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Eram 8h15 no Teerão (6h15 em Lisboa) quando a operação “Fúria Épica” foi posta em prática. Os Estados Unidos e Israel atacaram o Irão, após semanas de negociações e crescente tensão diplomática. As ameaças eram conhecidas, só não se sabia quando ia acontecer. A pergunta mantém-se: o que aconteceu para desencadear o conflito que muitos temiam?
Quais os motivos da tensão entre os EUA e Israel e o Irão?
O programa nuclear
O Irão tem desenvolvido um programa nuclear que, segundo o Teerão, é “estritamente civil e energético”. No entanto, Israel e os EUA levantaram suspeitas que pudesse servir como ameaça para fabricar armas nucleares. Temiam, então, que o Irão pudesse alterar o equilíbrio de poder no Médio Oriente e se tornasse uma verdadeira ameaça para Israel, conhecido inimigo, e para os Estados Unidos.
Apesar da ronda de negociações nas últimas semanas, a Casa Branca nunca chegou a acordo, garantindo que nunca tinham ouvido as palavras mágicas: “Nunca teremos uma arma nuclear”, de acordo com o presidente norte-americano, Donald Trump.
O apoio iraniano a grupos militantes “terroristas”
O Irão apoia e financia grupos que Israel considera “terroristas”. É o caso do Hezbollah, no Líbano, e da Jihad Islâmica, na Palestina. Tanto Israel como os EUA consideram o Irão um “patrocinador do terrorismo” e veem o seu envolvimento com estes grupos como uma ameaça à estabilidade regional.
O receio da expansão
A presença militar do Irão na Síria, Iraque e Iémen preocupa tanto Israel como os EUA por se sentirem ameaçados pela tentativa de expansão de influência. Os dois países consideram que o apoio dado pelo Teerão não é apenas por alianças regionais, mas sim para expandir o poder do Irão no Médio Oriente.
Para Israel, cada avanço iraniano é um ameaça direta à sua segurança nacional, não apenas em termos militares, mas também a nível estratégico e geopolítico. Já os Estados Unidos veem essas movimentações como um desafio à estabilidade regional e um risco para os seus aliados.
Conflitos anteriores
Nos últimos anos, o Médio Oriente tem assistido a uma escalada de tensão e confrontos entre Irão, Israel e Estados Unidos.
Israel é frequentemente acusado de conduzir operações encobertas dentro de território iraniano (mas nunca assumiu). O Irão tem respondido a algumas dessas ações com ataques a aliados regionais, como milícias no Iraque, mantendo um ciclo de retaliação constante.
A guerra dos 12 dias
O mais recente conflito entre Israel e o Irão ocorreu entre os dias 13 e 24 de junho do ano passado. O conflito foi desencadeado após as forças israelitas lançarem múltiplos ataques contra dezenas de alvos no Irão, alegadamente com o objetivo de impedir a expansão do seu programa nuclear.
Durante os 12 dias, Israel atacou instalações militares, nucleares e energéticas iranianas, bem como zonas residenciais. Morreram mais de mil pessoas no Irão, entre os quais, pelo menos, 30 comandantes militares importantes e 11 cientistas nucleares. O Teerão respondeu também com vagas de ataques com mísseis.
A 21 de junho, três dias antes de terminar o conflito, os Estados Unidos atacaram o Irão pela primeira vez, bombardeando três das principais instalações nucleares iranianas: Fordow, Natanz e Esfahan. Na altura, Trump afirmava que a guerra apenas tinha começado no momento em que os EUA se juntaram.
Dois dias depois, a 23 de junho, o Iêmen anunciava que tinha entrado na guerra, ao lado do Irão. No mesmo dia, Donald Trump disse que Israel e o Irão tinham concordado com um cessar-fogo, que acabou apenas por acontecer a 25 de junho, já que as violações iniciais pelos iranianos não permitiram um resultado imediato.
