quinta-feira, 16 abr. 2026

Guerra no Irão. A História está de volta

Em menos de dois meses, assistimos a outra intervenção norte-americana no estrangeiro. Desta vez, o alvo foi o regime iraniano. Estará o espírito ‘neocon’ de regresso à Casa Branca?
Guerra no Irão. A História está de volta

A História está de volta.E voltou a todo o gás. Duas décadas após a infame Guerra do Iraque, os Estados Unidos voltam a intervir no Médio Oriente. Desta vez, o alvo foi a República Islâmica do Irão.
«Durante 47 anos», disse o Presidente norte-americano, Donald Trump, no seu primeiro discurso após o lançamento das bombas, «o regime iraniano gritou ‘Morte à América’ e travou uma campanha interminável de derramamento de sangue e assassinatos em massa, tendo como alvo os Estados Unidos, as nossas tropas e pessoas inocentes em muitos, muitos países». Para Trump, não mais. No passado dia 28, a Operação Epic Fury, uma coordenação entre os Estados Unidos e Israel, passou do papel para o terreno e começaram os ataques ao Irão. Os alvos foram vários, como o mapa deixa claro, e os objetivos também.

Nesta primeira intervenção, o quadragésimo sétimo Presidente dos EUA frisou uma das questões mais importantes que levaram Washington a agir desta forma: impedir que o regime dos aiatolas pudesse colocar as mãos numa arma nuclear. «O Irão é o principal patrocinador estatal do terrorismo no mundo», disse Trump, acrescentando que, «recentemente, matou dezenas de milhares dos seus próprios cidadãos nas ruas enquanto protestavam. Sempre foi política dos Estados Unidos, em particular da minha administração, que este regime terrorista nunca pudesse ter uma arma nuclear». Importa recordar que as tensões entre Washington e Teerão em relação à questão nuclear têm registado um aumento considerável no último ano, com os EUA a bombardearem, em junho de 2025, infraestruturas nevrálgicas deste programa. Trump tinha vindo a insistir neste ponto junto da República Islâmica e até parecia que as negociações estariam para breve. Mas não. Acabaram mesmo por ser apenas um prelúdio para os ataques. «Eles rejeitaram todas as oportunidades de renunciar às suas ambições nucleares», disse Trump, «e nós não podemos mais tolerar isso».

Mas os objetivos da intervenção não se esgotam neste ponto. A questão do regime é também crucial. Quando os iranianos saíram às ruas no passado mês de janeiro foram recebidos com força brutal por parte do regime, que demonstrou pouco remorso pelo assassinato em massa da sua própria população. O número exato de mortos naqueles dias de janeiro não é, e provavelmente nunca será, conhecido com exatidão, mas várias estimativas credíveis apontam para algumas dezenas de milhares de mortes. À data, Donald Trump havia dito aos iranianos para não pararem de lutar porque a ajuda estaria a caminho. E foi mesmo assim, como ajuda, que muitos iranianos têm visto a intervenção norte-americana porque, no final de contas, logrou um dos seus objetivos primordiais: decapitar o regime.

«Khamenei, uma das pessoas mais maléficas da história, está morto», foi assim, através de uma publicação na rede social Truth, que Donald Trump anunciou ao mundo que o Líder Supremo do Irão, o aiatola Ali Khamenei, tinha sido eliminado num dos vários ataques desferidos à capital iraniana. Para Trump, a morte de Khamenei «não é apenas justiça para o povo do Irão, mas para todos os grandes americanos e para as pessoas de muitos países em todo o mundo que foram mortas ou mutiladas por Khamenei e pelo seu bando de bandidos sanguinários». Os ataques que levaram à morte do Líder Supremo e de outras figuras da cúpula do regime iraniano foram levados a cabo em plena luz do dia pela Força Aérea de Israel – com apoio americano, naturalmente – com Trump a escrever que Khamenei «não conseguiu escapar aos nossos sistemas de inteligência e rastreamento altamente sofisticados e, trabalhando em estreita colaboração com Israel, não havia nada que ele, ou os outros líderes que foram mortos com ele, pudessem fazer».

 

A retaliação iraniana

Naturalmente, os ataques dos Estados Unidos e de Israel provocaram uma vaga de ataques retaliatórios por parte de Teerão. De acordo com o almirante norte-americano Brad Cooper, citado pela Al Jazeera, o Irão reagiu através de mais de 500 mísseis balísticos e 2 mil drones lançados maioritariamente para alvos americanos nos outros países da região. A embaixada dos Estados Unidos na Arábia Saudita foi atingida nestes ataques e outros ficaram perto de atingir o consulado no Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, onde morreram três pessoas. O Irão atacou ainda, para além de Israel, o Catar, o Bahrein, o Iraque, a Jordânia, Oman e até o Chipre. De acordo com o Ministério da Defesa da Turquia, um dos mísseis balísticos disparados pela República Islâmica dirigia-se para território turco, mas acabou por ser intercetado pelas defesas aéreas da NATO.

