surpreendentes, deambulando entre os elogios ao legado de Ali Khamenei e a promessa de que a República Islâmica continuará a lutar. Pouco surpreendente também foi a informação de que Teerão planeia manter bloqueado o estreito de Ormuz. Em declarações a Becky Anderson da CNN, Dina Esfandiary, responsável pela região do Médio Oriente na Bloomberg Economics, considera que «é evidente que o Irão está a mostrar que não procura um cessar-fogo ou o fim da guerra e que acredita não ter imposto um preço suficientemente alto aos EUA e aos seus aliados, e até mesmo à economia global».
Divergências internas
Naturalmente, a eleição do novo Líder Supremo da República Islâmica do Irão não está livre de polémicas e, também, de fraturas internas. E a raiz deste conflito interno pela sucessão poderá estar num acontecimento no dia 19 de maio de 2024. Ebrahim Risi, à data presidente do Irão, faleceu quando o helicóptero no qual viajava caiu nas montanhas perto da fronteira com o Azerbaijão. Tal como escreveu Parisa Hafezi na Reuters dois dias após o acidente, a morte de Risi perturbou «os planos dos linha-dura que queriam que ele sucedesse ao líder supremo aiatola Ali Khamenei». Mais: Hafezi previu que isto iria «agitar as rivalidades no seu campo sobre quem assumirá a República Islâmica quando [Khamenei] morrer». Os acontecimentos recentes vieram provar, cerca de um ano e meio depois, que a jornalista tinha razão.
Quanto à possibilidade de Mojtaba, filho de Ali Khamenei, tornar-se Líder Supremo, Parisa Hafezi também deu informações interessantes. Primeiro, que «embora o seu nome tenha sido frequentemente citado, surgiram dúvidas sobre a possível candidatura de Mojtaba, um clérigo de nível médio que ensina teologia num seminário religioso na cidade sagrada xiita de Qom». Depois, e ainda mais importante, escreveu, baseando-se numa fonte iraniana próxima do gabinete de Khamenei, que «Khamenei manifestou oposição à candidatura do seu filho porque não quer ver qualquer retrocesso para um sistema de governo hereditário num país onde a monarquia apoiada pelos EUA foi derrubada em 1979». «Uma fonte regional familiarizada com o pensamento em Teerão», continuou Hafezi, «disse que a oposição de Khamenei ao governo hereditário eliminaria tanto Mojtaba quanto Ali Khomeini, um neto do fundador da República Islâmica que mora em Najaf, no Iraque». O desejo do falecido Khamenei não foi cumprido.
Mas por quê? Güney Yildiz, a escrever para a Forbes, aponta para uma resposta possível: «A ascensão de Mojtaba não foi uma escolha teológica. Foi um facto consumado militar disfarçado de vestes clericais». E se para Yildiz não foi uma escolha teológica, também não foi um acontecimento decorrente de um mero acaso circunstancial porque, segundo o jornalista e consultor de risco político turco, Mojtaba esteve «duas décadas a preparar-se para este momento». E fê-lo de várias formas: «construiu uma estrutura de poder paralela dentro do gabinete do seu pai, controlou o acesso ao líder supremo e cultivou laços profundos com os comandantes do IRGC, que remontam ao seu serviço na adolescência no Batalhão Habib durante a Guerra Irão-Iraque. Ele eliminou sistematicamente os seus rivais – políticos, clericais e familiares». «Os guardas [da revolução] construíram o trono de Mojtaba», concluiu Yildiz, e serão também eles que «decidirão o que ele fará enquanto estiver sentado nele».
Capitalismo mau, capitalismo bom
O que fará ou não Mojtaba Khamenei será um assunto para os próximos episódios. Por enquanto, podemos ver o que tem feito até agora. E além de teólogo que ensina em Qom, importa destacar a ligação do novo Líder Supremo ao ocidente. Ligação esta que não é, de todo, modesta. Pelo contrário. E importa também olhar para algumas das raízes do regime iraniano que vigora há cerca de cinco décadas.
Quando o Xá Mohammad Reza Palavi saiu do Irão pela mão da revolução islâmica em 1979, todo um novo sistema foi idealizado e colocado em prática. A monarquia de Palavi, um dos principais aliados dos Estados Unidos e do ocidente na região do Golfo, não escondia que o seu projeto para o Irão passaria pela modernização e ocidentalização, independentemente de tentar conciliar estas últimas com um regime autoritário. O regresso de Ruhollah Khomeini, exilado em Paris até 1979, veio romper com estes princípios.
O anti-americanismo em particular e o anti-ocidentalismo no geral tornou-se, desde logo, uma das principais bandeiras da República Islâmica e o ocidente começou a ser visto com uma desconfiança quase paranoica. Como explicou o próprio numa entrevista à jornalista italiana Oriana Fallaci para o The New York Times em outubro de 1979, «quando somos mordidos por uma cobra, ficamos com medo até de um pedaço de corda que, à distância, parece uma cobra. E vocês morderam-nos demais, e por muito tempo». O muro de separação não podia ter ficado mais claro quando Khomeini diz, na mesma entrevista, que tinha «bons motivos para temer o Ocidente, para impedir que os nossos jovens se aproximem demais do Ocidente e sejam ainda mais influenciados por ele. Não, não quero que os nossos jovens vão estudar no Ocidente, onde são corrompidos pelo álcool, pela música que bloqueia o pensamento, pelas drogas e pelas mulheres sem véu». «Tememos-vos política e socialmente», continuou o primeiro Líder Supremo, e «queremos que este seja o nosso país. Não queremos que continuem a interferir na nossa política e na nossa economia, nos nossos hábitos, nos nossos assuntos. E, a partir de agora, iremos contra qualquer um que tente interferir – seja da direita ou da esquerda, daqui ou de lá. E agora já chega. Vão-se embora. Vão-se embora».