Da tensão que nunca se dissipou ao dia 28 de fevereiro
Em abril de 2019, a administração Trump deu o primeiro passo fulcral contra o Irão: designou a Guarda Revolucionária iraniana, o corpo de elite das forças armadas do Irão, como uma “organização terrorista”.
A 3 de janeiro de 2020, o General Qasem Soleimani, o homem mais poderoso do Irão depois do líder supremo, foi morto por mísseis disparados por drones americanos perto do Aeroporto Internacional de Bagdá. Pelo menos mais 10 pessoas morreram no mesmo ataque, incluindo Abu Mahdi al-Muhandis, o líder das Forças de Mobilização Popular. Na altura, Donald Trump justificou a ação dizendo que Soleimani estava a planear um “ataque iminente” contra diplomatas e forças norte-americanas no Iraque. A retaliação baseou-se em mísseis balísticos contra bases iraquianas com militares norte-americanos e, apesar do receio de uma guerra aberta, esta nunca chegou a acontecer.
O ataque do Hamas a Israel a 7 de outubro de 2023 teve consequências que desencadearam depois a Guerra dos 12 dias. Isto porque o Irão foi o financiador do Hamas, organização islâmica da Palestina, durante anos. Em 2024, o confronto deixou de ser indireto para passar a ataques concretos entre os dois países, até chegar a 2025, com os EUA a entrar em ação do lado de Israel.
Os ataques de 2025 deixaram o Irão devastado: com uma economia derrotada, uma inflação de 60% e infraestruturas militares destruídas, o regime do líder supremo Ayatollah Ali Khamenei acabou por ter de se preocupar mais com os confrontos internos do que com os países inimigos. A 28 de dezembro de 2025, a queda da moeda iraniana foi a “gota de água” que desencadeou protestos em massa no Teerão. O príncipe herdeiro iraniano apelou à mobilização da população contra o regime e as pessoas responderam com protestos massivos.
As manifestações levaram o regime a encerrar a internet e as comunicações internacionais numa tentativa de isolar o país. A repressão foi brutal, mas as manifestações nunca pararam. Há relatos de dezenas de milhares de civis mortos pelas forças de segurança e pela Guarda Revolucionária iraniana.
Donald Trump não deixou as ações do regime passar em vão e tornou a ameaçar intervenções militares naquele país para “defender os manifestantes”. No entanto, o foco rapidamente mudou para o programa nuclear do Irão e para a ameaça que constituía.
No final de janeiro, Donald Trump acabou por assumir o envio de uma “armada maciça” para o Irão. Chegaram àquele país porta-aviões USS ABraham Lincoln e USS Geral Ford (um dos maiores porta-aviões do mundo), além de dezenas de caças, aviões-tanque e sistemas de defesa aérea.
Abriu-se então espaço para negociações e uma possibilidade de “paz diplomática” entre os dois países: sob a mediação de Omã, os negociadores norte-americanos e iranianos retomaram contactos indiretos, onde Washington exigia o fim do programa de mísseis balísticos e o corte de relações com grupos armados da região. No entanto, as rondas de conversações não tiveram sucesso. A 19 de fevereiro, Trump deu um prazo de 10 a 15 dias “no máximo” “antes que coisas más acontecessem”: todos sabiam que se referia a uma intervenção militar iminente. No dia 27 de fevereiro, a Agência Internacional de Energia Atómica informou que não podia garantir que o Irão tinha suspendido as suas atividades no enriquecimento de urânio, tal como havia sido exigido pelos EUA, dando início à intervenção militar ameaçada há semanas.
A incerteza mantém-se. Donald Trump afirma que não pode revelar prazos por “razões de segurança”, mas, numa entrevista aos meios de comunicação, apontou uma previsão que, longe de certa, sugere um prazo: prevê que o conflito possa durar “quatro ou cinco semanas”. Já Israel é mais rígido. Depois da entrada do Hezbollah no conflito, a convicção é simples: “o conflito vai durar o tempo que tiver de durar”, garante Netanyahu.