terça-feira, 18 ago. 2026

Guerras e El Niño vão fazer subir preços dos alimentos até ao final do ano

A FAO alerta que o mundo está à beira de uma nova vaga de inflação alimentar. A combinação das guerras no Médio Oriente e na Ucrânia, da subida dos custos da energia e dos fertilizantes e do impacto do El Niño deverá fazer disparar os preços dos alimentos até ao final de 2026
Guerras e El Niño vão fazer subir preços dos alimentos até ao final do ano

As guerras, o aumento dos custos da energia e o fenómeno climático El Niño estão a criar uma "tempestade perfeita" que poderá desencadear uma nova vaga de inflação alimentar a nível mundial. O alerta é do economista-chefe da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO), Máximo Torero, que antecipa uma subida dos preços dos alimentos já nos próximos meses.

Em entrevista à agência Reuters, o responsável explica que, apesar de os preços de matérias-primas como trigo, milho e arroz já terem registado aumentos este ano, o impacto ainda não chegou plenamente ao consumidor final devido ao desfasamento entre os mercados agrícolas e o retalho.

"Prevejo que os preços das matérias-primas comecem a subir mais a partir de agora e que os preços dos alimentos comecem a subir até ao final do ano. No próximo ano, sem dúvida, subirão ainda mais", afirmou Máximo Torero.

Segundo o economista da FAO, a transmissão dos custos das matérias-primas para os preços pagos pelos consumidores demora, normalmente, entre três e seis meses, o que significa que os efeitos deverão tornar-se mais visíveis até ao final de 2026.

Petróleo, fertilizantes e guerra pressionam agricultura

A escalada dos preços do petróleo Brent e as perturbações no fornecimento de gás natural e fertilizantes estão a aumentar significativamente os custos da produção agrícola.

O Estreito de Ormuz continua a ser um ponto crítico para o abastecimento energético mundial, enquanto os ataques às infraestruturas energéticas relacionados com a guerra na Ucrânia reduzem a disponibilidade de gasóleo e gás natural, dois elementos essenciais para o setor agrícola.

O petróleo influencia praticamente todas as fases da cadeia alimentar, desde a bombagem da água à embalagem, transformação e transporte dos alimentos. Já o gás natural é indispensável para a produção de fertilizantes.

Agricultores reduzem plantações

A pressão sobre os custos já está a alterar as decisões dos produtores em vários continentes.

Segundo Torero, agricultores da Europa, Estados Unidos, Brasil e Ásia enfrentam margens cada vez mais reduzidas, levando muitos a diminuir as áreas de cultivo ou a optar por culturas menos exigentes em fertilizantes.

Na Austrália, um dos maiores exportadores agrícolas do mundo, as previsões apontam para uma quebra de 21% na produção das culturas de inverno, precisamente devido ao aumento dos custos dos combustíveis e dos fertilizantes.

Nos Estados Unidos, algumas explorações agrícolas trocaram milho e trigo por soja, cultura que necessita de menos fertilizantes.

El Niño poderá agravar crise alimentar

Outro dos fatores de preocupação é a intensidade prevista para o fenómeno climático El Niño.

A FAO alerta que alterações significativas nos padrões de precipitação poderão reduzir a produtividade agrícola em várias regiões do mundo. A Índia já enfrenta um atraso nas monções, situação que poderá afetar a produção de arroz e pressionar ainda mais os preços internacionais.

Segundo Máximo Torero, caso estas previsões se confirmem, dezenas de milhões de pessoas poderão enfrentar situações de insegurança alimentar aguda.

Apesar de alguns países mais desenvolvidos conseguirem amortecer parte destes aumentos através de apoios internos, o economista sublinha que os mercados agrícolas são globais, pelo que a pressão sobre os preços acabará por ser sentida à escala mundial.

"As margens reduzidas estão a exercer pressão sobre as decisões relativas às plantações", concluiu o economista-chefe da FAO, alertando que o impacto desta nova vaga de custos deverá prolongar-se ao longo de 2027.