quinta-feira, 12 fev. 2026

Irão. O custo da liberdade

Milhares de iranianos saíram às ruas para protestar não apenas contra o aumento do custo de vida, mas principalmente contra a raiz do problema: o regime opressor dos aiatolas. A República Islâmica tem respondido com violência e estima-se que nas últimas semanas milhares de manifestantes foram mortos. Donald Trump diz que a "ajuda está a caminho".
Irão. O custo da liberdade

Os iranianos saíram mais uma vez às ruas. Desta vez, com uma intensidade superior. Milhares de pessoas manifestaram a sua oposição a um regime que, desde 1979, é responsável pela repressão, perseguição e morte do seu próprio povo, particularmente das mulheres. Um modus operandi que se intensificou nas últimas semanas, com o número de mortes – ainda por apurar com exatidão – a situar-se na casa dos milhares. No terreno, o medo da brutalidade do regime não parece travar um povo que anseia pela liberdade. Na diáspora, as manifestações de apoio vão-se multiplicando e ouvem-se gritos de "Mulheres, Vida, Liberdade" e apelos de "morte ao ditador".

O primeiro slogan é particularmente importante, porque se trata de uma das principais causas dos protestos que se têm tornado constantes desde 2022 quando Mahsa Amini, de 22 anos, foi morta às mãos da polícia após ter sido detida por desrespeitar os códigos de vestuário impostos às mulheres pelo regime dos aiatolas. E se o custo de vida é claramente uma preocupação dos iranianos, que viram a inflação galopar no passado mês de dezembro, não é a principal. Como explica Natana DeLong-Bas, professora associada de Teologia e ex-presidente do Conselho Americano para o Estudo das Sociedades Islâmicas, ao Boston College News, os "protestos estão focados em "Mulheres, Vida, Liberdade", temas que estão interligados na contestação a um regime totalitário". "Um aspeto importante desses protestos", continua, "tem sido a centralidade e a visibilidade das mulheres — como vítimas e como vozes — reivindicando o direito à autonomia pessoal". Mais, os protestos dos últimos dias estão dotados de uma característica que, até agora, não fazia parte das manifestações de outros anos: "Ao contrário do passado, os protestos atuais, desde manifestações a ocupações, não têm líderes e parecem ser orgânicos e espontâneos, mas com grande impacto, visibilidade e ressonância", explica a especialista.

O regime

Em 1979, após a queda da monarquia, o exílio do Xá Reza Pahlavi, e o regresso apoteótico do aiatola Ruhollah Khomeini – até então exilado na França –, foi fundada a República Islâmica do Irão. A revolução marcou uma rotura profunda num país que deixou de ser um aliado dos Estados Unidos e do Ocidente para se transformar num dos seus grandes adversários. Em outubro desse ano, oito meses após a chegada de Khomeini a Teerão, a jornalista italiana Oriana Fallaci conseguiu uma entrevista com o líder supremo, publicada no The New York Times, que ficará para a história. A conversa permite apurar duas coisas: as bases do novo regime e a audácia de um jornalismo que parece pertencer ao passado.

Fallaci começou por mencionar as semelhanças entre fanatismo dos iranianos para com o aiatola e o fanatismo dos seguidores de Mussolini em Itália. "Não, não é fascismo nem fanatismo", respondeu Khomeini. "Eles gritam assim porque me amam, e amam-me porque sentem que me preocupo com eles, que ajo para o bem deles. Ou seja, para aplicar os mandamentos do Islão. O Islão é justiça. A ditadura é o maior pecado na religião islâmica. O fascismo e o islamismo são absolutamente incompatíveis. O fascismo surge no Ocidente, não entre pessoas de cultura islâmica". E, quando confrontado com as perseguições e execuções de opositores, Khomeini deixava claro aquela que passaria a ser a conduta normal do regime: "Compreendemos que eles estavam a aproveitar-se da nossa tolerância para nos sabotar, que não queriam liberdade, mas sim licença para subverter, e decidimos detê-los. E quando descobrimos que – instigados pelo antigo regime e por forças estrangeiras –estavam a tentar destruir-nos com outras conspirações e outros meios, calámo-los". 

