Gronelândia. O centro do novo braço de ferro transatlântico

Trump diz que menos que o controlo da ilha é ‘inaceitável’, a NATO conduz exercícios militares e a reunião entre EUA e Dinamarca não foi conclusiva. Os interesses parecem irreconciliáveis
Gronelândia. O centro do novo braço de ferro transatlântico

A tensão na aliança transatlântica é de cortar à faca. Aliás, este tem sido o novo normal de uma relação que tem acusado o desgaste desde que Donald Trump foi reeleito Presidente dos Estados Unidos. A aproximação e o afastamento são movimentos naturais no seio de qualquer aliança e refletem, de forma mais ou menos brusca, as circunstâncias que pautam os interesses e as dinâmicas nacionais dos países que a compõem em cada momento.

Henry Kissinger, figura central da realpolitik, dizia que «os Estados Unidos não têm amigos nem inimigos permanentes, apenas interesses». A questão da Gronelândia prova isso mesmo. O facto de se tratar de um território que se encontra sob jurisdição dinamarquesa – um membro da NATO e da União Europeia –, não impede que Trump, ao considerar que a região é de particular importância estratégica para os Estados Unidos, olhe por cima da aliança e force um dos seus aliados a dobrar-se perante o interesse nacional norte-americano.

«Os Estados Unidos precisam da Gronelândia para fins de segurança nacional», começou por escrever o Presidente norte-americano no seu perfil oficial da rede social Truth. «É vital para a Cúpula Dourada que estamos a construir», disse, acrescentando que «a NATO deve liderar o caminho» para que os EUA a consigam obter. Isto porque, «se não o fizermos, a Rússia ou a China o fá-lo-ão, e isso não vai acontecer!».

Tropas, discussões e equilibrismos

Mas os outros membros da NATO não partilham da opinião do seu parceiro mais forte. A primeira-ministra da Dinamarca, Mette Frederiksen, disse na quarta-feira que «a defesa e a proteção da Gronelândia são uma preocupação comum para toda a aliança da NATO», e que o facto de a ambição americana permanecer intacta é «grave e, por isso, continuamos os nossos esforços para impedir que esse cenário se torna realidade». O líder francês, Emmanuel Macron, acedeu ao pedido dinamarquês: «A pedido da Dinamarca, decidi que a França participará nos exercícios conjuntos organizados pela Dinamarca na Gronelândia, a Operação Arctic Endurance». «Os primeiros elementos militares franceses já estão a caminho. Outros seguir-se-ão», acrescentou. O objetivo deste destacamento, que não é uma novidade na aliança, é, de acordo com o comunicado oficial publicado pelo ministério da Defesa dinamarquês, «treinar a capacidade de operar nas condições únicas do Ártico e fortalecer a presença da aliança na região, beneficiando tanto a segurança europeia quanto a transatlântica».

Na terça-feira, o Secretário-Geral da Aliança Atlântica, Mark Rutte, tentou, perante o Fórum Global Europe 2026 do Renew Europe, transparecer o espírito de união no seio da aliança, não tomando partidos na contenda entre os parceiros: «Foi o Presidente Trump, no seu primeiro mandato, que basicamente nos alertou para o facto de que as rotas marítimas estão a abrir, que a Rússia e a China estão mais ativas e que é preciso fazer mais juntos nessa região». «Tivemos uma discussão muito boa na NATO», revelou, acrescentando: «Estamos agora a dar os próximos passos para dar continuidade a isso, porque todos concordamos — na NATO — que, quando se trata da proteção do Ártico, temos de trabalhar juntos, e é exatamente isso que estamos a fazer».

Por sua vez, Trump voltou a sublinhar a ideia de que a NATO sem os Estados Unidos perde a capacidade para cumprir os objetivos pelos qual foi criada: «Militarmente, sem o vasto poder dos Estados Unidos, grande parte do qual construí durante o meu primeiro mandato e estou agora a levar a um novo e ainda mais elevado nível, a NATO não seria uma força eficaz nem um elemento dissuasor – nem de longe!». «Eles sabem isso, e eu também. A NATO torna-se muito mais formidável e eficaz com a Gronelândia nas mãos dos Estados Unidos», concluiu.

Assim, e independentemente da manobra de equilibrismo por parte de Rutte, as divergências parecem estar a atingir um ponto inultrapassável. Ontem, em Washington, DC, representantes da Dinamarca e da Gronelândia reuniram com o vice-presidente dos EUA, J.D. Vance, e com o Secretário de Estado e Conselheiro de Segurança Nacional, Marco Rubio. Em declarações à imprensa, o ministro dos Negócios Estrangeiros dinamarquês, Lars Rasmussen, disse que a conversa foi ao mesmo tempo «franca» e «construtiva», mas que, no final, uma «discordância fundamental» permanece. «Não conseguimos mudar a posição americana», lamentou.

O futuro

Com esta clivagem aberta no ponto nevrálgico da segurança ocidental coletiva, importa olhar para o futuro não só da NATO, como do mundo. A ordem multilateral criada no pós-II Guerra Mundial e fortalecida no final da Guerra Fria está defunta e as estratégias do Ocidente devem ser repensadas. Para ajudar neste exercício, Alexander Stubb, Presidente da Finlândia, escreveu um ensaio publicado na Foreign Affairs onde tece algumas considerações sobre aquilo que considera ser «a última oportunidade do Ocidente». A sua tese, de que o mundo está dividido em três grandes esferas – o «triângulo do poder» que conta com o Ocidente, o Leste e o Sul Global –, está aprofundada no livro que publicou no início desta semana. Stubb argumenta que «os Estados Unidos mudaram a sua ênfase do multilateralismo para o transacionalismo, mas ainda mantêm compromissos com instituições regionais como a NATO». Por isso, escreve, relembrando que «alianças como a NATO proporcionaram aos Estados Unidos vantagens militares e políticas fora da sua própria região», «cabe ao resto do Ocidente convencer a administração Trump do valor das instituições do pós-guerra e do papel ativo dos Estados Unidos nessas instituições».

Esperemos pelo que o futuro próximo reserva para a aliança transatlântica.