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Os resgates de helicóptero nas montanhas do Nepal são, na maior parte das vezes, operações que salvam vidas. A altitudes onde o oxigénio escasseia e o tempo muda sem aviso, transportar um trekker em dificuldades para Katmandu em poucas horas pode ser a diferença entre a vida e a morte. Foi precisamente essa urgência que uma rede criminosa explorou durante anos para defraudar seguradoras de todo o mundo.
O esquema não é novo. The Kathmandu Post expôs o caso pela primeira vez em 2018, o governo nepalês chegou a produzir um relatório de 700 páginas e foram anunciadas reformas. Nada aconteceu. A fraude não parou, cresceu.
Como funcionava
Os métodos eram dois. No primeiro, guias turísticos propunham aos visitantes que não queriam regressar a pé, depois de semanas de trek até ao Campo Base do Everest, uma alternativa: fingir doença e apanhar helicóptero. O guia tratava do resto.
O segundo era mais grave. A altitudes acima dos 3.000 metros, sintomas ligeiros de mal de altitude são comuns e resolvem-se, na maioria dos casos, com descanso e água. Mas guias e funcionários de hotéis foram treinados para convencer os turistas de que corriam risco de vida e que só a evacuação imediata os salvaria. Em alguns casos, comprimidos usados para prevenir o mal de altitude foram administrados em conjunto com muita água para provocar os próprios sintomas que justificariam o resgate. Noutros, bicarbonato de sódio foi misturado na comida para deixar os turistas fisicamente indispostos.
Uma vez chamado o helicóptero, começava a parte financeira. Um único voo com vários passageiros era faturado à seguradora de cada um como se cada turista tivesse tido o seu próprio resgate dedicado. Um voo fretado de 4.000 dólares transformava-se num pedido de 12.000 dólares. Manifestos de voo eram falsificados. Nos hospitais, relatórios clínicos eram assinados por médicos que nunca tinham visto os pacientes. As imagens de videovigilância recolhidas pelas autoridades mostram turistas dados como em estado crítico a beber cerveja numa cafetaria, nas mesmas horas em que os registos clínicos indicavam que estavam a receber tratamento.
Os hospitais pagavam entre 20 e 25 por cento do valor recebido das seguradoras às agências de turismo de montanha, e outros 20 a 25 por cento aos operadores de helicópteros, em troca do envio de "pacientes".
Os números
Entre 2022 e 2025, as autoridades nepalesas identificaram 4.782 pacientes estrangeiros nos hospitais implicados. Destes, 171 casos foram confirmados como resgates falsos. Só um dos hospitais investigados recebeu depósitos superiores a 15 milhões de dólares ligados ao esquema. Num caso extremo, quatro turistas foram resgatados no mesmo voo, na mesma data, com o mesmo helicóptero, e os pedidos de indemnização foram mesmo assim submetidos como resgates separados, com uma fatura total de mais de 43.000 dólares.
Nem todos os estrangeiros eram vítimas inocentes. Uma troca de mensagens no WhatsApp recuperada durante a investigação mostra uma turista alemã a reclamar que lhe tinham cobrado em duplicado, e o responsável por uma das empresas a reconhecer o erro e a oferecer reembolso, confirmando que os valores tinham sido deliberadamente inflacionados.
A punição que nunca chegou
As reformas anunciadas após 2018 foram bem intencionadas mas nunca aplicadas. "O esquema continuou devido à falta de punição efectiva. Quando não há acção contra o crime, ele prospera", afirmou o responsável máximo pelas investigações em declarações recentes.
A 12 de março de 2026, as autoridades nepalesas acusaram formalmente 32 pessoas por crime organizado, entre operadores de helicópteros, médicos e administradores hospitalares. Nove foram detidas. Se desta vez haverá consequências reais dependerá dos tribunais e da vontade do novo governo nepalês empossado esta semana.