Mas a entrevista aqueceu quando o tema da opressão das mulheres foi colocado em cima da mesa. O novo líder iraniano não escondeu ao que vinha, numa declaração que merece ser citada na íntegra: "As mulheres que contribuíram para a revolução eram, e são, mulheres com vestes islâmicas, não mulheres elegantes, todas maquilhadas como tu, que andam por aí sem cobrir-se, arrastando atrás de si uma fila de homens. As coquetes que se maquilham e saem à rua exibindo os seus pescoços, os seus cabelos, as suas formas, não lutaram contra o Xá. Nunca fizeram nada de bom, essas não. Não sabem ser úteis, nem socialmente, nem politicamente, nem profissionalmente. E isso porque, ao descobrirem-se, distraem os homens e perturbam-nos". Fallaci continuou a pressionar, e Khomeini atirou: "Os nossos costumes não são da tua conta. Se não gostas das vestes islâmicas, não és obrigada a usá-las. Porque as vestes islâmicas são para mulheres jovens boas e decentes". "É muito gentil da sua parte, Imã", respondeu a jornalista. "E já que diz isso", continuou, "vou tirar agora mesmo este pano medieval estúpido. Pronto. Feito". 

O poder da juventude

O grande objetivo do regime dos aiatolas passa por "arrancar como ervas daninhas que infestam um campo de trigo" tudo aquilo que traz "corrupção a um país inteiro" e que "traz o mal aos nossos jovens".

Mas se os jovens no início da década de 1980 estavam entusiasmados com a nova liderança e com o ponto final no autoritarismo do Xá, hoje a história é diferente. "O que é tão comovente nesses protestos", diz DeLong-Bas, "é o facto de tantas das vítimas — mortas, presas e detidas — serem tão jovens. As imagens dos protestos frequentemente mostram meninas e mulheres jovens, aparentemente em idade escolar ou universitária, a tirar e a queimar os seus véus e a cortar os seus cabelos, como forma de demonstrar a sua reivindicação pela autonomia pessoal". "Em vez de aceitar a impotência em favor dos poderosos", concluiu a especialista, "estes jovens estão a encontrar maneiras de fazer com que suas vozes sejam ouvidas". "A questão que permanece", acrescenta, "não é apenas se alguém está a ouvir, mas se serão oferecidas alternativas para satisfazer as reivindicações dos jovens e o desejo de participar na determinação do futuro do Irão, além de se juntar às forças existentes para policiar e denunciar os outros". 

A Casa Branca parece estar a ouvir. O Presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, apelou à continuação dos protestos, garantindo que a "ajuda está a caminho" e que "os assassinos e abusadores […] vão pagar caro". A ameaça de Trump colocou o regime em alerta e, no dia seguinte, o líder norte-americano afirmou ter-lhe sido dito que "as mortes cessaram", mas que continuaria a acompanhar de perto a situação. Do resto, da comunidade internacional choveram condenações ao regime iraniano e apelos para que fosse colocado um ponto final no massacre.

Por fim, há outro ponto que poderá ser crucial para o sucesso da oposição ao regime: a própria polícia iraniana. "Agentes da polícia! Apoiem-nos!" tem sido também um apelo dos manifestantes, que naturalmente entendem algo inerente em qualquer tirania. Como lembrou Stephen Kotkin na última edição da Foreign Affairs: "a natureza [dos regimes autoritários] apresenta sempre uma oportunidade: os seus fiéis são os seus verdadeiros inimigos internos".

Na sua letra mais curta, Crosby, Stills, Nash & Young cantavam: "Find the cost of freedom buried in the ground / Mother Earth will swallow you / lay your body down". A fatura apresentada pelo regime islâmico está a ser altíssima, mas os iranianos parecem determinados a suportá-la. "Não por Gaza, não pelo Líbano, que a minha vida seja sacrificada pelo Irão", é uma das frases marcantes entoadas pelos manifestantes. Quanto ao futuro, há algumas divisões quando se fala do regresso da monarquia. Mas, neste momento, o que une os iranianos parece ser muito mais forte que aquilo que os separa. E o que os une é a queda da teocracia islâmica.