quinta-feira, 14 mai. 2026

Há um novo site que permite descobrir se alguém foi membro do Partido Nazi. É possível desenterrar segredos em segundos e há milhões a fazê-lo

O jornal alemão Die Zeit lançou um motor de busca que dá acesso, pela primeira vez, a milhões de fichas de filiação nazi. Desde o início de abril, a ferramenta foi consultada milhões de vezes em todo o mundo.
Há um novo site que permite descobrir se alguém foi membro do Partido Nazi. É possível desenterrar segredos em segundos e há milhões a fazê-lo

Pesquisar um nome e descobrir, em segundos, se essa pessoa foi membro do Partido Nazi. O que durante décadas exigiu um pedido formal a arquivos oficiais alemães tornou-se agora possível para qualquer pessoa com acesso à internet, graças a um motor de busca desenvolvido pelo jornal alemão Die Zeit em parceria com instituições arquivísticas na Alemanha e nos Estados Unidos.

A ferramenta cruza os dados com os chamados NSDAP-Mitgliederkartei, o arquivo de cartões de filiação do Partido Nacional-Socialista dos Trabalhadores Alemães. Entre 1925 e 1945, cerca de 10,2 milhões de alemães tornaram-se membros do partido, e cada adesão ficou documentada nesses registos. Para pesquisar, basta introduzir um nome e apelido: o sistema indica de imediato se existe correspondência na base de dados. O acesso está disponível mediante subscrição do jornal, por menos de um euro.

A utilidade da ferramenta vai muito além da curiosidade. Historiadores, jornalistas e investigadores passam a ter um instrumento ágil para verificar o passado de figuras públicas, empresários, cientistas ou militares que viveram na Alemanha durante o período nazi, sem depender da burocracia dos arquivos federais. Para o público em geral, a possibilidade de pesquisar nomes conhecidos da história europeia transforma o site numa janela inédita sobre uma das páginas mais sombrias do século XX.

A sobrevivência destes registos é, ela própria, uma história improvável. Guardados na sede do partido em Munique, os cartões estavam na iminência de ser destruídos nos últimos dias da guerra: foram dadas ordens para que fossem triturados. Quem os salvou foi Hanns Huber, diretor de uma fábrica de papel nas imediações, que intercetou os documentos e os entregou posteriormente às forças norte-americanas.

Esse gesto acabou por ter consequências históricas. Os registos tornaram-se uma peça central no processo de desnazificação da Alemanha do pós-guerra, permitindo identificar membros do partido e os cargos que ocupavam. Durante quase meio século permaneceram sob custódia americana, no Centro de Documentação de Berlim. Em 1994 foram transferidos para os Arquivos Federais Alemães, com cópias enviadas para os Arquivos Nacionais dos Estados Unidos, em Washington.

A adesão ao motor de busca foi descrita pelo próprio Die Zeit como "esmagadora". Desde o lançamento, no início de abril, a ferramenta foi consultada milhões de vezes, o que revela que a questão do passado nazi continua a mobilizar não só investigadores mas também cidadãos comuns em busca de respostas sobre figuras que marcaram a história europeia.