As forças de segurança do Irão têm levado a cabo assassinatos em massa de manifestantes», escreveu a Human Rights Watch. A realidade do massacre perpetrado pelo regime dos aiatolas é cada vez mais difícil de negar, se é que essa possibilidade continua em cima da mesa.
Os protestos que começaram como uma demonstração de insatisfação face ao custo de vida - importa notar que a saúde económica do Irão não tem sido, de todo, satisfatória nos últimos anos - rapidamente alastraram e milhares de iranianos tomaram as ruas para protestar contra o que consideram ser a raiz do(s) problema(s): a República Islâmica. A indignação popular, com doses generosas de coragem à mistura, criou um vórtice que se revelou difícil de controlar pela liderança. O apogeu das tensões foi atingido no passado dia 8 de janeiro, estendendo-se para o dia seguinte, e é destas datas que nos chegam os números mais alarmantes. De acordo com a Time, «cerca de 30 mil pessoas podem ter sido mortas nas ruas do Irão apenas nos dias 8 e 9 de janeiro». A revista baseia a estimativa nas informações que obteve junto de dois altos funcionários do Ministério da Saúde do país. O grau da repressão foi tal que o regime rapidamente se deparou com outro problema: os corpos. «Tantas pessoas foram massacradas pelos serviços de segurança iranianos naquela quinta e sexta-feira», acrescenta a Time, «que a capacidade do Estado para lidar com os mortos ficou sobrecarregada». Segundo as autoridades, «os stocks de sacos para cadáveres esgotaram-se», continua, «e semi-reboques de dezoito rodas substituíram as ambulâncias».
A diferença entre esta estimativa, que coincide com outras no terreno, e os números oficiais do regime (pouco mais de três mil mortes) é abissal. O testemunho de Ahmadi (nome fictício criado pelo The Guardian para proteger a identidade do médico iraniano) e de outros profissionais de saúde demonstra precisamente isso. «Comparando o número de mortos que testemunharam com os dados de referência dos hospitais», escreve o jornal britânico, «eles estimam que esse número possa ultrapassar os 30 mil, superando em muito os números oficiais. Esta estimativa baseia-se na conclusão de que ‘as mortes oficialmente registadas relacionadas com a repressão representam provavelmente menos de 10% do número real de vítimas mortais’». E, para fazer prevalecer a narrativa oficial, a República Islâmica mergulhou o país num blackout, com o acesso à internet severamente limitado ou mesmo impossível. A Human Rights Activists News Agency (HRANA) verificou mais de 6 mil mortes e mais de 17 mil sob investigação, avança a mesma notícia do The Guardian, que aponta ainda para a projeção, realizada por médicos fora do território iraniano, de 33 mil mortos.
Condenação europeia
Tendo em conta os fatores apresentados anteriormente, o Parlamento Europeu apresentou a votação uma resolução que tem como objetivo condenar a «brutal repressão contra os manifestantes no Irão». O texto acabou por ser aprovado pela esmagadora maioria (90%) dos deputados e pode ser consultado na íntegra no página oficial do Parlamento Europeu.
Dos representantes portugueses que votaram (João Cotrim de Figueiredo, João Oliveira, Lídia Pereira e António Tânger-Corrêa não estiveram presentes na votação), apenas Catarina Martins, do BE, não votou a favor. A ex-candidata a Belém optou pela abstenção. Uma decisão que justificou, recorrendo à rede social X, da seguinte forma: «Fosse o conteúdo [do texto] o que diz o título e eu teria votado a favor. Não era. Era propaganda». Catarina Martins não especifica que passagens da resolução identifica como propaganda, mas aprofundou, por escrito os motivos da sua abstenção: mesmo identificando «corretamente» a repressão do regime iraniano, Catarina Martins julga que «a resolução proposta omite ou rejeita várias informações relevantes, como a ingerência de Israel através de agentes da Mossad», que omite também «o impacto das sanções impostas ao Irão na qualidade de vida dos seus cidadãos, que constitui uma violação do direito internacional e dos direitos humanos» e que «não se demarca das sucessivas ameaças de intervenção militar no Irão feitas pelos Estados Unidos e Israel, uma intervenção que teria consequências devastadoras na região». Por isto, continua a eurodeputada do BE, «a resolução parece querer abrir caminho e legitimar essa intervenção, o que é particularmente irresponsável no quadro das ameaças que os Estados Unidos têm feito também em relação a países da UE».
Naturalmente, o voto de Catarina Martins e de alguns dos seus colegas de bancada - o grupo parlamentar The Left assume-se como defensor dos «trabalhadores, [d]o ambiente, [d]o feminismo, [d]a paz e [d]os direitos humanos» - suscitou indignação, tendo em conta a sua incapacidade de condenar um regime como o iraniano, deslocando a mira para os Estados Unidos e para Israel. Entretanto, os iranianos, e em particular as mulheres, continuam sob o jugo da pesada bota do fundamentalismo teocrático. Uma subjugação que, mantendo-se o regime de pé, será impossível de ultrapassar.