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Prestes a entrar na quinta semana, a incerteza continua a ser a única constante no conflito entre os Estados Unidos e o Irão. O presidente norte-americano, Donald Trump, declarou que, após três semanas de bombardeamentos, as negociações foram colocadas em marcha e que suspenderia os ataques por cinco dias, provocando quase de imediato uma descida no preço do petróleo. Contudo, a liderança iraniana, que é também ela, neste momento, uma das principais fontes de especulação e incerteza, negou qualquer contacto. Entretanto, Israel anunciou que tenciona controlar o Sul do Líbano. Mais uma prova, se dúvidas restassem, de que este conflito está a reconfigurar o Golfo Pérsico.
As negociações
A abertura às negociações entre Washington e Teerão foi anunciada por Trump após o líder da Casa Branca ter intensificado a pressão sob o regime iraniano quanto ao Estreito de Ormuz. «Se o Irão não abrir totalmente, sem qualquer ameaça, o Estreito de Ormuz, no prazo de 48 horas a contar deste preciso momento», escreveu Trump numa mensagem publicada no passado dia 21 de março na rede social Truth, «os Estados Unidos da América atacarão e destruirão as suas várias centrais elétricas, começando pela maior delas».
Como é amplamente conhecido, o fecho desta passagem fundamental, que tem causado disrupções nas cadeias de distribuição globais, principalmente no que diz respeito ao petróleo e ao gás, tem sido a principal arma de um país militarmente inferior e politicamente frágil.
Da Casa Branca veio uma tentativa de apaziguamento, com Trump a anunciar negociações e a apresentar um plano de 15 pontos para o cessar-fogo. «O plano foi apresentado ao Irão por intermediários do Paquistão», pode ler-se na notícia escrita em conjunto por Aamer Madhani, Jon Gambrell, David Rising e Samy Magdy publicada na AP, «que se ofereceram para acolher novas negociações entre Washington e Teerão, segundo a fonte, que falou sob condição de anonimato por não estar autorizada a falar publicamente».
No entanto, o regime iraniano negou as declarações do presidente norte-americano e rejeitou a proposta de paz por entender que «não tem lógica». «Não chames acordo à tua derrota. A era das tuas promessas chegou ao fim», disse o exército iraniano a Donald Trump, citado pelo Observador, que foca ainda uma passagem importante de um comunicado do porta-voz do Comando Unificado de Operações Khatam al-Anbiya, Ebrahim Zolfaghari: «Existem hoje duas frentes: a verdade e a mentira. E nenhum amante da verdade se deixa seduzir pelas tuas ondas mediáticas. Será que os teus conflitos internos chegaram a um ponto em que estás a negociar contigo mesmo?». Ficou também no ar a ameaça de que os preços do petróleo não voltarão ao normal em breve.
A reação israelita
Se os Estados Unidos estão num impasse que torna difícil traçar os contornos para o fim do conflito, Benjamin Netanyahu, que poderá ter ficado satisfeito com as não negociações entre norte-americanos e iranianos, continua a sua luta contra os vizinhos a Norte. Israel Katz, o ministro da Defesa do Estado judaico, não poderia ter deixado mais claras as suas intenções: «A política de Israel no Líbano é clara: há terror e mísseis – não há casas nem moradores – e as Forças de Defesa de Israel controlarão a zona de segurança até o rio Litani», escreveu Katz na sua conta oficial da rede social X na passada terça-feira. Dois dias antes, já tinha ordenado, em conjunto com o primeiro-ministro, «às Forças de Defesa de Israel (IDF) que [destruíssem] imediatamente todas as pontes sobre o rio Litani que são usadas para atividades terroristas, a fim de impedir a passagem de terroristas e armas do Hezbollah para o Sul e, além disso, que acelerem a destruição de casas libanesas nas aldeias de contato para frustrar as ameaças aos colonatos israelenses – de acordo com os modelos de Beit Hanoun e Rafah em Gaza».
Naturalmente, as palavras de Netanyahu estão alinhadas com as do seu ministro. Mas, e independentemente das palavras de Donald Trump, o líder do executivo israelita continua empenhado na guerra contra o Irão e das suas declarações pode deduzir-se que o fim da instabilidade no Médio Oriente não está para breve. Após dizer, no passado dia 22, que o «Irão provou mais uma vez, nas últimas 48 horas, que é inimigo da civilização e um perigo para o mundo livre: atacando crianças, famílias e idosos com mísseis terroristas, ameaçando os locais sagrados de Jerusalém, lançando mísseis de longo alcance e tentando chantagear o mundo através do Estreito de Ormuz», Netanyahu garantiu na passada quarta-feira que, «apesar do que é noticiado nos meios de comunicação social», a guerra vai «continuar com toda a força». Citado pelo The Times of Israel, o primeiro-ministro israelita diz que o objetivo primeiro neste momento é «desmantelar o Hezbollah», garantindo que o país está «determinado a fazer tudo o que estiver ao nosso alcance para mudar radicalmente a situação no Líbano», não perdendo de vista, ainda assim, a proteção dos drusos na Síria.
Mais: como escreveu a agência de notícias israelita i24 News na quarta-feira, Netanyahu «teme o cessar-fogo» e, recorrendo a uma notícia do The New York Times disse que «ordenou a intensificação dos ataques no Irão nas próximas 48 horas, com o objetivo de destruir o máximo possível da indústria de armamento iraniana». Isto porque esta pausa chegaria «num momento em que [Israel] ainda não alcançou os seus principais objetivos de guerra: eliminar a ameaça dos mísseis balísticos iranianos, garantir que o Irão não possa desenvolver armas nucleares e criar condições para que o povo iraniano se revolte contra o seu Governo».
Por tudo isto, não há como escapar de novo à conclusão de que é a incerteza, na região e no mundo, que impera.