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Um mês depois do ataque norte-americano e israelita ao Irão, o Médio Oriente vive o conflito mais grave da sua história recente: 16 países afetados de forma direta, o Estreito de Ormuz paralisado e o barril de petróleo a negociar acima de 106 dólares.
As tentativas diplomáticas multiplicam-se, mas esbarram numa equação complicada: Washington quer um acordo, Israel quer continuar a combater e Teerão diz que não negocia com quem o está a bombardear.
Ainda assim, O ministro dos Negócios Estrangeiros do Paquistão, Ishaq Dar, anunciou este domingo que Islamabade vai acolher em breve conversas entre os EUA e o Irão.
"O Paquistão está muito satisfeito por tanto o Irão como os Estados Unidos terem manifestado a sua confiança na mediação do Paquistão", afirmou o ministro num discurso após uma reunião em Islamabade, citado pela agência Associated Press (AP).
Ishaq afirmou que os ministros dos Negócios Estrangeiros da Turquia, do Egito e da Arábia Saudita apoiaram os esforços de paz do Paquistão e que espera que se voltem a reunir na segunda-feira.
O ministro dos Negócios Estrangeiros do Egito, Badr Abdelatty, afirmou que as reuniões têm como objetivo estabelecer um "diálogo direto" entre os EUA e o Irão, países que têm comunicado, em grande parte, através de mediadores.
O Governo paquistanês afirmou-se como um facilitador essencial aos dois países, permitindo a troca de mensagens, numa altura em que a guerra, conduzida por Washington e Israel, entrou no seu segundo mês.
Teerão nega a existência de quaisquer negociações oficiais com Washington, mas transmitiu uma resposta ao plano em 15 pontos de Trump para pôr fim à guerra através de Islamabade, segundo uma fonte anónima citada pela agência de notícias iraniana Tasnim.
A "Operação Fúria Épica", como o Pentágono baptizou a ofensiva, e a "Operação Leão Rugidor", na nomenclatura israelita, foram precedidas por meses de pressão crescente. As negociações nucleares indiretas mediadas por Omã terminaram sem acordo, e os EUA então iniciaram o seu maior aumento de presença militar no Médio Oriente desde a invasão do Iraque em 2003.
O primeiro grande resultado estratégico foi a morte de Ali Khamenei, líder supremo do Irão quase quatro décadas. Com ele caíram outros altos responsáveis militares e do aparelho de segurança iraniano.
O Irão respondeu com o encerramento do Estreito de Ormuz.
Ormuz fechado: a pior crise energética desde os anos 70
O bloqueio do Estreito de Ormuz já retirou do mercado um volume de petróleo e de gás superior aos choques petrolíferos dos anos 70. O diretor da Agência Internacional de Energia estima que a redução equivale ou supera os 11 milhões de barris por dia, acima das perdas combinadas de 1973 e 1979 — e num corte de gás que duplica a rutura provocada pela invasão russa da Ucrânia em 2022.
O barril de Brent, que estava na casa dos 70 dólares na semana anterior ao conflito, chegou a ser cotado acima dos 120 dólares desde o início do conflito. Na tarde de sexta-feira, 27 de março, era negociado a 106,25 dólares.
Portugal está relativamente protegido na origem do seu crude — Brasil, Espanha e EUA são os principais fornecedores de petróleo e derivados, e a Galp evitou, nas últimas semanas, contratar cargas que passassem pelo Estreito de Ormuz. Mas a proteção é parcial: o petróleo é negociado num mercado global, e qualquer perturbação numa rota estratégica como o Estreito de Ormuz pode provocar subidas no preço internacional do crude que acabam por se refletir no custo dos combustíveis em Portugal.
Na frente macroeconómica, o Banco de Portugal admite que a economia pode crescer menos de 1,5% em 2026 e que a inflação poderá superar os 4% — um cenário muito distante do previsto no Orçamento do Estado.
Negociações no impasse: Teerão rejeita o plano de 15 pontos
Na frente diplomática, o Irão rejeitou uma proposta de cessar-fogo dos EEUA e manteve ataques contra Israel e países árabes do Golfo, classificando uma iniciativa de Trump para negociações indiretas como "ilógica e inviável" nesta fase da guerra. Teerão afirmou que se foca em atingir os seus objetivos e só considera o fim da guerra — e não um cessar-fogo — após os alcançar.
Em simultâneo, o Irão terá feito chegar aos americanos as suas próprias condições, numa lista em que o regime coloca a "fasquia alta": levantamento de todas as sanções económicas, encerramento de todas as bases militares americanas na região, fim dos ataques israelitas ao Hezbollah e criação de uma portagem iraniana no Estreito de Ormuz. Condições que Washington considera inaceitáveis.
Trump, por seu lado, garantiu esta semana que as negociações estão "em curso neste momento", com Steve Witkoff, Jared Kushner, Marco Rubio e JD Vance envolvidos no processo. O presidente americano ameaçou "desatar um infierno" se Teerão não aceitar pôr fim ao conflito, enquanto Teerão continua a negar que exista qualquer diálogo direto com Washington.
Os EUA trabalham para organizar uma reunião em Paquistão, depois de Teerão não ter aceite o plano de 15 pontos. Ministros das Relações Exteriores do Paquistão, Arábia Saudita, Turquia e Egito reuniram-se este domingo em Islamabad para discutir formas de encerrar a guerra.
Em simultâneo com o impasse diplomático, a guerra alarga-se geograficamente. O primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu anunciou este domingo uma ordem para expandir a ofensiva militar de Israel no sul do Líbano, declarando ter instruído as forças armadas a ampliarem a "zona de segurança" na fronteira norte do país.
No sábado, os Houthis do Iémen, aliados do Irão, realizaram os seus primeiros ataques contra Israel desde o início do conflito.
Os ministros das Negócios Estrangeiros do G7 instaram a uma "cessação imediata" dos ataques contra civis e infraestruturas civis, e apelaram ao Irão para que restabeleça imediatamente a liberdade de navegação no Estreito de Ormuz.