Esta questão da retaliação em várias frentes, vista por vários especialistas como um reflexo de desespero de um regime que nunca esteve tão frágil nos últimos 47 anos, não deixa de ser consideravelmente importante. Isto porque os bombardeamentos do Irão contra praticamente todos os seus vizinhos pode criar uma coligação que, mesmo sendo do interesse americano e israelita, nunca foi fácil de articular. Foi esta coligação, ou pelo menos a criação e uma zona de cooperação onde se procedesse ao restabelecimento de relações diplomáticas entre Israel e os seus vizinhos, e mesmo entre estes últimos, que Trump tentou criar no seu primeiro mandato através dos Acordos de Abraão. Acordos estes que o Irão, através do Hamas, o seu proxy em Gaza, tentou, com algum sucesso, dinamitar. E agora pode, com estes ataques, relançar esta ligação. Importa também relembrar que, e independentemente das questões conjunturais que provocam a fraca ligação, e por não poucas vezes rivalidade, entre países como a Arábia Saudita, Catar, e Emirados Árabes Unidos e o Irão, tratamos de países todos eles árabes, sim, mas de matrizes diferentes. Enquanto os primeiros são de predominância sunita, o último é de predominância xiita, uma divergência centenária que fraturou o mundo islâmico fundamentalmente sobre a questão de quem deveria ser o sucessor de Maomé.

Assim, o regime iraniano está perante um jogo de vida ou de morte, e os Estados Unidos e Israel estão determinados em provocar rapidamente a sua queda, algo que tem exposta também algumas fraturas dentro do Partido Republicano.

 

O regresso do neoconservadorismo?

Pouco mais de duas décadas depois, Donald Trump, na ressaca dos ataques que eliminaram Khamenei, profere um discurso semelhante ao de Bush aquando da Guerra do Iraque: «Por fim, ao grande e orgulhoso povo do Irão, digo esta noite que a hora da vossa liberdade está próxima». «Quando terminarmos», concluiu, «assumam o controlo do vosso governo. Ele será vosso. Esta será provavelmente a vossa única oportunidade em várias gerações». Mais: não escondeu a vontade de ‘regime change’, ou mudança de regime, sempre associada com os neoconservadores da era Bush. Esta retórica semelhante provou uma onde de críticas, da esquerda à direita, porque, aparentemente, Trump estará a violar uma das bandeiras que o ajudou a ser eleito; primeiro, nas primárias do Partido Republicano em 2015 e, depois, nas últimas eleições presidenciais de 2024. Então, estará o neoconservadorismo de volta?

Para Vasco Rato, não. O professor de Ciência Política e Relações Internacionais na Universidade Lusófona, em declarações ao SOL, diz que «essa designação já nem faz sentido. Há 20 anos, quando se falava nos neoconservadores, era uma tentativa de preservar e alargar, aliás, o predomínio do poder americano num sistema unipolar». «25 anos depois», continua, «isso é impossível», porque «as condições estruturais do sistema internacional e os equilíbrios que hoje existem já não têm nada que ver com os desse período». Mais: Vasco Rato acredita que «Trump é extremamente adverso ao uso do poderio militar, mas sentiu que neste caso, de facto, não tinha outra escolha». «Por razões várias», conclui, «Trump quer fazer a mudança de regime, mas está a preparar politicamente as coisas para ter um desfecho que não seja esse. Porque, ao contrário do que aconteceu no Iraque, não há botas no terreno, não há nation building, não há nada desse género. Vai tentar fazer, na prática, aquilo que fez na Venezuela e aquilo que está a tentar fazer em Cuba e, portanto, ver se existe uma solução vinda de dentro do regime, ou das franjas do regime, mas cabe à população, também para evitar o que aconteceu no Iraque, dar legitimidade ao poder e por isso está a encorajar as pessoas a vir para rua. Isso faz sentido».