Este discurso não se esgotou, naturalmente, na figura de Khomeini. Também Khamenei, o segundo aiatola, emitiu os seus pareceres, há cerca de uma década, sobre a cultura ocidental do consumo e da extravagância: «Luxos desnecessários, cosméticos, móveis e ornamentos são coisas nas quais gastamos o nosso dinheiro. Podemos usar esse dinheiro nos setores de manufatura ou investimento e contribuir para o progresso do país. Também poderíamos usar o dinheiro para ajudar os pobres ou aumentar a nossa riqueza nacional. No entanto, gastamos esse dinheiro em coisas que compramos apenas para manter as aparências. Algumas pessoas fazem viagens ou dão festas cujo custo é superior ao de uma viagem a Meca. (…) Pessoa sensatas nunca fazem essas coisas». «Devemos reformar os nossos hábitos», concluiu, «[e] devemos reformar as normas de consumo no nosso país. Sofremos com normas de consumo inadequadas».
Eis que, no passado mês de janeiro, Ben Bartenstein, numa peça publicada pela Bloomberg intitulada «Como o Filho do Líder Supremo do Irão Construiu um Império Imobiliário Global», explica que «Mojtaba Khamenei acumulou investimentos internacionais de grande dimensão, enquanto as dificuldades económicas no país provocaram os protestos mais violentos do Irão em décadas». O relato deixa pouca margem para dúvidas: «O seu poder financeiro abrange tudo, desde o transporte marítimo no Golfo Pérsico até contas bancárias na Suíça e propriedades de luxo no Reino Unido avaliadas em mais de 100 milhões de libras (138 milhões de dólares), afirmam as pessoas, que pediram anonimato por medo de retaliação ou porque não estão autorizadas a falar publicamente. Em conjunto, a rede de empresas ajudou Khamenei a canalizar fundos – estimados em milhares de milhões de dólares – para os mercados ocidentais, apesar das sanções impostas pelos EUA em 2019». Bartenstein escreve ainda na peça que vai ao detalhe desta rede financeira que a «história da carteira de investimentos no exterior de Khamenei ilustra como a elite iraniana conseguiu transferir capital para o exterior, apesar de o país estar sujeito a um dos regimes de sanções mais severos da história nas últimas duas décadas devido ao seu programa nuclear e ao apoio a grupos armados que se opõem a Israel e à política ocidental no Médio Oriente».
Dito isto, parece que, além de fazer soar os alarmes quanto à hereditariedade do cargo de uma revolução que se fez contra um regime hereditário, Mojtaba Khamenei também rompe com estes princípios anti-ocidentais e anti-consumistas dos seus antecessores e, consequentemente da própria constituição da República Islâmica que se apresenta contra «objetivos económicos, como a centralização e a acumulação de riqueza e a busca do lucro» e que proíbe a «extravagância e do desperdício em todas as questões relacionadas com a economia».
Perspetivas de futuro
Que o regime se encontra no seu ponto mais frágil desde 1979 parece um facto que poucos se atreverão a contestar. Mas o que poucos se atreverão a fazer também é a prever, com certezas, aquilo que se pode esperar do futuro do país e qual será a reação de um regime que trava uma luta pela sobrevivência. Zeynab Malakouti, investigadora sénior no Instituto Global para a Paz e investigadora afiliada no Instituto do Médio Oriente na Universidade Nacional de Singapura, aponta, num artigo publicado pelo think-tank italiano Istituto Affari Internazionali, para dois cenários possíveis: um pessimista e um mais otimista. «O cenário pessimista», escreve Malakouti, «que muitos observadores consideram mais provável no curto prazo, envolveria a continuação e intensificação da atual postura estratégica do Irão. Nessa trajetória, o sistema político enfatizaria a resistência e o confronto ideológico após a guerra, apresentando-se internamente como firme contra o que a liderança descreve como agressão estrangeira ou imperialismo. O Irão poderia distanciar-se ainda mais da comunidade internacional, reduzir significativamente o envolvimento diplomático com os países ocidentais e adotar uma política regional e global mais confrontacional». Mais: «sofrer ataques militares diretos também poderia fortalecer o argumento dentro do establishment de segurança iraniano para acelerar as capacidades nucleares como um dissuasor estratégico. Nessas circunstâncias, a fatwa (decisão religiosa) emitida por Ali Khamenei, que declara as armas nucleares proibidas, poderia ser reinterpretada ou revista se as circunstâncias mudarem, o que significa que a proibição não é necessariamente permanente».
Por outro lado, a «trajetória alternativa e mais otimista envolveria uma mudança gradual em direção ao desenvolvimento económico e um maior envolvimento internacional, mantendo as estruturas centrais do sistema político existente». «Nesse cenário», continua a especialista, «a liderança do Irão poderia inicialmente enfatizar a continuidade, a fim de garantir a lealdade das instituições-chave – particularmente a Corpo da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC) e a base política central da República Islâmica, que muitas vezes se estima representar cerca de 15 a 20 por cento da população».
Entretanto, as bombas continuam a cair, a República Islâmica continua na sua luta pela sobrevivência e vai atacando os países vizinhos num conflito onde a incerteza é monarca.