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Já lá vão cerca de três semanas desde que os Estados Unidos e Israel lançaram um ataque conjunto contra o regime iraniano. Os ataques e contra-ataques têm sido a realidade no Médio Oriente nestes quase vinte dias e não parece possível apurar os contornos de uma solução para o cessar das hostilidades. Os esforços da parceria Washington-Telavive têm sido conduzidos na direção de eliminar o máximo de figuras de topo do regime possível. Figuras estas que, tentando resistir numa posição de evidente inferioridade militar, têm utilizado todas as armas ao seu dispor, atacando praticamente todos os países vizinhos e estrangulando o Estreito de Ormuz, um ponto estratégico global.
Este último ponto é crucial para entender os impactos do conflito. É por este estreito – a passagem marítima do Golfo Pérsico para o mar – que passa cerca de 20% de todo o petróleo e gás natural do mundo. Bloqueando-o, o Irão consegue criar uma disrupção significativa a nível global e utiliza o estreito como instrumento de pressão sobre os Estados Unidos e Israel. Assim, a guerra que começou com os ataques de 28 de fevereiro está dotada de uma dimensão que transcende a estratégia puramente militar e tem-se tornado, cada vez mais, um conflito energético.
South Pars
Neste sentido, o campo energético de South Pars tem estado no centro das atenções do conflito. A importância deste local entre o Irão e o Catar é fácil de explicar: é lá que se encontra a maior reserva de gás natural do mundo. O campo está dividido em dois, com uma parte (chamada South Pars) sob tutela do Irão e a outra (North Dome) nas mãos do Catar.
É aqui que boa parte da ação se tem desenrolado nos últimos dias. Israel lançou ataques a infraestruturas iranianas em South Pars – que é, importa notar, a principal fonte energética do território iraniano – na passada quarta-feira, marcando «uma ecalada significativa na guerra», como escreveu a jornalista Helen Regan para a CNN World. Naturalmente, o Irão reagiu atacando o North Dome. Citado pela Sky News, um porta-voz do comando conjunto do Estado-Maior do Irão disse que o ataque israelita foi um «erro grave» e alertou que, na eventualidade de South Pars voltar a ser alvo de ataques, «os próximos ataques à vossa infraestrutura energética e à dos vossos aliados não cessarão até à destruição total». «A nossa resposta será muito mais severa», continuou, «do que os ataques da noite passada». O porta-voz refere-se aos ataques do Irão a uma infraestrutura energética do Catar, ao Kuwait e à Arábia Saudita.
O Presidente norte-americano, Donald Trump, disse que não tinha conhecimentos dos planos israelitas para atacar o campo de gás iraniano e garantiu que Telavive não levará a cabo mais bombardeamentos nessa região. Porém, deixou um aviso aos responsáveis pelo regime iraniano: caso o Irão ataque as infraestruturas do Catar, os Estados Unidos vão «destruir completamente todo o campo de gás de South Pars com uma força e com um poder que o Irão nunca viu nem testemunhou antes».
O impacto no Catar
Independentemente do aviso que chegou de Washington, o Irão atacou mesmo as infraestruturas catarenses e causou «danos significativos», de acordo com Saad al Kaabi, o CEO da QatarEnergy. Citado pela Sky News, Kaabi alertou que «a reparação das infraestruturas, cuja construção custou 26 mil milhões de dólares, poderá demorar entre três e cinco anos».
Estes ataques iranianos aos vizinhos causaram alguma surpresa na comunidade muçulmana e ameaçam deixar o Irão cada vez mais isolado. «Nem nos meus piores sonhos», disse o CEO da QatarEnergy, citado pela Sky News, «poderia ter pensado que o Catar estaria envolvido num ataque destes, especialmente vindo de um irmão muçulmano no mês do Ramadão».
Apoio internacionale futuro
O apoio internacional à guerra dos EUA e de Israel no Médio Oriente é sempre uma questão importante. Uma boa parte dos aliados ocidentais tem sido cautelosa e recusa-se a apoiar o esforço de guerra do seu maior parceiro. Isto ficou evidente tanto nas declarações de vários líderes quanto nas ações no que diz respeito ao Estreito de Ormuz. Esta postura valeu-lhes a crítica de Donald Trump, que acusou a NATO de ter cometido um «erro estúpido» ao não ajudarem os Estados Unidos a controlar o estreito. Mas, e a propósito da visita da nova primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi, Trump acredita que o Japão estará a seu lado, «ao contrário da NATO».
A incerteza continua a pautar um conflito cujo fim não parece estar para breve, pelo menos tendo em conta as palavras do Secretário da Guerra (nova nomenclatura dada pela administração Trump ao Departamento da Defesa), que anunciou, ontem, que seria «o maior conjunto de ataques até à data, tal como acontecem ontem [quarta-feira]». O Pentágono pediu também mais 200 mil milhões de dólares para o esforço de guerra, que Trump considera um «preço muito baixo a pagar» pela preservação do poderio militar norte-americano. E independentemente da aparente falta de objetivos claros ou de datas bem definidas para o fim da intervenção dos EUA no Irão, Trump diz que a operação está «bem encaminhada» e deixou a garantia de que não vai «colocar tropas em lado nenhum». Apesar de todas estas variáveis apontarem para um prolongamento do conflito, o líder da Casa Branca tem tentado acalmar os receios crescentes na opinião pública: «Vai acabar muito em breve».