«A leitura que eu faço», remata Vasco Rato, «é que o objetivo final disto tudo é realmente acabar com este eixo da resistência, esta coligação americana». No mesmo sentido, Teresa Nogueira Pinto, professora de Ciência Política e Relações Internacionais, diz-nos que a «intervenção era previsível» e que «as operações na Venezuela e no Irão enquadram-se num fim último que será o enfraquecimento da China e a afirmação do poderio norte-americano nesta ordem internacional que está em reconfiguração. Do ponto de vista filosófico, a professora diz que Trump, ao «ir direto ao assunto» na Venezuela e declarar que a questão era o petróleo, «não moralizou a política externa». Mas agora, no Irão, «caiu nessa tentação». E, mesmo percebendo que a «tentação seja grande», a professora alerta que é «muito, muito perigosa» e relembra que «o que decidiu também a vitória de Donald Turmp foi a sua demarcação muito clara daquilo que era uma política externa moralizante do neoconservadorismo». «É necessário ter uma grande prudência», conclui Nogueira Pinto. «Acredito que possa haver aqui um realismo e essa tal ideia de uma ‘peace trhough strenght’ onde caiba esta operação, mas, de qualquer maneira, acho que é muito delicado, tem enormes riscos e pode também ter algumas consequências do ponto de vista dos equilíbrios internos». Por último, Teresa Nogueira Pinto diz que ainda «é muito cedo para falar até porque estes processos de mudança de regime ou de transição são sempre processos delicados, mais ainda num país como o Irão com tantas clivagens e com tantos anos de regime teocrático e autoritário».

 

Reação internacional

Com tudo isto, a região do Médio Oriente é, mais uma vez, uma das principais fontes de incerteza nas relações internacionais. É neste tabuleiro que se jogam vários jogos em simultâneo e pouca gente se atreverá a contestar que estamos perante um conflito verdadeiramente globalizado. Importa, então, tentar perceber as ondas de choque que emanam deste conflito. Primeiro, vejamos a reação dos aliados ocidentais.

O tridente mais importante da Europa – a Alemanha, a França e o Reino Unido – emitiu uma declaração conjunta após a retaliação iraniana, mostrando-se os três Estados «chocados com os ataques indiscriminados e desproporcionais com mísseis lançados pelo Irão». A mensagem foi curta, mas importa realçar a última frase: tendo em vista a sua defesa e a dos seus aliados na região, Friedrich Merz, Emmanuel Macron e Keir Starmer concordaram «em trabalhar em conjunto com os EUA e os aliados na região nesta matéria». Todavia, a postura de cada um dos vértices deste triângulo europeu não tem sido semelhante.

Merz reuniu-se com Trump na Sala Oval durante os últimos dias e concordou com os ataques levados a cabo pelos Estados Unidos e por Israel, dizendo que ambos os países tiveram «boas razões» para os fazer, particularmente o facto de que o Irão estaria perto de conseguir pôr as mãos numa arma nuclear. Naturalmente, esta postura valeu-lhe o elogio de Trump. Quem não foi merecedor de elogios por parte do líder norte-americano foi Starmer, ainda que tenha subscrito os mesmos princípios gerais. A causa? A demora do Governo britânico a dar permissão aos EUA para utilizar a base britânica Diego Garcia no Índico. Isto levou Trump a lamentar que as relações bilaterais EUA-Reino Unido «já não são o que eram». Mas Starmer, acusado de «não cooperar», pode ter sido vítima do seu próprio Governo, que retardou essa autorização, de acordo com a Sky News. Starmer acabaria por escudar-se no o argumento de que agiu, ou não agiu, privilegiando o «interesse nacional». A Base das Lajes, nos Açores também tem estado na ordem do dia. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Paulo Rangel, explicou que existe uma diferença entre «o que se passou até sexta-feira, dia 27» e o que aconteceu depois da intervenção americana. O reconhecimento formal por parte dos EUA fez com que Portugal passasse a conceder uma «autorização condicional para o uso da base».

Já Macron, que não se escondeu das obrigações francesas perante os aliados da região e que tem, nos últimos dias, tentado projetar uma imagem de força, acabou por dizer que os ataques israelo-americanos foram «contra o direito internacional» e que, por isso mesmo, o Eliseu «não pode aprová-los». Mas quem radicalizou a crítica, destacando-se dos restantes Estados-membros da União Europeia, foi o presidente do Governo espanhol, Pedro Sánchez. O líder socialista disse que a posição de Espanha podia ser resumida em quatro palavras: «No a la guerra» (não à guerra, em português), reforçando a importância que a Moncloa dá ao direito internacional. «Não vamos ser cúmplices de algo que é mau para o mundo e que também é contrário aos nossos valores e interesses, apenas por medo de represálias de alguém», disse Sánchez após ter negado aos Estados Unidos a utilização das suas bases militares, num claro e direto desafio a Washington. Trump ameaçou uma rutura comercial com Madrid e a sua secretária de imprensa, Karoline Leavitt, disse que os espanhóis tinham concordado em «cooperar com o exército americano».

Entretanto, os ataques continuam, o regime iraniano continua a tentar manter-se de pé e as únicas certezas, neste momento, parecem ser a de que não há certezas e a de que a mais romântica das teorias do fim da História – não necessariamente como Francis Fukuyama a defendeu – chegou a fim.

 

goncalo.nabeiro@nascerdosol.pt