Os Estados Unidos e Israel iniciaram os ataques ao Irão há mais de três meses. E aquilo que, pelo menos na previsão de Washington, se trataria de uma missão rápida e forte de enfraquecimento militar e político do regime iraniano, transformou-se, já há algum tempo, numa dor de cabeça para o Presidente Donald Trump e para o Partido Republicano. Afinal de contas, Trump concorreu de novo à Casa Branca com uma plataforma de política externa assente no fim das guerras intermináveis, principalmente no Médio Oriente, e os Republicanos têm umas eleições intercalares cruciais dentro de cinco meses.
Nestes já mais de 100 dias desde que as bombas começaram a cair em Teerão, as ameaças, os ataques e as negociações multiplicam-se, criando um loop que vai deixando o nó cada vez mais difícil de desatar. Nos últimos dias, após as propostas de acordo e conversas, que normalmente acabam em desmentidos e no habitual ‘diz que disse’, quando Trump continuava a dizer que há que acabar com a guerra, parece que ainda não estamos perto desse objetivo. Mas estaremos de regresso à estaca zero?
Uma resposta afirmativa a esta questão não parece descabelada. No entanto, não é essa a opinião de Firas Maksad, o diretor-geral para o Médio Oriente e Norte de África do Eurasia Group, que, em declarações à BBC, disse que este escalar dos últimos dias entre Washington e Teerão não lhe parece suficiente para apresentar «um risco imediato de esta guerra recomeçar a sério» porque as ações dos Estados Unidos «estão cuidadosamente coreografadas». «[Os EUA] atacaram alvos de radar [e] instalações militares ao longo da costa iraniana, nos arredores do Estreito de Ormuz», mas «nada para além disso». «Este é um conflito controlado», continuou, concluindo que «nenhum dos lados quer ver o regresso a hostilidades totais como as que tivemos no mês passado».
O recente escalar das hostilidades foi uma consequência de um ataque iraniano que abateu um helicóptero norte-americano que sobrevoava o Estreito de Ormuz na passada terça-feira. A retaliação dos Estados Unidos não demorou e levou a cabo, de acordo com um comunicado Centcom (Comando Central dos EUA), uma «missão» que representa uma «resposta proporcional à agressão iraniana injustificada». O próprio Presidente dos EUA disse, numa entrevista concedida ainda no dia 9 à ABC News, que se tratou de «uma resposta ao que fizeram com o nosso helicóptero na noite passada, e acredito que a resposta deve ser muito firme, muito contundente, e é isso que esta é». Do outro lado, o ministro dos Negócios Estrangeiros iraniano, Abbas Araghchi, recorreu à rede social X para deixar um aviso: «Apesar das suas derrotas no campo de batalha, os EUA optaram por testar a nossa determinação. As nossas Poderosas Forças Armadas não deixarão nenhum ataque ou ameaça sem resposta». «Abandonem a nossa região se quiserem estar em segurança», concluiu.
Ameaças, de novo
Independentemente do otimismo controlado demonstrado por Firas Maksad nas declarações à BBC citadas acima, a escalada pode mesmo vir a tomar outras proporções. E quem o assume é Donald Trump. Num comunicado feito, como de costume, na sua conta oficial da rede social Truth na tarde de ontem, o chefe da Casa Branca voltou a ameaçar o Irão de forma contundente. «Os Estados Unidos vão atacar o Irão (cuja Marinha, Força Aérea, Radar, Antiaérea e todas as outras formas de Defesa, juntamente com a maior parte da sua capacidade ofensiva, foram DESTRUÍDAS!) MUITO DURAMENTE ESTA NOITE», começou por escrever o Presidente. Mas a ameaça não ficou circunscrita a meros bombardeamentos: «A dado momento num futuro não muito distante», anunciou, «vamos tomar a Ilha de Kharg e outros pontos de infraestrutura petrolífera, e assumir o controlo total dos seus Mercados de Petróleo e Gás, tal como fizemos com a Venezuela, o que está a correr de forma brilhante tanto para a Venezuela como para os Estados Unidos da América».
Esta mensagem acaba por confirmar a validade do aviso premonitório de George F. Will, um dos mais icónicos jornalistas e comentadores conservadores americanos, após a intervenção na Venezuela que culminou na captura de Nicolás Maduro. «O que é indisputável [sobre a intervenção na Venezuela]», disse Will ainda antes da intervenção no Irão, «é que [Donald Trump] se divertiu imenso a fazê-lo, e surge uma embriaguez a partir deste exercício do poder militar que diz ‘foi divertido, vamos fazê-lo outra vez’».
O impacto económico
Falando em petróleo, não há como evitar as ondas de choque que se fazem sentir um pouco por toda a parte, especialmente na Europa. A importância do Estreito de Ormuz não carece já de mais explicações, e o impacto nas economias europeias tem sido significativo. Significativo ao ponto de o Banco Central Europeu (BCE) ter emitido, ontem, um comunicado onde explica a sua decisão para aumentar as taxas de juro em 25 pontos base. «O Conselho do BCE está empenhado em definir a política monetária de forma a assegurar que a inflação se estabilize na sua meta de 2% a médio prazo. Em consonância com este compromisso, decidiu hoje aumentar as três taxas de juro diretoras do BCE em 25 pontos base. A guerra no Médio Oriente está a gerar pressões inflacionistas, e a decisão de aumentar as taxas é robusta num conjunto de cenários que mapeiam a forma como o choque poderá evoluir e afetar as perspetivas a médio prazo para a área do euro». As taxas de juro diretoras passam assim a situar-se nos 2,25%.
Esta decisão comunicada ontem por Christine Lagarde não reúne consenso entre os economistas e tem sido vista mais como um combate contra «fantasmas do passado - mais especificamente, a sua reação tardia demais à perturbação inflacionista de 2021 e 2022», como escreveu Carsten Brzeski, economista-chefe do ING Alemanha. «Tudo isto significa que um segundo aumento de taxas após a decisão de hoje, em julho ou em setembro, se tornou mais provável», concluiu Brzeski.
Assim, enquanto a Administração Trump e o regime dos aiatolas mantêm o impasse no Golfo, os países que têm tentado mediar e as economias que estão a ser direta e indiretamente afetadas continuam na expetativa.